Ecumenismo em caminho. Da 'pedagogia dos gestos' para a 'teologia dos gestos'

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01 Março 2016

"Pessoalmente alimento um sonho para o movimento ecumênico: sair cada vez mais dos círculos de especialistas para fazer o trabalho de contágio benéfico nas praças, assembleias, em locais de socialização, e - por que não? - na web, em vista de uma “constituinte ecumênica" que mostre-se - sem repudiar o caminho até agora percorrido pelo movimento ecumênico do século XX – em grau de adotar linguagem, estilos e percursos inovadores de escuta fraterna.", diz Brunetto Salvarani, teólogo italiano, apresentador de "Uomini e Profeti" (RAI, Radio 3), autor de "Non possiamo non dirci ecumenici” (Não podemos deixar de nos chamar ecumênicos, em tradução livre)(Gabrielli: 2014).

O artigo é de Brunetto Salvarani, publicado por Adista, Segni Nuovi, n. 9, 05-03-2016. A tradução é de Ramiro Mincato.

Eis o artigo.

"O encontro de Cuba marcou um passo histórico para o ecumenismo, embora, do ponto de vista doutrinal, quem não reconhece o dogma do primado papal permanece cismático e herético".

A entrevista, no jornal La Stampa, do cardeal Velasio De Paolis, canonista, membro da Signatura Apostólica,  paralela ao evento longamente esperado, cujos protagonistas foram o Papa Francisco e o Patriarca da Rússia Kirill, em 12 de fevereiro, teve o mérito de mostrar ao menos a  fadiga que o ecumenismo tem que fazer para adquirir cidadania de pensamento eclesial comum e partilhado.

O fato de citar o documento Pastor Aeternus do Vaticano I e a declaração Dominus Iesus é um puro elemento assessório, cuja finalidade era esfriar o entusiasmo dos que falavam do evento como de um ponto de não retorno, ou seja... "nada poderá ser mais como antes" (partindo do prior de Bose, Enzo Bianchi, há muitos anos dedicando energia e inteligência na construção de pontes com o mundo ortodoxo).

Pode-se dizer, em síntese, que Francisco está passando da "pedagogia dos gestos" de João Paulo II, - que traduzia a trajetória inaugurada pelo Nostra Aetate -, e do "diálogo das culturas" de Bento XVI, - que respondia ao enrijecimento causado pelo medo de um choque de civilizações após o 11 de setembro de 2001 -, para a atual "teologia de gestos" do Papa que veio "quase do fim do mundo", redesenhando o paradigma do encontro das Igrejas, procurando concentrar-se nos traços da experiência espiritual, da oração, da escuta, do caminhar juntos.

Numa palavra, passando para a teologia, não aquela dos manuais, mas para aquela da vida vivida. Isto não exclui ações de grande envergadura, como na basílica de São João de Latrão, dia 12 de junho de 2015, no contexto do retiro mundial dos presbíteros, onde o Papa não só confirmou que a divisão entre os cristãos é um escândalo, e o ecumenismo não é tanto somente mais uma tarefa, quanto um preciso mandato de amor que Jesus confiou a todos os cristãos; a partir disso logo se começaram a levantar hipóteses de que em pouco tempo todos os cristãos poderiam celebrar a Páscoa no mesmo dia, "sinal tangível para os fiéis e para todos os outros".

Inserem-se nesta trajetória o abraço de Havana e, antes desse, o da Igreja Valdense, em Turim, o da Igreja Luterana em Roma, o costume fraterno dos encontros com o patriarca de Constantinopla, Bartolomeu I, e a anunciada viagem para a Suécia no próximo dia 31 de outubro, onde o Papa participará, em Lund, da cerimônia conjunta, em programação, entre a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial, comemorando os 500 anos da Reforma (2017).

Tais experiências precedem e acompanham o diálogo teológico, tornam-no menos traumático e libertam-no de tendências ideológicas, da frieza diplomática e das lógicas politicistas, num caminho em que Francisco quer introduzir um pouco de pressa e de mudança humana dos reflexos eclesiais, no lugar da "diplomacia ecumênica"; isso envolve também as vozes do mundo e do "povo".

Tem consciência de que, com toda a probabilidade, as formas históricas do diálogo ecumênico conhecidas ao longo do século XX ficaram definitivamente esgotadas, e que é preciso "ir além". Para onde? A fluidez das pertenças confessionais, as alianças transversais formadas continuamente sobre as mais diversas temáticas, a novidade consolidada da proliferação de Igrejas independentes e de cristãos indisponíveis a se reconhecerem numa ou noutra Igreja histórica, e várias outras mudanças em curso, exigem um esforço ulterior e coragem para abandonar presumidas certezas.

Pessoalmente alimento um sonho para o movimento ecumênico: sair cada vez mais dos círculos de especialistas para fazer o trabalho de contágio benéfico nas praças, assembleias, em locais de socialização, e - por que não? - na web, em vista de uma “constituinte ecumênica" que mostre-se - sem repudiar o caminho até agora percorrido pelo movimento ecumênico do século XX – em grau de adotar linguagem, estilos e percursos inovadores de escuta fraterna. Por assim dizer, uma abordagem "leiga".

Até porque, se quisermos que o cristianismo continue vivo e cresça, projetando-se no futuro, devemos nos educar a agradecer a Deus os dons que fez a todas as Igrejas, a todas as religiões, a todas as mulheres e todos os homens que Ele ama; evitando especialmente duas tentações: por um lado, de fechar-se num gueto tentando recriar o ideal do cristianismo do passado, nestas alturas, encerrado definitivamente; por outro, de assimilar-se completamente a sociedade em que se vive, sujeitando-se como escravos a uma cultura secularizada. Mas ao contrário, somos chamados a estar junto com as pessoas, compartilhar seus problemas colocando-se ao seu lado na escuta do Evangelho: só então poderemos descobrir uma palavra que possa ser compartilhada.

Porque estava certo o jesuíta Alfred Delp, executado por causa da sua resistência antinazista: "Se as Igrejas continuarem a oferecer ao mundo uma imagem de cristianismo litigioso, pode-se colocar uma cruz sobre ele".

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