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A história gaúcha reconstruída a partir do mito fundador: Sepé Tiaraju

"Nós, no Rio Grande do Sul, temos de nos dizer missioneiros, não farroupilhas", disse o irmão marista Antonio Cechin à platéia que participou da mesa-redonda Sepé Tiaraju. Mito gaúcho?, na tarde de ontem, no XII Simpósio Internacional IHU – A experiência missioneira: território cultura e identidade.

No encontro, o jornalista baiano Nivaldo Pereira e Antonio Cechin reavaliaram a historiografia do Rio Grande do Sul que, durante anos, ignorou a existência das missões jesuíticas como mito fundador da história gaúcha. Segundo Pereira, a história do Rio Grande do Sul foi contada a partir de uma perspectiva portuguesa, da povoação açoriana e precisa ser reconhecida a partir da experiência missioneira. "Não tem cabimento comprarmos a história a partir da visão das oligarquias".

De acordo com seus estudos, Pereira menciona que a historiografia gaúcha "omitiu e minimizou" as experiências platinas no território. "Um bom exemplo é o Sete Povos das Missões, que não são considerados como parte da história do Rio Grande do Sul, simplesmente porque os jesuítas estavam a serviço da Coroa Espanhola".

Segundo ele, o entendimento integral da história só é possível a partir da compreensão de que não há fragmentação entre mito e história. "O mito é considerado real porque contém aspectos reais que serão mostrados pela história. Tudo que aconteceu na história está atrelado ao mito. O que a sociedade é e continuará sendo, depende do mito, por isso, temos de assumir as missões como mito fundador gaúcho".

Para Cechin, o mito fundador do Rio Grande do Sul é o índio guarani Sepé Tiaraju, o qual virou santo popular, embora não tenha sido canonizado "por preconceito da Igreja". Na avaliação dele, os gaúchos devem "pedir perdão às missões por não valorizarem a sua história".

O mito fundador oferece um repertório de representações da realidade cujos elementos se reorganizam em cada momento da formação histórica, como também tem seu sentido ampliado. "Vamos estar sempre ao sabor da ideologia, redesenhando o passado para nos mantermos fiéis ao mito". É nesse sentido, explica Pereira, que "Sepé Tiaraju, vencido e morto pelo homem branco luso-brasileiro, se tornou herói pela vontade popular".

A formação do povo rio-grandense está atrelada à experiência missioneira. Segundo Pereira, o mito formador do gaúcho, que leva em conta a democracia, uma relação sem patrões e empregados, já estava definido nas missões. Tudo que se explica como o caráter gaúcho: a autonomia, sustentabilidade, ideais de democracia, direitos humanos, política de espaço independente e a defesa estratégica de territórios são características missioneiras. "Mesmo que o gaúcho negue que as missões façam parte de sua história, ele se orgulha de todas essas características definidas nas missões", constata.

Autor de Deus morto no Pampa - Um olhar sobre a cultura gaúcha a partir da religiosidade no mito fundador (Caxias do Sul: Biblioteca Pública Dr. Demétrio Niederauer, 2008), Pereira explica que do embate da guerra missioneira como marco fundador do Rio Grande do Sul enquanto estado da Federação brasileira nasce uma guerra contra Deus. "Esse confronto com o divino gera o homem guerreiro que não aceita Deus. Surge o gaúcho distinto dos demais brasileiros: atrevido, que não se submete a ninguém".

A história do estado, que sempre foi reafirmada a partir do episódio farroupilha, mais tarde sacralizou a imagem Sepé Tiaraju, que já não é mais visto como inimigo, mas como "bravo guerreiro que diz: "Essa terra tem dono"". Citando como exemplo a frase do Hino Rio-Grandense "sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra", Pereira concluiu afirmando que "esta carga imaginária irá continuar gerindo a sociedade gaúcha".

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