Concílio Pan-Ortodoxo. Entrevista com o metropolita Hilarion (Alfeyev) de Volokolamsk, Rússia

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10 Junho 2016

"O Santo e Grande Concílio é um Concílio de toda a Igreja Ortodoxa e, portanto, eu não diria que a sua importância é diferente para a Igreja Russa em relação às outras igrejas locais. Em primeiro lugar, o fato de o Concílio estar sendo realizado é uma confirmação de nossa eclesiologia, pois demonstra a nós e ao mundo inteiro que a Igreja Ortodoxa é uma Igreja Católica, que o princípio da sinodalidade que sempre foi sua característica distintiva não é uma herança do passado, mas uma realidade para o nosso tempo".

O comentário é do metropolita Hilarion (Alfeyev), de Volokolamsk (Rússia), em entrevista ao jornal The National Herald, ao falar sobre o Concílio Pan-Ortodoxo de Creta, previsto para acontecer em 18 de junho próximo. 

A entrevista foi publicada The National Herald e reproduzida por Igreja Ortodoxa Russa, 04-06-2016. A tradução é de Luisa Flores Somavilla

Eis a entrevista.

Vossa Eminência, quais são seus pensamentos em geral sobre o Santo e Grande Concílio que acontecerá em Creta, na Grécia, neste mês?

Ao longo dos últimos mil anos, em muitas ocasiões foram convocados Concílios que, em maior ou menor grau, podem ser chamados de Pan-ortodoxos, pois deles participaram representantes das várias igrejas locais. Podemos incluir entre eles, por exemplo, o Concílio de Constantinopla de 1593, que estabeleceu o governo Patriarcal na Igreja Russa, dentre vários outros. O Santo e Grande Concílio previsto para junho deste ano, na ilha de Creta, deve ser o mais amplo e representativo deles. Ele esteve em preparação direta por mais de meio século. Estas duas circunstâncias significam que este próximo Concílio deve se tornar um evento histórico. Eu participei de todos os eventos preconciliares, já que o processo preconciliar foi renovado em 2008 após uma longa pausa e eu sei como às vezes foi difícil chegar a um acordo pan-ortodoxo sobre as questões importantes da preparação do Concílio. O fato de que nós conseguimos alcançar um consenso sobre a mais importante dessas questões é uma grande conquista e, nesse sentido, sinto grande alegria e satisfação. Ao mesmo tempo, gostaria de chamar a atenção para o fato de que a unidade e unanimidade, que, se Deus quiser, vamos testemunhar no Concílio, não é o fim, mas o início do trabalho conjunto no caminho do aprofundamento da cooperação fraterna entre as igrejas locais e o fortalecimento da unidade pan-ortodoxa. A realização bem sucedida do Santo e Grande Concílio é o capital comum que devemos aumentar e não desperdiçar, e nós temos uma grande responsabilidade a respeito disso.

Qual é o significado do Concílio para a Igreja Ortodoxa como um todo e também para a Igreja da Rússia, em particular, uma vez que esta é a primeira vez que ela participará de tal Concílio?

O Santo e Grande Concílio é um Concílio de toda a Igreja Ortodoxa e, portanto, eu não diria que a sua importância é diferente para a Igreja Russa em relação às outras igrejas locais. Em primeiro lugar, o fato de o Concílio estar sendo realizado é uma confirmação de nossa eclesiologia, pois demonstra a nós e ao mundo inteiro que a Igreja Ortodoxa é uma Igreja Católica, que o princípio da sinodalidade que sempre foi sua característica distintiva não é uma herança do passado, mas uma realidade para o nosso tempo. O Conselho Pan-ortodoxo é também uma expressão visível da unidade da nossa Igreja, o testemunho de que, apesar das diferentes condições políticas em que as Igrejas locais vivem, somos capazes de alcançar um consenso nas questões mais importantes para nós, uma vez que constituímos juntos uma única Igreja. Acredito ser extremamente importante que a imagem externa da Igreja vá ao encontro destes objetivos para que se torne um reflexo exato da eclesiologia ortodoxa pela qual todas as Igrejas Ortodoxas, independentemente da antiguidade de suas origens ou do número de fiéis, são igualmente membros do corpo da Igreja Universal.

O que você antecipa como resultados do Concílio no que diz respeito aos fiéis da Igreja Ortodoxa do século XXI?

Como já se sabe, o Santo e Grande Concílio, de acordo com sua programação, não examinará quaisquer outros tópicos que não os que já foram colocados em pauta, bem como os seis documentos conciliares já publicados. A única exceção é a Encíclica do Concílio, cujo projeto ainda tem de ser finalizado. Se olharmos para os documentos em pauta, o mais relevante, na minha opinião, é o projeto de documento intitulado "A Missão da Igreja Ortodoxa no Mundo Contemporâneo". Ele fornece a visão da Igreja sobre os muitos desafios do mundo moderno, os problemas da crise econômica, sobre o que a Igreja pensa sobre o problema da discriminação e de conflitos militares. Muitos destes problemas como se apresentam hoje surgiram em nosso tempo e são, em um ou outro grau, relevantes para os cristãos ortodoxos do Oriente e do Ocidente. Ao mesmo tempo, este é um dos documentos que têm atraído críticas dentro de várias igrejas locais.

O que você diria a esses hierarcas, monges e sacerdotes - na Grécia - que se opõem à convocação do Concílio? Há casos semelhantes na sua igreja na Rússia?

Eu sei que na Igreja Ortodoxa da Grécia, assim como nas outras igrejas locais, há uma atitude crítica por parte de alguns membros do episcopado, clérigos e leigos em relação ao Concílio, à maneira como ele vem sendo preparado e realizado, bem como a alguns de seus documentos. Não avaliarei essas críticas aqui. De minha parte, seria errado interferir na vida interna de outra igreja local. Só posso dizer que entre os bispos, clérigos e leigos da Igreja Russa há também uma atitude crítica em relação ao Santo e Grande Concílio. Eu acredito que críticas aos documentos conciliares, caso sejam construtivas e fundamentadas, são completamente normais. É por isso que os projetos de documentos foram publicados: para que todos os membros da Igreja interessados pudessem opinar sobre eles. Além disso, acredito que as observações críticas mais importantes certamente devem ser levadas em consideração e as alterações correspondentes devem ser feitas nos documentos durante as discussões do Concílio. Isso é vital se quisermos que os documentos conciliares sejam aceitos, para que posteriormente não sejam rejeitados pelo povo de Deus. É somente através dessa aceitação que podemos avaliar se esse grande evento foi bem sucedido ou não, pois, como a Encíclica dos Patriarcas Orientais de 1848 afirma, "o guardião da devoção é o conjunto da própria Igreja, até mesmo das próprias pessoas que desejam que seu culto religioso permaneça sempre inalterado e com a mesma forma que o de seus pais".

O Concílio poderia discutir questões como as seguintes: a) O segundo casamento de um sacerdote após a morte de sua esposa ou até mesmo o divórcio? b) A redescoberta da antiga tradição da Igreja de bispos casados? c) O reestabelecimento da ordem de diaconisas. Até mesmo o Papa Francisco referiu-se à questão recentemente. d) A celebração da ressurreição de Cristo?

Como já disse, de acordo com o cronograma de organização e trabalho do Santo e Grande Concílio, outros temas e questões que não os aprovados em consenso e já incluídos na pauta não serão apresentados para debate no Concílio. Na assembleia dos Primeiros Hierarcas das Igrejas Ortodoxas, que aconteceu em janeiro deste ano em Chambésy, a questão do calendário foi removida da pauta do Concilio e a questão de reaver a instituição de diaconisas não foi sequer discutida nos moldes do processo preconciliar. Assim, estes dois tópicos não serão analisadas pelo Concílio. A respeito das questões de segundo casamento para o clero e do casamento no episcopado, então, como sabemos, o projeto de documento do Concílio já elaborado e publicado, intitulado "O Sacramento do Matrimônio e seus Obstáculos" não prevê quaisquer mudanças neste domínio. Admito que alguns membros do Concílio podem vir a propor emendas semelhantes quando o documento for discutido, mas estou confiante de que estas propostas, que implicariam mudanças tão significativas nos cânones da Igreja, não serão aceitas pela maioria das igrejas locais, incluindo a Igreja Russa. Acredito que devemos nos lembrar de que a finalidade do Conselho é fortalecer a unidade da Igreja e não miná-la através de propostas de reformas que vão contra sua tradição já estabelecida.

O problema entre Antioquia e Jerusalém a respeito da jurisdição da Arquidiocese de Qatar foi resolvido?

Até onde sei, ainda não foi encontrada nenhuma resolução positiva para esta questão que seja aceitável para ambos os lados. Por esta razão, ainda há a probabilidade de que a Igreja de Antioquia não participe dos trabalhos do Santo e Grande Concílio. Espero, contudo, que uma resolução sobre a questão do Qatar que seja mutuamente aceitável para ambas as Igrejas seja encontrada, permitindo que o Concílio seja realizado em um espírito de consenso e amor.

O Patriarcado de Moscou está contribuindo financeiramente com as despesas do Concílio?

Na assembleia dos Primeiros Hierarcas da Igreja Ortodoxa em Chambésy foi tomada a decisão de que as despesas decorrentes da convocação e da realização do Concílio serão divididas entre as igrejas locais. Claro, o Patriarcado de Moscou não foi deixado de fora deste assunto. No entanto, ainda temos de receber informações oficiais sobre o orçamento do Concílio, sobre suas cláusulas e como devem ser cumpridas. Estas questões, que exigem discussão pan-ortodoxa, são atualmente resolvidas sem a participação das igrejas locais, fato pelo qual várias vezes expressamos a nossa consternação.

Como estão as relações entre o Patriarcado de Moscou e o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla?

Para o Patriarcado de Moscou a Igreja de Constantinopla é a Igreja Matriz. Por muitos séculos a Igreja Russa foi parte do Patriarcado de Constantinopla. Isso faz com que as nossas Igrejas sejam especialmente próximas uma da outra e atualmente, apesar das diferenças de pontos de vista sobre determinadas questões, a relação mútua entre os Patriarcados de Moscou e de Constantinopla está em altíssimo nível. Isto tem sido demonstrado pelo fato de que nos últimos anos teve início uma tradição de troca de delegados para as celebrações dos onomásticos dos Primeiros Hierarcas. Espero que o Santo e Grande Concílio reforce o desenvolvimento da cooperação fraterna e o fortalecimento das relações mútuas entre as nossas Igrejas.

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