Sepé, o Tiaraju: reconhecimento da luta pelo Direito à terra e da cultura indígena

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08 Fevereiro 2017

Sepé Tiaraju (1733-1756), em guarani significa “facho de luz”, foi batizado com José e criado pelos padres jesuítas. Aos poucos, foi adquirindo o conhecimento e a cultura dos jesuítas que se somaria ao espírito de liberdade Guarani, o suficiente para transformá-lo em um dos maiores líderes da brilhante comunidade indígena missioneira. Suas qualidades e carisma, no entanto, ganharam notoriedade somente com a Guerra Guaranítica (1753-1756), consequência do Tratado de Madrid (1750) entre Portugal e Espanha através do qual Portugal concederia a Colônia de Sacramento à Espanha em troca da região dos Sete Povos. Os indígenas teriam de deixar suas terras e viver na condição de escravos. A culminância foi a Batalha de Caiboaté com a dizimação de 1500 indígenas.

“Somos dos que acreditam que os Guarani,
entre a cruz e a espada,
fizeram bem em escolher a cruz.
Mas o melhor é que tivessem ficado livres de ambas,
em seu próprio universo cultural,
muito mais rico do que muitos acreditam”

Alcy Cheuiche
Revista IHU On-Line 156

Sepé Tiaraju foi um líder importante (de fato e de direito) para os Guarani. Em 31 de dezembro de 1749, foi eleito corregedor (prefeito) de São Miguel, na época a segunda cidade mais populosa do cone sul com 10 mil habitantes. Ele é um símbolo histórico do índio missioneiro do século dezoito, considerado “santo popular” e declarado Herói Guarani Missioneiro Rio-grandense, mas sua significância histórica e lendária reside na luta e na resistência pelos direitos de seu povo: terra, cultura, língua, dignidade, etc. Foi morto combatendo, no dia 07 de fevereiro de 1756, nas margens da sanga da Bica, em Batovi (hoje município de São Gabriel). Com a vitória da guerra, não apenas os indígenas são destroçados, enquanto sujeitos que segundo os vencedores eram desalmados, preguiçosos e rudes, mas a perversidade da guerra silencia uma das mais bem sucedidas experiências de vida comunitária de todos os tempos: A República Guarani é reconhecida como “Triunfo da Humanidade” por Voltaire (um filósofo iluminista francês) e  como “experiência única na humanidade” pela UNESCO.

No dia 10 de novembro de 2015, na cidade de Santo Ângelo, foi entregue ao bispo da Diocese de Santo Ângelo um documento-base (postulação) oficializando o pedido “Santo ainda que tarde!” Por uma postulação de reconhecimento de santidade de José Tiaraju. (São Sepé, o Tiaraju). É o inicio de uma caminhada de Sepé Tiaraju rumo aos altares, com direito a ter seu nome inserido no martirológio, a um dia de festa por ano no calendário litúrgico, direito a culto universal, a ser invocado por todos os cristãos como modelo de santidade, a ser declarado padroeiro dos prefeitos e dos políticos em geral.

Sepé já é santo canonizado popularmente pelos índios e pelos pobres do Rio Grande do Sul.
A importância da canonização cresce, quando olhamos para a situação em que se encontram
em que se encontram os índios de hoje, no Rio Grande e no Brasil

Antonio Cechin
Revista IHU On-Line 156

Fazer memória dos 260 anos de martírio de Sepé Tiaraju ecoa com uma renovada resistência profética na luta pelo reconhecimento de direitos fundamentais como direito à terra, de “bem” viver sua cultura, à saúde digna, à economia justa e solidária, etc. Os indígenas tripudiados em seus direitos, não precisam de preservação de sua cultura e cosmovisão, mas reconhecimento e respeito ao seu modo de viver, (inter-)conectado com as diversas culturas existentes no imenso território brasileiro. Eles precisam ser garantidos na própria dignidade que implica sem modo de viver. Nas cidades de São Gabriel e Caiboaté, entre os dias 05 e 09 de Fevereiro de 2016, foram preparadas atividades que marcam significativamente essa memória-celebração.

Eis a programação:

Dia 05 – Chegada das delegações indígenas do Rio Grande do Sul, SP, PR, SC, MS e da Argentina e Paraguai.
Dia 06 – Reunião das lideranças e inicio do Acampamento da Juventude
Dia 07 – Atos religiosos dos Guarani em Caiboaté e na Sanga da Bica.
Dia 08 – Reunião das lideranças indígenas
Dia 0939ª Romaria da Terra 


A Revista IHU On-Line 156 fez memória aos 250 anos de martírio de Sepé Tiaraju, propondo um debate transdisciplinar buscando resaltar sua trajetória e seu significado para a história do Brasil e Rio-Grandense. Para acessar clique aqui

Maurício da Silva Gonçalves, "Sepé representa a luta pela nossa dignidade"

Alcy Cheuiche, "Um símbolo de resistência Guarani"

Antonio Cechin, "Sepé já foi canonizado por índios e pobres"

Tau Golin, "A relação de povoamento do Brasil meridional com as sociedades indígenas é um processo etnocida"

Eliana Inge Pritsch, "As vidas de Sepé"

Ceres Karam Brun, "A experiência missioneira continua viva"

Luiz Carlos Susin, "Um ano para lembrar Sepé Tiaraju"

Arthur Rabuske, "Creio que não se deva enxagerar o alcance individual de Sepé Tiaraju" 


O Direito à terra é uma demanda que permanece aberta e tratada com descaso pelas autoridades competentes. Em Sepé Tiaraju, a luta por esse direito toma sua maior expressividade, no mês de Fevereiro de 1753, nas margens do Rio Camaquã,quando "grita" ao comandante do exército português, Gomes Freire: “a terra foi dada por Deus e por São Miguel”.  É a reinvidicação de uma terra entendida como dom e a relação humana com ela por consequência será de cuidado como um autêntico "guardião". Ninguém tem o direito de apropriar-se, conquistá-la, dominá-la para interesses próprios. É a terra das lembranças de seu povo. Nela seus queridos estão hospedados. Nela assumem a responsabilidade de serem guardiões. Em consonância está a mais radical Teologia da Criação que encontra na doação e inter-relação sua expressão máxima. O Deus que entra na história de Israel, através de uma experiência libertadora, convida-os a comunhão e ao cuidado com a terra. A interpretação que prevaleceu foi a do "subjulguai", mas ultimamente somos convidados a retomar a originalidade da interpretação teológica da criação - dom, comunhão, inter-relação - através da Carta Encíclica Laudato Si' do papa Francisco: não é um manual doutrinário ou catequético, mas um documento que enfrenta os problemas mais radicais da experiência humana, sobretudo aqueles que afrontam a relação com a terra e acabam promovendo "mudanças climáticas" radicais e sem precedentes. O grito de Sepé Tiaraju indica a reinvidincação do dom e faz lembrar a relação que precisamos ter com a terra: guardiões.

“Nós lutamos pelo nosso espaço, pelo nosso território.
A luta de Sepé representa a resistência e a busca pela dignidade de nosso povo”

Mauricio da Silva Gonçalves
Revista IHU On-Line 156

O Direito de "bem" viver a própria cultura esbarra em diversos interesses, geralmente perversos. Negam-se os direitos fundamentais, sobretudo quando se impõem e nutre-se a sub-cultura do descartável, das desigualdades, do trabalho precário, da violência, da corrupção “nossa de cada dia”, etc. A cultura é um processo complexo de interligação dos múltiplos aspectos que envolvem a existência humana. Ela é construída e cultivada. Ela não “cai do céu” ou vem da “Terra 2.0”, mas precisa na “arte de ser gente” compor-se entre compassos e descompassos. Então, fazendo memória de Sepé Tiaraju que cultura(s) queremos cultivar para futuro? Oxalá nela(a) os direitos de um “bem” viver sejam garantidos.

 

Vitor, um menino Kaingang, nos últimos dias do ano de 2015, tornou-se a sinalização mais radical da negligência desse direito: os indígenas não são respeitados em sua própria cultura. É morto friamente no aconchegante cuidado/carinho de sua mãe. Sua morte não ganhou as grandes mídias sociais. Afinal de contas, era apenas um “indiozinho”, um futuro preguiçoso e sem um futuro brilhante de sucesso. Porém, nesse “indiozinho” encontramos não apenas a morte de uma pessoa, mas a negação de um direito - o de “bem viver” – em detrimento da fria eliminação de quem não mais corresponde aos ideais de um sistema revolucionário através do progresso econômico, financeiro, social, etc. É uma morte que sinaliza um problema bem mais profundo: o genocídio dos povos indígenas (ver. Revista IHU On-line 478).


É um sistema que envolve a todos nas múltiplas condições: entusiasmados, inconformados, subjugados, etc. Até mesmo os mais ferrenhos críticos se dobram diante do sistema: publicamente não fazem continência e até fazem pirotecnia da palavra crítica, mas secretamente dobram-se até o chão em reverência singela. Nele a urgência é de ser o “melhor”, o mais “produtivo” e “eficiente”. Os sinônimos de produção são dinheiro e sucesso. Não existe espaço para o fracasso. Não existe a oportunidade das pessoas serem consideradas “gente”, mas tão somente mão de obra barata (mas, qualificada) e maquinas de produção de “sentido” próprio e/ou alheio.


Os “senhores” do sistema não estão importados se para conseguir tais feitos, o mundo das pessoas viram uma precária fusão de mundos – pessoal, social, profissional. Nessa fusão uma grande ferramenta corrobora e perpassa todos esses mundos: a interconectividade é real, permitindo uma otimização do tempo e uma proximidade virtual. Não existem mais distâncias e fronteiras para quem está com um smartphone, tablet, computador conectado a internet. É uma possibilidade formidável para a produção de novos sentidos para as relações humanas. A precarização da fusão é quando acontece a sobreposição de mundos, ou seja, quando existe um compasso acentuado em apenas um mundo, não interconectando como possibilidade de um progresso humano real: pessoas se tornando “gente” tomando a consciência de que trabalho – lazer – estudos – família são aspectos da vida e exigem um estilo que lhes permitem “bem” viver, sem a necessidade ansiosa de buscar dinheiro e sucesso.

 

“A experiência das Missões Guarani é uma aula de antropologia social. Se o índio chegou a ser capaz de fabricar violinos artesanais de alta qualidade e tocá-los com virtuosismo, se foi capaz de alfabetizar-se na totalidade da população dos Sete Povos e produzir líderes como Sepé Tiaraju, que liam e escreviam em três idiomas (guarani, espanhol e latim), se conseguiu viver em harmonia econômica e social sem a presença de dinheiro, se nos deixou de “herança” dois milhões de cabeças de gado  que determinaram a vocação agrícola do nosso povo (até a indústria couro-calçadista nasceu nas Missões), como alguns brasileiros podem envergonha-se desse nosso sangre de origem oriental?”

Alcy Cheuiche
Revista IHU On-Line 156

Por Jéferson Fereira Rodrigues 

 

 

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