Sepé Tiaraju, 259 anos: Memória viva. Entrevista especial com José Roberto de Oliveira e Alex José Kloppenburg

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03 Fevereiro 2015

A memória de Sepé Tiaraju, 259 anos depois, continua viva. Um pesquisador e um padre narram a história de Sepé e a celebração do próximo dia 7 de fevereiro, na Coxilha de Caiboaté, município de São Gabriel - RS.

Foto: pt.wikipedia.org 
A primeira semana do mês de fevereiro é dedicada à memória de Sepé Tiaraju, líder indígena que se tornou herói por morrer em batalhas pelo ideal de seu povo Guarani. De segunda-feira até o sábado, uma série de eventos ocorrem no Rio Grande do Sul, marcando os 259 anos de sua morte.

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o pesquisador José Roberto de Oliveira recorda um pouco da história desse líder e sua importância para o povo gaúcho. Ele acredita que o verdadeiro gaúcho descente de Sepé, uma vez que seu povo já vivia nas terras do pampa ainda antes da chegada dos europeus e, hoje, muitos têm descendência Guarani. Mas o legado vai além da genética. “Os movimentos sociais têm nele o símbolo maior de alguém que se posiciona contra as opressões externas e dos poderosos internos. Em um mundo brasileiro que sempre se valorizou e louvou o que vinha da Europa, é uma simbologia para todos nós de que os da terra podem se sentirem donos e gestores da territorialidade”, destaca.

Para José Roberto de Oliveira, também é importante lembrar dessa história para manter vivo os ideias que nortearam os Guaranis e, em especial, o seu líder. “Sepé, com sua representação, nos trás para a atualidade o sentimento pleno da terra sem males, entre o espiritual, mas também o do direito a terra, o direito a moradia, o direito de sermos felizes”, defende. É através da história desse herói que também se tem a oportunidade de recordar o nível de desenvolvimento das Reduções e a organização dessa sociedade. Para o pesquisador, “celebrar o massacre é lembrar aos atuais que tivemos os primeiros passos do comunismo (...). Ou o início do socialismo (...). Ainda é importante nestas celebrações lembrar de um tempo fraternal, onde as pessoas tinham direitos iguais e se construía um modelo cristão de união, onde o individualismo não era conhecido”, complementa.

Foto: arquivo pessoal
José Roberto de Oliveira (foto) é engenheiro, mestre em Desenvolvimento, pesquisador e escritor. É autor de Pedido de “Perdão ao triunfo da humanidade – A importância dos 160 anos das Missões Jesuítico-Guarani” (Porto Alegre: Martins Livreiro, 2009). Foi vice-prefeito de São Miguel das Missões, diretor de Desenvolvimento da Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul e um dos criadores do Ministério do Turismo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual a importância de Sepé Tiaraju para movimentos sociais, como o Movimento dos Sem Terra – MST, por exemplo?

José Roberto de Oliveira - Sepé Tiaraju, por ser um nativo da terra da América Latina e brasileira, um índio, por si só já representa a luta de sobrevivência dos naturais em relação a opressão dos mais fortes. Os movimentos sociais têm nele o símbolo maior de alguém que se posiciona contra as opressões externas e dos poderosos internos. Em um mundo brasileiro que sempre se valorizou e louvou o que vinha da Europa, é uma simbologia para todos nós de que os da terra podem se sentirem donos e gestores da territorialidade. Em um tempo onde a grande maioria da sociedade vive alheia as grandes lutas sociais, Sepé Tiaraju se apresenta como a grande simbologia de que os pequenos podem.

IHU On-Line – Por que celebrar os 259 anos do massacre de Sepé Tiaraju e dos Sete Povos das Missões?

“Os movimentos sociais têm nele o símbolo maior de alguém que se posiciona contra as opressões externas e dos poderosos internos”.

José Roberto de Oliveira – Primeiramente, porque acordamos para a realidade de termos um dos nossos como herói da pátria brasileira. E comemorar a presença de um nativo no Panteon da Pátria no mesmo nível de um Tiradentes, ou Dom Pedro I, é algo que a sociedade atual não tem o sentido de valor do que ocorre. Primeiro comemorar e divulgar, em segundo lugar dizer ao mundo o que ocorreu na Guerra Guaranítica, onde os dois principais exércitos daquele tempo no mundo se uniram para destruir o que foi chamado de "utopia do cristianismo" pela igreja na Europa, ou de "triunfo da humanidade" por Voltaire, ou ainda "primeiro estado industrial da América" por Montesquieu - um modelo comunal e que lamentavelmente poucos sabem do reflexo que teve para a Revolução Francesa, lembrando que aqui era um dos únicos lugares do mundo onde se voava nos lideres das comunidades, lembrando que em um mundo de reis do Século XVII e XVIII isto era praticamente impossível.
Celebrar o massacre é lembrar aos atuais que tivemos os primeiros passos do comunismo, como diz Paul Lafargue, o genro de Marx. Ou o início do socialismo, como diz Kautzki, o precursor deste modelo societário. Ainda é importante nestas celebrações lembrar de um tempo fraternal, onde as pessoas tinham direitos iguais e se construía um modelo cristão de união, onde o individualismo não era conhecido.

IHU On-Line - Sepé Tiaraju foi canonizado pela vontade popular, mas não é oficialmente reconhecido pela Igreja. A que o senhor atribui isso?

José Roberto de Oliveira - Cada um canoniza os seus, o povo os seus, a igreja os seus. A pergunta suscita muitas ideias: é bom lembrar que nenhum índio das Missões Jesuíticas dos Guaranis foi levado a ser padre. A vontade popular, suas orações e desejos, sempre fizeram de Sepé um santo popular, o São Sepé. É possível que em um tempo novo, de Francisco, um novo processo possa andar com mais fluidez e aceitação, primeiro entre nós e depois em Roma. Em nenhum outro momento da história tivemos uma situação tão boa para se dar a canonização de Sepé Tiaraju. As lutas do irmão Antônio Cechin reverberam como nunca, tanto na América latina como em Roma.

IHU On-line - De que tipo de gaúcho emerge da figura de Sepé Tiaraju? Como se diferencia do ethos europeu que o Estado assumiu desde a chegada dos imigrantes do velho continente?

José Roberto de Oliveira - Gosto muito do irmão Cechin e a sua ideia é a mesma minha: o verdadeiro gaúcho nasce do sangue 'pelo duro'. Ou seja, índio do Rio Grande do Sul é nossa genética básica. Quem trabalhou com o gado e outras lidas do mundo gaúcho sempre foi o peão, o gaúcho de verdade não é do mundo do patrão. É o mundo que iniciou com a entrada do gado em 1634 através das reduções. Gado este que com o ataque dos Bandeirantes luso-brasileiros (responsáveis pelo desaparecimento de 600 mil guaranis), ficou espalhado na pampa e se tornou milhões de cabeças e que sempre foram trabalhadas pelas reduções que ficaram do outro lado do rio Uruguai naquele momento. Com a volta das Reduções para onde hoje é o Rio Grande, a partir de 1682, os índios foram fazendo crescer ainda mais os seus estoques. Assim, todo o início do jeito gaúcho de ser é dos índios.

Depois, vieram as guerras e o fim das Missões, mas não o fim da gente que lidava com o gado. Estes foram os primeiros peões das estâncias portuguesas e espanholas. Esta mesma gente hoje forma os pobres dos bairros e vilas das cidades de nosso estado. Quanto ao europeu, este, que foi chegando em diversos momentos, foi criando leis e métodos para ir apagando a verdade de que o verdadeiro gaúcho é o descendente dos povos nativos que aqui vivem pelo menos há 12 mil anos.

IHU On-Line - Qual a importância do povo Guarani para o Rio Grande do Sul?

José Roberto de Oliveira - A entrada dos Guarani se dá há cerca de 2.500 anos. São mais desenvolvidos do que os anteriores que aqui viviam e trouxeram a agricultura para o Estado. Modelo que muito interessou aos Jesuítas, pois estavam em um neolítico avançado e que se adaptou muito bem ao projeto. A entrada do Povo Guarani também levou a uma espécie de guaranização de outras tribos que estavam no território. É bom lembrar que mais de dois terços do Rio Grande do Sul de hoje foi ocupado pelo projeto Jesuítico-Guarani e que, reputo, não morreram após a Guerra Guaranítica. Espalharam-se e se tornaram muito cedo os brancos com rosto de índio. Um bom exemplo é o de Maneco Pedroso, que em 1801 ajuda a tomar as Missões para os portugueses. Ele falava perfeitamente o Guarani, pois era filho de uma índia com um português. Em alguns casos, ainda hoje, temos municípios onde a sociedade é formada geneticamente por descendentes de guaranis que não sabem de suas heranças genéticas.

IHU On-Line - Como avalia a forma com que historicamente os gaúchos, em especial as autoridades, tratam o povo Guarani?

“As autoridades sempre representaram um mundo "branco" (não índio) e naturalmente queriam ser donos da terra, como qualquer europeu ainda hoje quer”.

José Roberto de Oliveira - As autoridades sempre representaram um mundo "branco" (não índio) e naturalmente queriam ser donos da terra, como qualquer europeu ainda hoje quer. Naturalmente trataram os Guaranis e as outras nações que por aqui eram os donos da terra como o inimigo territorial. Dou exemplos que minhas pesquisas encontraram: em 1850 as terras e pessoas foram dadas a registro - em São Nicolau se encontraram cerca de 12 famílias donas das terras – três anos após, Robert Delamant, um viajante francês, passa por São Nicolau e vê dezenas de famílias guaranis que viviam perto da antiga redução - jamais foram tratadas como gente, pois não contaram nem como donos da terra e muito menos como habitantes daquele local. As terras já estavam dadas e nenhum nativo havia recebido qualquer parte dela. Hoje continua o mesmo. É triste ver o que vi, agora em janeiro de 2015, na ida de Pelotas a Porto Alegre: índios da nação Guarani nas faixas de domínio da BR, a rodovia, uma verdadeira vergonha para todos nós. Continuamos tratando os índios como se estivéssemos no início da colonização do Estado. Ainda bem que não os caçamos como animais como faziam as colonizações europeias entre 1823 e 1900, pecado que nossos sobrenomes muito devem.

IHU On-Line - Sepé Tiaraju e o povo Guarani sonhavam com “a terra sem males”. Gostaria que explicasse esse conceito e atualizasse para os dias de hoje. O que seria “a terra sem males” nos dias de hoje?

José Roberto de Oliveira - A “terra sem males” tem, a cima de tudo, a ideia da composição espiritual de se estar em um lugar onde não haja males. Não necessariamente um território, mas também quando for o caso, especialmente, nos casos dos índios “desenterrados”. O sentido de um estado de bem, estar de paz e tranquilidade que todos nós deveríamos buscar e que é o centro da vida do Povo Guarani. Sepé com sua representação nos trás para a atualidade o sentimento pleno da terra sem males, entre o espiritual, mas também o do direito a terra, o direito a moradia, o direito de sermos felizes.

IHU On-Line - Por que é importante resgatar a história da experiência missioneira jesuítica entre os Guaranis? E como vê o papel da Companhia de Jesus?

José Roberto de Oliveira - Esta semana, mais uma vez, fui chamado a discutir sobre se a presença dos jesuítas foi algo positivo ou negativo entre os Guaranis. Sempre volto ao início dos aos 1600 e a realidade histórica desta ampla região da América. O Tratado de Tordesilhas havia dividido o território entre portugueses e espanhóis. O Rio Grande do Sul todo estava dentro do território de Espanha, bem como a grande parte de Santa Catarina e Paraná. Os 30 Povos os Bandeirantes buscavam os índios como escravos de suas lavouras, os espanhóis buscam índios como encomendados, também escravos. Não havia uma quarta hipótese. Ou o Povo Guarani era escravo dos paulistas, encomendados dos espanhóis, ou reduzidos pelos jesuítas. Preferiram, em sua maioria, por vontade própria irem às Reduções. Os que não foram, cerca de 600 mil, foram mortos nos ataques em busca de escravos.

A Companhia de Jesus teve um papel fundamental de sobrevivência dos Guarani naquele período. Os processos históricos são inexoráveis. Mantiveram os Guaranis livres das pressões pelo menos até o Tratado de Madri, o qual levou a Guerra Guaranítica e o consequente enfraquecimento do projeto. É sempre lembrar: a Guerra Guaranítica, a pesar da "martirização" de Sepé (martirização, pois o relatório de Guerra dos Jesuítas [Hennis] mostra que depois da lança portuguesa e tiro espanhol, puseram fogo com pólvora no corpo de Sepé, pois estava ainda vivo) e da morte 1.500 dos principais guerreiros companheiros, deixou muitos índios vivos e que formaram o centro da genética do mundo gaúcho. Entre os Guarani de hoje é preciso um trabalho muito profundo para elevar a autoestima e conectá-los com uma das principais histórias que a humanidade produziu, a deles mesmos.

IHU On-Line - Você defende que os Sete Povos das Missões vão muito além do que chamamos de Região Missioneira. Gostaria que explicasse essa sua ideia.

José Roberto de Oliveira - Vamos aos locais atuais e os nomes dos lugares: Cristovão de Mendoza, o introdutor do gado no Estado, é morto em Caxias do Sul, onde estava formando uma nova redução em 1635. A Vacaria de los Pinhales, a famosa estância comunal ao norte do Estado, é a atual cidade de Vacaria. Na cidade de Bagé há um local chamado Santa Tecla que é onde Sepé disse que "esta terra tem dono". Em Santa Maria, tínhamos uma localidade missioneira chama de San Martin. Os grandes ervais missioneiros estavam entre Frederico Westphalen e Erechim. A Vacaria do Mar ia de Pelotas a Porto Alegre. Poderia, ainda, dizer de muitas dezenas de lugares que nasceram inicialmente a partir das capelas que estavam nas Estâncias Missioneiras. E ainda sobre o tema,  divido um texto que me parece o centro da utopia que penso sobre as Missões.

Missa Terra Sem Males celebra luta de Sepé Tiarajú

Romaria dos Mártires - 1978 - São Gabriel

Foto: Alex José Kloppenburg

As comemorações em memória a Sepé Tiaraju encerram no sábado, dia 7 de fevereiro, com uma missa em Coxilha de Caiboaté (município de São Gabriel). Em entrevista por e-mail à IHU On-Line, o padre Alex José Kloppenburg, que preside a celebração da missa, afirma que o momento será muito mais do que de oração. O objetivo é resgatar a memória do povo indígena massacrado nas lutas.

“A missa respeita o esquema litúrgico. Não é um oratório apenas, menos ainda um show. É um texto musical e recitado, que ambienta e traduz indigenisticamente a Celebração Eucarística real”, explica Klooppenburg citando dom Pedro Casaldaliga – um dos autores dos cantos da celebração.

O padre ainda lembra que as festividades desse ano são uma espécie de preparação para 2016, quando serão celebrados os 260 anos de morte de Sepé e de seus irmãos de luta. “Isso - a morte - se deu em São Gabriel, já dentro da atual cidade, na Sanga da Bica. Ali se quer fazer um oratório missioneiro. Um local não só para fazer memória do fato, mas para que sirva de memória mística para a luta na construção da terra sem males, de outro mundo possível”, completa. Para Kloppenburg, o sonho guarani ainda é possível. E para não abandoná-lo, é preciso mobilizar as novas gerações. “É preciso lembrar às novas gerações que nosso mundo tem uma grande bagagem de lutas, de sofrimentos, de opressões e de vitórias. Lembrar que a fé nos ajuda nesta caminhada de libertação, alimentando nossa mística e animando nossa esperança”.

Alex José Kloppenburg é pároco da Paróquia Nossa Senhora do Patrocínio, do município de Dom Pedrito.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - O que é e como será a Missa da Terra Sem Males?

Os povos Tupi, em geral, e os Guarani, em específico, têm como elemento forte de sua teologia a superação do sofrimento pela conquista da “terra sem males”.

Alex José Kloppenburg - Os povos Tupi, em geral, e os Guarani, em específico, têm como elemento forte de sua teologia a superação do sofrimento pela conquista da “terra sem males”. É a busca dos povos indígenas e de todos os pobres do mundo por uma terra livre da dor, do sofrimento e da morte. Este sonho foi experienciado e vivido nas Missões de nosso Estado, Argentina e Paraguai e destruído pela ganância e pelo colonialismo português e espanhol. Em 1978, no Brasil, celebrou-se o “Ano dos Mártires”, lembrando os 350 anos dos três Mártires Riograndenses – Roque Gonzales, Afonso Rodriguez e João Castilho. O Conselho Indigenista Missionário – CIMI achou que era de justiça que não se celebrasse apenas a morte dos três missionários jesuítas, mas também a morte de milhares de índios.

No 7 de fevereiro de 1978, celebrou-se uma romaria até a Coxilha de Caiboaté (em São Gabriel), onde no dia 10 de fevereiro de 1756 foram mortos 1,5 mil índios. Ali se fez uma Via Sacra Missioneira, presidida por dom Tomás Balduíno, então presidente do CIMI. Foi o início das Romarias da Terra, que se espalharam pelo Brasil. Ali nascia a ideia de uma Missa da Terra sem Males, que foi composta por dom Pedro Casaldaliga e Pedro Tierra (Hamilton Pereira da Silva) e musicada por Martin Coplas, argentino, descendente de quechua e aymara.

IHU On-Line - No que ela se diferencia de uma missa tradicional?

Alex José Kloppenburg - Segundo Casaldaliga, “a missa da Terra Sem Males é ortodoxa. A missa respeita o esquema litúrgico. Não é um oratório apenas, menos ainda um show. É um texto musical e recitado, que ambienta e traduz indigenisticamente a Celebração Eucarística real”. Foi celebrada pela primeira vez na Catedral da Sé, em São Paulo, no dia 22 de abril de 1979, com a presença de quase 40 bispos sete mil fiéis, que lotaram a Catedral. Eu diria que a Missa da Terra sem Males é Penitencial, Memorial e Compromisso.

IHU On-Line - Qual a proposta desse evento em memória a Sepé Tiaraju?

Alex José Kloppenburg - Em 2016, iremos celebrar 260 anos da morte de Sepé e seus companheiros. Isso se deu em São Gabriel, já dentro da atual cidade, próximo da rodoviária, na Sanga da Bica. Ali se quer fazer um oratório missioneiro, um local não só para fazer memória do fato, mas para que sirva de memória mística para a luta na construção da terra sem males, de outro mundo possível. Eu diria também que ali tem se tornado um marco de celebrações da memória dos povos indígenas.

IHU On-Line - Qual a importância desta celebração no contexto atual?

Alex José Kloppenburg - Um povo que perde a memória histórica é um povo sem consciência crítica e facilmente manipulável. Os grandes e vencedores sempre querem contar a história na sua versão. Aqui se quer recordar que o sonho dos Guarani de ontem e de hoje é possível. É preciso lembrar às novas gerações que nosso mundo tem uma grande bagagem de lutas, de sofrimentos, de opressões e de vitórias. Lembrar que a fé nos ajuda nesta caminhada de libertação, alimentando nossa mística e animando nossa esperança. Esta celebração quer mostrar ao mundo que o sonho não acabou e que os índios ainda continuam acreditando.

IHU On-Line – Por que celebrar os 259 anos do massacre de Sepé Tiaraju e dos Sete Povos das Missões?

Alex José Kloppenburg - Justamente para isso. Memória. Perdão. Compromisso. Chamar a atenção de toda a sociedade para a realidade dos pobres, que continuam sendo massacrados e excluídos, numa sociedade que privilegia o lucro, o consumo e o prazer. Sociedade que não é capaz de solidificar os sonhos e valores, mas que os torna todos líquidos. Celebrar esta data é dizer que o sangue derramado por São Sepé e seus companheiros continua adubando sonhos e esperanças, animado lutas e conquistas.

IHU On-Line – Desde o ponto de vista teológico, qual o significado desta celebração?

Alex José Kloppenburg - O Papa Francisco nos diz que nossa Igreja deve ir ao encontro das culturas, dos povos e dos pobres. Estar onde o povo está. Ser presença e solidariedade, Igreja misericordiosa e samaritana. Há poucas semanas, ele celebrou, em pleno Vaticano, no dia de Nossa Senhora de Guadalupe, a Missa Criolla, do também argentino Ariel Ramirez. Na oportunidade, o Papa Francisco disse que “o futuro da América Latina está forjado pelos pobres e pelos que sofrem, pelos mansos, pelos que têm fome e sede de justiça. Deles será o reino dos céus". E afirmou mais: "América Latina é o continente da esperança" porque ali se está à espera "de novos modelos de desenvolvimento que combinem a tradição cristã e o progresso civil, a justiça e equidade com a reconciliação, o desenvolvimento científico e tecnológico com a sabedoria humana. Sofrimento fecundo com alegria esperançadora".

IHU On-Line – Como a questão da Terra e do respeito aos indígenas (no sentido de que são povos mais oprimidos) dialoga com preceitos bíblicos?

Alex José Kloppenburg - A Bíblia tem uma verdade muita clara: tudo o que existe foi criado por Deus. E Deus deu tudo para todos, e não só para alguns. Concentrar a terra e acumular não é bíblico nem teológico. No livro de Deuteronômio está escrito que “entre vós não deve haver pobres” (Deuteronômio 15,4-7). Os povos indígenas têm como conceito da terra a Pachamama – a Mãe Terra. É toda uma ligação ecológica, no respeito à vida e a natureza, ao mundo como sendo a casa de todos, onde somos os jardineiros e os cuidadores, e não depredadores e destruidores. Precisamos aprender muito com os povos indígenas esta relação com a natureza e a terra, que deve ser cultivada sustentavelmente, e não visando o lucro e o capital.

IHU On-Line – Qual o significado de se realizar a missa na Chácara Juca Tigre? Já foi construído no local o Memorial a Sepé Tiaraju?

Alex José Kloppenburg - Pois nada melhor que celebrar a memória de um fato no local onde aconteceu. Voltar às fontes e à origem. Isso tem um valor enorme. Valor histórico, mas também valor espiritual, emocional, de compromisso. É como se reabastecer na fonte, na água pura e cristalina. Estar presente onde estiveram nossos heróis e ancestrais. É terra sagrada e abençoada. E ali vai se deixar um oratório missioneiro, uma estátua de São Sepé Tiarajú, cuja canonização o ir. Antonio Cechin tanto sonha, defende e incentiva. E nós apoiamos.

Quero concluir com os versos finais da Missa da Terra Sem Males:

Unidos na Memória
da Páscoa do Senhor
voltamos para a História
com um dever major.

Unidos na memória
da Antiga Escravidão
juramos a Vitória
na nova servidão.

América Amerindia,
ainda na Paixão:
um dia tua Morte
terá Ressurreição!

A Páscoa que comemos
nos nutre de porvir.

Seremos nos teus Povos
o Povo que ha de vir.

Os Pobres desta Terra
queremos inventar
essa Terra-sem-males
que vem cada manhã.

Uirás sempre a procura
da Terra que vira...

Maíra, nas origens.
No fim, Marana-tha!

 

Por Ricardo machado e João Vitor Santos

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Sepé Tiaraju, 259 anos: Memória viva. Entrevista especial com José Roberto de Oliveira e Alex José Kloppenburg - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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