Os planos de Francisco para a reforma da Igreja (Parte II)

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14 Outubro 2016

"o estilo de Francisco de governar a Igreja e falar sem rodeios com os profanos. Pondo de lado os seus discursos diversificados à Cúria, ele em geral não tem governado contra a Cúria, mas sem ela. Isso vem significando uma paralisia quase completa na produção de documentos por parte dos dicastérios, uma novidade dado que, por determinado tempo (especialmente sob João Paulo II), a chave para uma carreira curial era trabalhar de acordo com a máxima “publish or parish” (quer dizer, ou publiquem-se documentos em apoio à teologia do pontificado ou voltem para uma paróquia ou diocese)", escreve Massimo Faggioli, professor de teologia e estudos religiosos na Villanova University, na Pensilvânia, em artigo publicado por Commonweal, 12-10-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo ele, comentando a visão teológica e eclesiológica de Francisco para a reforma da Cúria, "parece ser a primeira vez no período pós-Vaticano II que um papa recebe a eclesiologia do Vaticano II e a expande no sentido da sinodalidade (o que é um passo para além da colegialidade episcopal) e da descentralização".

A primeira parte do artigo pode ser lida clicando aqui.

Eis o artigo. 

Logo após a sua eleição em março de 2013, o Papa Francisco sinalizou que a reforma curial estava em sua pauta quando criou o Conselho dos Cardeais (inicialmente com oito membros e que, em julho de 2014, recebeu mais um participante, ficando conhecido por C9). O Conselho realizou a sua primeira reunião em outubro de 2013, mas nos anos que se seguiram pouca coisa houve para sugerir que uma reforma ampla estivesse a caminho. Houve um anúncio ocasional sobre a substituição da constituição apostólica Pastor Bonus, de João Paulo II, publicada em 1988, mas uns começaram a se perguntar se a reforma da Cúria era realmente uma prioridade tanto quanto se pensou originalmente.

Alguma coisa, porém, poderá estar acontecendo em breve, a julgar por um artigo na revista católica italiana Il Regno escrito por Dom Marcello Semeraro, secretário do C9 e um dos únicos dois membros de dentro da Cúria (o Cardeal Pietro Parolin é o outro). Semeraro cita por extenso um volume editado por Carlos Maria Galli e Antonio Spadaro, SJ, trazendo a visão de Francisco sobre a relação entre a reforma curial e a reforma da Igreja, discutindo a preparação do C9 para tal reforma e olhando o futuro para o que pode acontecer.

Vale recordar que Semeraro cita Yves Congar ao afirmar que a reforma deve envolver um repensar eclesiológico da Cúria, e ser feito com o objetivo de adaptar-se às novas necessidades da vida da Igreja. A “conversão pastoral” e a “pastoralidade” do governo da Igreja, segundo Semeraro, serão componentes significativos. Esta não é a novidade; a novidade é uma ênfase na descentralização, na subsidiariedade e na sinodalidade para uma Igreja evangelizadora.

Quanto à preparação do C9 para a reforma curial, parece que havia mais coisas acontecendo nos bastidores do que se imaginava. No meio de 2013 e início de 2014, foram feitas consultas envolvendo todos os prefeitos e presidentes dos dicastérios curais, assim como numerosos cardeais, bispos e representantes das conferências episcopais, cujo objetivo foi solicitar assessoria, conselhos para um plano de reforma. A novidade que interessa aqui (em particular para os historiadores da Igreja que terão condição de acessar os Arquivos do Vaticano nas próximas décadas) é que todo esse material agora constitui um arquivo especial que o C9 está usando para auxiliar o Papa Francisco a preparar a constituição apostólica sobre a nova estrutura da Cúria.

E depois disso? Semeraro não dá prazos, mas fala claramente sobre uma “nova constituição como a Pastor Bonus” – não só uma revisão ou atualização, mas uma nova constituição. Diz que já vimos algumas das diretrizes fundamentais para a reforma de Francisco, incluindo uma maior igualdade entre todos os dicastérios curiais. Isso fica evidente no próprio emprego da palavra “dicastério” pelo Papa Francisco ao criar novas instituições curiais; ele se afastou da prática de usar termos como “congregação” e “conselho”. Enquanto isso, num esforço para simplificar a estrutura, provavelmente haverá menos dicastérios, na medida em que está sendo feita uma fusão com alguns já existentes e outros estão sendo abolidos. Em agosto, por exemplo, os pontifícios conselhos Justiça e Paz, Cor Unum, Migrantes e Itinerantes e o Pontifício Conselho para a Pastoral no Campo da Saúde foram todos incorporados ao novo Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. O Pontifício Conselho para os Leigos, o Pontifício Conselho para a Família e a Pontifícia Academia para a Vida foram agrupados em um novo Dicastério para os Leigos, a Família e Vida.

Então tem a decisão de Francisco de encarregar-se pessoalmente de certas questões. No novo dicastério para o desenvolvimento humano, por exemplo, ele pôs sub sua orientação pessoal a seção que lida com o cuidado dos refugiados e migrantes: “Essa seção é criada por um período específico e esta seção estará sob a guia direta do Supremo Pontífice, que a exerce na maneira como considera apropriada”. Finalmente, há a ideia do gradualismo: o papa quer proceder via experimentos e testes. Por exemplo, a nova secretaria para a economia foi criada com a condição de ad experimentum sem um limite de três – ou cinco – anos para a revisão de seu estatuto; tão logo a necessidade de correções tornar-se evidente, mudanças serão feitas.

Leio o artigo de Semeraro como parcialmente informativo e parcialmente reafirmativo: ele anunciou a futura constituição apostólica e a sua razão de ser, e estendeu a mão aos demais na Cúria para deixá-los sabendo que a reforma será empreendida com eles, não contra eles. Desde o Vaticano II, a reafirmação da Cúria vem fazendo parte da cartilha dos papas. Existem, no entanto, dois novos elementos neste caso.

O primeiro é o estilo de Francisco de governar a Igreja e falar sem rodeios com os profanos. Pondo de lado os seus discursos diversificados à Cúria (dezembro de 2013, o profissionalismo na Cúria; dezembro de 2014, as quinze doenças curiais; dezembro de 2015, os doze remédios para a Cúria), ele em geral não tem governado contra a Cúria, mas sem ela. Isso vem significando uma paralisia quase completa na produção de documentos por parte dos dicastérios, uma novidade dado que, por determinado tempo (especialmente sob João Paulo II), a chave para uma carreira curial era trabalhar de acordo com a máxima “publish or parish” (quer dizer, ou publiquem-se documentos em apoio à teologia do pontificado ou voltem para uma paróquia ou diocese).

O segundo elemento é a visão teológica e eclesiológica de Francisco para a reforma da Cúria. Esta parece ser a primeira vez no período pós-Vaticano II que um papa recebe a eclesiologia do Vaticano II e a expande no sentido da sinodalidade (o que é um passo para além da colegialidade episcopal) e da descentralização.

Apesar das manifestações de preocupação (especialmente nos EUA) segundo as quais Francisco estaria pondo em risco a unidade da Igreja, Jorge Mario Bergoglio não é nenhum revolucionário. Uma característica de seu estilo de governo é a estratégia de nomear novos cardeais das igrejas locais para a Igreja universal, como ficou evidenciado com a criação de dezessete novos cardeais em 9 de outubro. Poucos são da Cúria, da Itália e da Europa sobretudo, enquanto há mais novos cardeais vindo da África e da Ásia.

Quatro estão acima dos 80 anos, e portanto não são eleitores; não há sinais de que Francisco irá ultrapassar o limite de 120 eleitores estabelecido por Paulo VI em 1975, ou modificar a membresia do conclave. Enquanto todos os seus antecessores no último século instituíram mudanças na forma como o conclave é regulado, Francisco nada fez até então.

Embora a remodelagem do Colégio Cardinalício para mostrar a universalidade da Igreja seja significativa, ela também tem importância simbólica no longo prazo. A reforma da Cúria terá de contar com a prontidão do restante da Igreja, principalmente das conferências episcopais. Resta saber se esta reforma conseguirá fazer o que outras tentativas de reforma não conseguiram: transformar, de uma maneira fundamental, a estrutura posta em prática pelo Papa Sisto V em 1588.

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