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Em Jerusalém, pela unidade dos cristãos. Entrevista com Bartolomeu I

O Mar de Mármara, na Turquia, se apoia docemente na costa. A poucos metros, sob o pergolado, os garçons turcos servem café. Sentam-se ao redor da mesa prelados ortodoxos de várias Igrejas Católica, monsenhores católicos de colarinho romano. Os sacerdotes georgianos entoam hinos em eslavo. Entre eles, envolvido, Bartolomeu I. É o dia 18 de maio. O Patriarca Ecumênico de Constantinopla convidou um grupo de eclesiásticos e de especialistas para Istambul para celebrar os 1.700 anos do Édito de Milão.

A reportagem é de Marco Ventura, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 30-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sua Santidade é o primeiro entre os patriarcas das Igrejas Ortodoxas. Ele não tem nenhum poder mundial de governo como o papa sobre a Igreja Católica. O seu primado é de honra. A história o pôs a prova mil vezes. Ele sobreviveu aos cruzados latinos, à Bizâncio gloriosa, ao Império Otomano. Hoje, resiste às pesadas restrições do governo turco, compete com o nacionalismo das Igrejas Ortodoxas, governa a diáspora. Os obstáculos moderam a força espiritual do patriarca, aumentam a autoridade do chefe da Igreja Ortodoxa na terra do Islã. Falar aqui de Édito de Constantino, de liberdade religiosa tem um peso particular.

Na conclusão do seminário, nesse almoço à beira-mar, alguns convidados tem os olhos lúcidos; pensam em seus povos que habitavam aqui, na Ásia Menor, antes da guerra greco-turca e da diáspora de 1923. Quanta violência de todos os lados este mar viu, hoje tão calmo.

Antes de partir para Istambul, eu escrevi em inglês ao patriarca dizendo que eu gostaria de conversar com ele, sobre quatro perguntas minhas. Quando ele se levanta da mesa, sou apresentado a ele. Ele me diz em italiano que não tem tempo para uma conversa. Mas irá ler o discurso que eu proferi em Istambul e irá ler as minhas quatro perguntas. Saudamo-nos.

Passa-se um mês. Há alguns dias, eu recebo as suas respostas em inglês. Estão traduzidas e publicadas aqui. Assim como o Mar de Mármara, este texto tem correntes profundas. Assim como a Turquia dos jovens nas ruas, este texto tem uma urgência. O patriarca pede que as pessoas deixem "uma pegada mais leve" em um planeta explorado. Ele pede que os cristãos deixem uma pegada mais pesada na história. Não é hora de "monólogo e isolamento", escreve. Não é hora de se lamentar de um passado que, ao contrário, deixa uma herança que deve ser frutificada, ou de um presente rico em "oportunidades".

O patriarca anuncia que, em janeiro, irá se encontrar com o Papa Francisco em Jerusalém. "Nós o convidamos e ele aceitou". O fato supera as tensões diplomáticas, o clamor da notícia. O Mar de Mármara volta tenaz para a costa. Bartolomeu e Francisco devem ir lá, para Jerusalém, para "evitar os mal-entendidos e as divisões do passado", para "compartilhar o nosso testemunho em um mundo dividido".

Eis a entrevista.

Vossa Santidade, a migração dos países da Europa central e oriental está favorecendo um encontro único na história entre Europa ocidental e cristianismo ortodoxo. Isso vale particularmente para a Itália, onde, em 2007, o governo assinou um acordo com o Patriarcado Ecumênico que se tornou lei em 2012. Faço-lhe a mesma pergunta que a história na Europa faz aos líderes civis e religiosos, aos cidadãos e aos fiéis: o que os cristãos não ortodoxos podem aprender com os cristãos ortodoxos? E, vice-versa, o que os cristãos ortodoxos podem aprender com os cristãos não ortodoxos?

É verdade: as migrações das últimas décadas levaram os cristãos ortodoxos a conviver com os cristãos não ortodoxos. Apresenta-se à Europa ocidental e ao mundo inteiro a oportunidade de criar. Ouvimos dizer muitas vezes que o nosso mundo está em crise por causa das mudanças radicais e dos movimentos migratórios.

No entanto, nunca antes na história, os seres humanos tiveram a oportunidade de mudar para melhor a vida de tantas pessoas, simplesmente graças ao encontro e ao diálogo. Pode ser verdade que este é um tempo de crise. Mas também deve ser salientado que nunca houve antes tanta tolerância pelas respectivas tradições, pela liberdade religiosa e pelo diálogo cultural. Isso significa que os cristãos ortodoxos têm muito a dar, mas também muito a receber.

O diálogo e a convivência são formas para instaurar uma relação e uma interação recíprocas. Não são ocasiões para o monólogo e para o isolamento, mas sim oportunidades de encontro e de trocas.

A presença de Vossa Santidade na missa de início do pontificado do Papa Francisco foi saudada como um passo generoso rumo à amizade e ao diálogo entre os cristãos. Diante das profundas divisões que dilaceram as Igrejas, a opinião pública se pergunta se e quando será possível aceitar a diversidade sem combater uns com os outros. Daí a pergunta: quais são os maiores obstáculos para uma verdadeira unidade cristã na diversidade, e o que é possível fazer para superá-los?

A nossa presença na missa inaugural do pontificado do Papa Francisco é fruto de uma decisão espontânea, originada da nossa convicção de que a eleição do novo papa só pode confirmar e reforçar os passos já dados rumo à reconciliação entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa.

Há pouco menos de 50 anos, em janeiro de 1964, o nosso predecessor, o Patriarca Ecumênico Atenágoras, e o Papa Paulo VI se encontraram em Jerusalém para abrir uma nova página nas relações entre as duas Igrejas. Esse encontro foi a centelha da qual brotaram passos decisivos para a unidade, tais como a revogação das excomunhões que as duas Igrejas tinham infligido reciprocamente em 1054 e, ainda mais importante, o início do diálogo de amor e de verdade que culminou na instituição da Comissão Internacional para o Diálogo Teológico.

Para o próximo mês de janeiro, convidamos o Papa Francisco a Jerusalém, mais uma vez, e ele aceitou, a fim de celebrar aquele evento histórico e pioneiro, e para reafirmar o nosso compromisso com a unidade, em adesão ao mandamento de Jesus Cristo de que seus discípulos "sejam um" (ut unum sint).

Embora possa haver diferenças teológicas e eclesiológicas entre a Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa, devemos ser unidos no propósito de evitar os mal-entendidos e as divisões do passado e, ao mesmo tempo, na necessidade de compartilhar o nosso testemunho em um mundo já dividido de outras formas.

A relação com o Islã interpela enormemente os cristãos. Pela sua posição no contexto turco, na encruzilhada entre o Oriente e o Ocidente, o Patriarcado Ecumênico está em uma posição única para conduzir os cristãos e os islâmicos para uma convivência pacífica. Então eu lhe pergunto: o que os cristãos podem aprender com os muçulmanos e, vice-versa, o que os muçulmanos podem aprender com os cristãos?

Um mosaico simbólico adorna o átrio de entrada dos escritórios centrais do nosso patriarcado aqui em Istambul. Silenciosamente, ele representa um momento decisivo da história rica e complexa de uma cidade em que cristãos e muçulmanos conviveram durante séculos.

A majestosa imagem retrata Genádio Scolario (1405-1472), primeiro patriarca "Rom" do período otomano [patriarca dos romenos, dos bizantinos, dos ortodoxos], com as mãos estendidas, no ato de receber do sultão Maomé II o "firman" ou seja, o decreto que garantia a continuidade e a proteção da Igreja Ortodoxa. O mosaico é ícone dos inícios de uma longa convivência e do compromisso inter-religioso.

Assim, nas últimas décadas, o Patriarcado Ecumênico foi pioneiro no diálogo bilateral inter-religioso com a comunidade judaica (sobre temas como o direito, a tradição, a renovação no mundo moderno e a justiça social) e, desde 1986, iniciamos um diálogo bilateral inter-religioso com a comunidade islâmica (sobre questões como a autoridade, a convivência, a paz, a justiça e o pluralismo no mundo moderno). Enfim, desde 1994, organizamos várias iniciativas multirreligiosas e, em particular, organizamos vários encontros internacionais, que tornaram possíveis profundas conversas multilaterais entre as comunidades cristãs, judaicas e muçulmanas (sobre questões como a tolerância e a paz).

Foi justamente esse o propósito da nossa recente conferência que marcou e celebrou o aniversário dos 1.700 anos da promulgação do Édito de tolerância de Milão por parte do imperador Constantino, o Grande. O nosso mundo recebeu uma rica herança relacionada com a liberdade religiosa; esse legado, por sua vez, nos pede hoje que sejamos abertos ao diálogo inter-religioso e intercultural.

Absorvidos pela defesa dos respectivos interesses confessionais, os crentes parecem alheios à luta global pelo meio ambiente, por uma gestão socialmente responsável dos bens e da propriedade, por finanças sustentáveis e por uma política não corrupta. Talvez os cristãos não são responsáveis? Mas, então, como eles deveriam ver a sua própria missão por um mundo melhor?

Como você sabe, nos últimos 25 anos, enfatizamos a importância da proteção e da preservação dos recursos naturais, que são um dom de Deus ao mundo. A nossa preocupação com o mundo não tem um pressuposto político ou econômico, nem se originou de um romantismo superficial ou sentimental. Ela vem do nosso esforço para honrar e enobrecer a criação de Deus. Não podemos mais ignorar os limites da natureza.

Por isso, o nosso humilde ministério é o de conscientizar as pessoas sobre a importância de deixar uma pegada mais leve no nosso planeta, pelo bem das gerações vindouras. Por isso, sempre enfatizamos que a crise ecológica é, essencialmente, um problema espiritual, que só poderá ser resolvido se mudarmos o coração e a mentalidade. Sempre reiteramos que as questões ecológicas não afetam apenas um grupo ou uma nação, ou apenas os países "desenvolvidos", ou apenas o Ocidente. Estamos todos dentro, todos juntos.

Portanto, a solução virá de todos nós e dirá respeito a todos nós, de um modo ou de outro. De fato, o que fazemos nas nossas vidas individuais, cada escolha que fazemos como consumidores dos recursos da Terra, tem um impacto direto sobre todas as pessoas e sobre todo o planeta. Não podemos mais ficar indiferentes nos nossos estilos de vida ávidos e egoístas. Esvaziando e profanando a Terra, estamos destruindo a própria vida.

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