''Armados, guaranis não seriam escravizados''

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26 Outubro 2012

"A certa altura, um ouvidor da Coroa espanhola decide que a solicitação de armas feita pelos jesuítas estava correta e autoriza o armamento dos índios. No momento em que as armas são entregues, trava-se no Uruguai a Batalha de Mbororé (1641), na qual os bandeirantes – na realidade, cerca de 500 paulistas e mil índios tupis – são derrotados por pouco mais de 3 mil guaranis. Mas foi uma batalha de três dias. Nessa primeira etapa, começa a ocorrer o armamento indígena", narra Arno Kern, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCCRS em entrevista publicada pelo ornal Zero Hora, 20-10-2012. A entrevista  é de Luiz Antônio Araujo.

Eis a entrevista.

Onde o senhor nasceu e cresceu? Como e onde foi sua educação?


Ao dizer onde nasci, você vai entender melhor por que faço pesquisa sobre Missões. Nasci em Santo Ângelo. Sou missioneiro, nasci na última redução fundada pelos jesuítas na região das Missões. Desde pequeno, ouvia lendas do subterrâneo e dos tesouros enterrados. Era comum, na sociedade missioneira, ir passar os finais de semana nas ruínas, fazer churrascos. Essa ligação com o passado missioneiro eu trouxe comigo quando vim para Porto Alegre. Na hora de escolher um tema para a dissertação de mestrado, feito também em Porto Alegre, me dei conta de que havia, no ambiente intelectual da época, uma série de controvérsias em relação ao tema. Para um autor, as Missões eram um sistema comunista antes de Marx. Outros diziam que era uma república de cristãos primitivos, como a Igreja cristã no início da história do cristianismo. Outros, em um viés um pouco mais rígido dentro do marxismo, achavam que era um socialismo missioneiro, modo de produção novo e original na história. Na realidade, ninguém conceituava nada. Algumas dessas abordagens implicava dizer que os guaranis, porque não tinham propriedade privada, eram comunistas. Ora, os guaranis eram homens pré-históricos, e os homens pré-históricos não tinham propriedade privada. Os jesuítas também seriam comunistas. Esquecia-se que todas as ordens religiosas fazem voto de pobreza e nem por isso se tornam comunistas. Isso dá uma ideia do tipo de controvérsia e de falta de clareza que havia.

Na minha opinião, as Missões eram importantes por outros motivos. Em primeiro lugar, ficavam em uma dupla fronteira. Primeiro, uma fronteira entre Portugal e Espanha. Duas frentes de colonização se chocavam aqui, em um atrito bastante sério, e as Missões estavam exatamente no limiar entre esses dois grandes impérios coloniais. Segundo, as Missões se situavam em uma fronteira que me parecia evidente, mas da qual os historiadores da época não se davam conta: aquela entre a pré-história e a história. Existiam apenas 60 missionários nos povoados, com 150 mil guaranis recém-saídos da pré-história. Ao deixar suas aldeias, onde eram aldeões horticultores neolíticos – era o que eles eram, para não dizer que eram também canibais –, esses guaranis carregavam sua cultura para os povoados missioneiros.

As missões foram parte do projeto colonial tanto de Portugal como da Espanha?

Portugal e Espanha usaram muito o sistema que Montoya (Antonio Ruiz de Montoya, jesuíta peruano, 1585 – 1652) chamou de “guerra espiritual”. Não foi uma campanha militar para conquista de território, a não ser bem no início. Era muito mais barato mandar um missionário com uma cruz na mão, um rosário, uma gravura de um santo e uma Bíblia. Você pegava indígenas loucos para ter acesso à tecnologia do branco, como o metal, e eles iam pouco a pouco se inserindo na sociedade portuguesa ou espanhola. Havia missionários jesuítas na Argentina, no Paraguai, no Rio Grande do Sul e em todo o resto do Brasil, mas também na Bolívia.

Havia missões jesuíticas na região amazônica. O próprio Vieira (Antonio Vieira, jesuíta português, 1608 – 1697) andou pelas missões no Maranhão. Essas missões faziam a inserção dos grupos indígenas nos povoados espanhóis e portugueses. Essa fímbria entre a civilização que chegava e o mundo pré-histórico que havia prevalecido na América era muito delicada. É uma situação bem interessante do ponto de vista histórico. Na época em que comecei a pesquisar, o importante não era tanto escolher um tema para discorrer, mas encontrar um problema científico relevante na história. Ao me voltar para o tema das Missões, não só eu tinha esse problema, que ninguém havia resolvido convenientemente, como podia acrescentar um século a mais na história do Rio Grande do Sul. Todas as histórias do Estado naquela época, a maioria escrita por padres, generais, médicos, começavam com a fundação de Rio Grande, no século XVIII. Com o período missioneiro, ia-se ao século XVII. E, se considerarmos que os guaranis chegaram aqui há 1,4 mil anos, acrescentava-se uma boa parte de pré-história a esse intervalo.

Os missionários tinham um plano determinado sobre como realizar seu trabalho ou atuavam de improviso?

Os jesuítas queriam que esses guaranis se transformassem em cristãos e fossem reduzidos, como eles diziam, à vida política. Era preciso que se reunissem em um povoado, onde seriam homens politizados, distantes do nomadismo pré-histórico. Nesse ponto, os jesuítas são muito pragmáticos. Eles partem da concepção, baseada na filosofia grega de Platão e Aristóteles, de que é preciso reduzir o indivíduo à vida na cidade, torná-lo um cidadão. Depois de civilizado, esse indivíduo será cristianizado. O problema era bastante complicado. Era preciso convencer diversos caciques, com seus vassalos, a fundar uma cidadezinha, um “pueblo de indios”, como é dito na documentação espanhola. Isso implicava arregaçar as mangas, se é que as tinham, e fazer um trabalho hercúleo: instalar uma praça central, fazer ruas, construir uma igreja no fundo da praça. Seria preciso organizar a instalação desses grupos indígenas nesse espaço.

A herança indígena, porém, é muito forte e vai pesar na formação do povoado missioneiro. A plaza mayor, típica da cidade espanhola, era uma herança da ágora grega e do fórum romano. As ruas se cortavam em ângulo reto, uma característica que vem do mundo grego. Mas não havia quarteirões de casas, como nas cidades europeias. As casas eram típicas ocas indígenas amazônicas, onde os caciques viviam com seus vassalos. Não havia funcionários do rei, somente padres. Junto à igreja, cria-se um conjunto com cemitério, claustro, pátio dos artífices e quinta. Existem 2 mil exemplares desse tipo de construção na Europa: são os mosteiros medievais. Primeiro, os dos beneditinos, depois cluniacenses, franciscanos, dominicanos. A última, fundada na Renascença, foi a dos jesuítas, alunos de Erasmo de Roterdã. Eles implantaram um modelo que funcionou em toda a Europa para a catequização em territórios pagãos.

Qual foi o impacto da sua pesquisa na maneira como o elemento indígena é visto na história rio-grandense?

Quando eu cursava a universidade, houve comemorações de diversos efemérides de imigração: alemã, italiana. Faltava um personagem em nossa história, que era muito malvisto. Era menosprezado como desimportante, em pequeno número e sem contribuição relevante. Havia um autor da época que falava mesmo em “viveiro guarani”. Ora, viveiro remete a animais, não gente. Por outro lado, o processo de colonização vai levar ao povoamento da região. Os jesuítas não queriam escravos. Como não havia muros nem portas de entrada, todos podiam entrar e sair do povoado quando quisessem. Os índios eram atraídos com peças de metal. Roque González (jesuíta paraguaio, 1576 – 1628) tinha uma frase muito engraçada: ele dizia que, com uma lâmina de machado dada a um cacique, se ganhava as “almas” dos índios – como se fossem as almas dos índios que eles estivessem ganhando. Os índios não sabiam bem para que servia aquilo, mas sabiam que era importante, pois poderiam derrubar uma floresta com mais facilidade do que se usassem seus machados neolíticos.

Muitos anos antes das Missões, o conquistador espanhol Solís (Juan Díaz de Solís, descobridor do Rio da Prata) recebeu uma homenagem muito grande dos guaranis. Como ele chegou mostrando que era um poderoso feiticeiro, capaz de levar uma ilha de um lado para outro – os índios imaginavam que as caravelas eram ilhas –, os guaranis o receberam em terra e o comeram em um ritual de canibalismo para incorporar os poderes daquele xamã. Não sei se Solís entendeu bem a homenagem que estava recebendo. (Risos.) Assim, o indígena entra na história e dá uma contribuição muito grande ao processo de colonização. Os missionários sobreviveram graças à alimentação indígena – o milho, a mandioca. Havia superávit de alimentos, e isso salvou os europeus nas povoações. O problema não era a agricultura, e sim a caça: para caçar, os índios tinham de migrar e voltavam a ter hábitos “pagãos”, na expressão dos jesuítas. Nesse momento, introduz-se o rebanho de gado.

Os jesuítas podiam atrair os índios com presentes, mas como conseguiam convencê-los a permanecer no povoado?

Uma das coisas que os jesuítas fazem é dizer aos índios: vocês estão aí lutando contra a conquista portuguesa e espanhola, têm de enfrentar os bandeirantes e nós lhes oferecemos armas de fogo. Mais de 800 armas de fogo foram introduzidas nas Missões pelos jesuítas, os índios passaram a se exercitar no manejo dessas armas e foi graças à criação de uma milícia guarani que a Espanha deixou de perder territórios. O resultado disso é que, nos povoados missioneiros, guaranis foram armados para defender a fronteira espanhola. Armados, esses guaranis não seriam escravizados nem pelo português nem pelo espanhol. Há um grande compromisso de parte a parte, e se a letra do contrato não for cumprida, rompe-se a relação. Seria impossível que os 60 jesuítas radicados nas Missões prendessem dezenas de milhares de guaranis. Os índios dariam risada e pagariam com a própria vida para evitar que isso ocorresse.

Em que momento as armas são introduzidas?

Em um primeiro momento, eles tentam fazer paliçadas para se defender, mas não conseguem deter os bandeirantes que avançam até o Rio Grande do Sul. A certa altura, um ouvidor da Coroa espanhola decide que a solicitação de armas feita pelos jesuítas estava correta e autoriza o armamento dos índios. No momento em que as armas são entregues, trava-se no Uruguai a Batalha de Mbororé (1641), na qual os bandeirantes – na realidade, cerca de 500 paulistas e mil índios tupis – são derrotados por pouco mais de 3 mil guaranis. Mas foi uma batalha de três dias. Nessa primeira etapa, começa a ocorrer o armamento indígena. A Espanha percebe que vai perder todos os territórios ao sul do Brasil. Se fossem contabilizados todos os espanhóis da região, incluindo Assunção e Buenos Aires, não havia mais de 500 soldados. Se uma bandeira vinha com quase 1,5 mil homens, não havia tropa espanhola que pudesse detê-la. Então, esse é a razão pela qual o armamento indígena é vital. E, se é assim, não há como escravizar esses índios, por mais que Assunção e Buenos Aires vejam esses indígenas como mão de obra escrava potencial. No entanto, pelo menos até o final da experiência missioneira, isso não foi possível. Muitos historiadores dizem que, afinal, os jesuítas conseguiram isso. Sim, mas conseguiram porque havia uma guerra na fronteira. Se não fosse assim, talvez eles não conseguissem de Espanha essa concessão imensa de armar os guaranis e colocá-los em serviço nas batalhas. Portugal fez isso uma vez, para combater a invasão holandesa no Nordeste. Os índios foram armados e, assim que os holandeses foram expulsos, desarmados.

Como ocorre o desaparecimento da experiência missioneira?

A Guerra Guaranítica (conflito de 1750 a 1756, que opôs Espanha e Portugal, de um lado, e os Sete Povos rebelados da margem esquerda do Rio Uruguai, de outro, tendo os últimos rejeitado os termos do Tratado de Madri e se recusado a aceitar o domínio português) abate o moral dos indígenas, mas não provoca o desaparecimento de nada. Os portugueses tentam incendiar São Miguel, mas não conseguem. Se tu olhares atrás do altar-mor das ruínas da Catedral de São Miguel, há pedras estouradas pelo calor do fogo. A vida continua durante um tempo, mas a Companhia de Jesus, a certa altura, é expulsa por razões relacionadas à política na metrópole. No lugar deles, são enviados franciscanos ou administradores do Estado para ocupar seus lugares. Quando os jesuítas vão embora, os guaranis entendem que seus xamãs os estão abandonando e começam a deixar os povoados. Nesse momento, gradualmente, começa a degradação dos povoados. Cada viajante do século XIX que passa pelos Sete Povos conta uma história pior: a Igreja era muito bonita, mas não existe mais, há apenas algumas centenas de índios morando lá. É uma lenta degradação que ocorre de forma contínua até dar lugar à ruína de hoje. O espírito coletivo desaparece. Os guaranis saíram dos povoados e foram para as cidades espanholas e portuguesas oferecer sua força de trabalho. Sabiam trabalhar o couro, o metal, fazer ladrilhos cerâmicos e telhas. Tinham aprendido isso no pátio dos artífices das missões e fazem o trabalho artesanal que os espanhóis não quiseram fazer, porque tinham vindo para cá enriquecer e não para trabalhar.

Não foram apenas para as cidades, mas para as estâncias.

Com certeza. Já havia estâncias missioneiras quando os portugueses e espanhóis tomaram conta daquela região. Esses índios vão dar origem ao homem campeiro, ao gaúcho. Até hoje, quando um gaúcho encontra outro, dá um tapa no ombro e diz: “Índio velho”. Isso é extremamente amigável e gentil, não é nenhuma ofensa. Eles se reconhecem pela cara. Eles estão aí sempre, nunca desapareceram. Apenas mudaram de nome.

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