Entre povos e paisagens: a diversidade da missão nas Américas

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26 Outubro 2010

No Norte e no Sul das Américas, o fenômeno missioneiro se expandiu, marcado por diversas semelhanças e especificidades. Esse foi o tema da mesa redonda "Entre a paisagem e o pueblo: ocupação do território e exploração de recursos", na tarde desta terça-feira, dentro da programação do XII Simpósio Internacional IHU – A experiência missioneira: território, cultura e identidade.

Participaram desse debate o Prof. Dr. Arno Kern, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCCRS, e o Prof. Dr. Pedro Ignácio Schmitz, do Instituto Anchietano de Pesquisas – IAP, da Unisinos.

Para Kern, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica – SBPH, seu trabalho buscou analisar como se deu o fenômeno missioneiro a partir de uma perspectiva mais ampla, ou seja, as "Missões Jesuíticas no Canadá". Segundo ele, há diversas peculiaridades nessa região de missão que podem ser comparadas e contrastadas com as reduções e missões realizadas no Sul da América.

E, nesse sentido, segundo ele, é preciso se distanciar de alguns retratos feitos dessas missões, como nos filmes "Hábito Negro" – que Kern considera como uma visão simplista da missão, um filme que termina justamente quando esta começa – e "A Missão" – na qual o historiador vê diversas imprecisões históricas e cujo protagonista são, curiosamente, as Cataratas do Iguaçu.

A partir daí, Kern descreveu diversas características do território e dos recursos explorados pelos índios nas missões da América do Norte, em que foi preciso lidar com uma região com um frio muito intenso, com um período de insolação menor e, ao mesmo tempo, com grandes rios e lagos, com abundância de matérias-primas específicas e também valiosas para as relações econômicas e comerciais entre os índios, os colonizadores britânicos e franceses e a Europa.

Cartier, Champlain e Lejeune

O ponto de partida europeu da missão, segundo Kern, foi a cidade de Hanfleur, no norte da França, de onde saíram os dois personagens centrais da colonização europeia do Norte da América: os franceses Jacques Cartier e Samuel de Champlain. Cartier foi o primeiro a chegar, levando para a França os melhores recursos encontrados na região do atual Canadá, especialmente peles e couros. Seus contatos com os índios – como os algonquinos, moicanos e hurons – foi bastante forte, tanto é que, posteriormente, ambas as principais cidades franceses fundadas por lá – Montreal e Quebec – se desenvolveram no mesmo lugar das aldeias de índios semissedentários.

Champlain, fundador de Quebec, aliou-se aos algonquinos, podendo assim avançar pelo rio São Lourenço, aprofundando as trocas comerciais com os índios, de peles de castores por produtos europeus. Da Europa, trouxe consigo os franciscanos e, posteriormente, os jesuítas.

Um dos grandes jesuítas enviados em missão à América do Norte foi Paul Lejeune (1591-1664), autor das primeiras relações (relatórios), um "misto de história com relato do momento presente", segundo Kern, em que se narram, quase como um diário, os fatos que iam acontecendo ao longo da missão.

Por isso, Lejeune foi um grande "cronista da época, relatando os acontecimentos para popularizar na Europa o que estava acontecendo do outro lado do Atlântico e conseguir o apoio da nobreza para o processo de colonização-missionação", defendeu Kern, já que o grande problema era encontrar verbas para financiar esse processo, especialmente o envio de missionários. Uma das saídas encontradas pelos jesuítas foi também participar do comércio de couros e peles.

Franceses contra iroqueses e ingleses

Além dos custos financeiros da missão, um custo mais profundo eram os martírios, devido às disputas com os índios iroqueses. Segundo Kern, cerca de 20 missionários foram mortos por essa tribo. Especialmente os jesuítas Pe. Daniel (1648), Pe. Brébeuf e Pe. Lallemant (1649). Porém, explicou Kern, a preocupação da ordem jesuítica era não a de buscar novos mártires, mas sim a de conquistar mais cristãos entre um povo que, segundo as descrições da época, "não tinham nem lei, nem Deus, nem religião".

Porém, com a chegada do século XVIII, ocorreu conjuntamente a expansão dos ingleses ao interior da América do Norte e, com eles, dos missionários anglicanos. Assim, relatou Kern, em 1759, Quebec foi bombardeada pelos ingleses e, no ano seguinte, rendeu-se à Inglaterra. Em 1763, os ingleses conseguem o domínio total da América do Norte e, dez anos mais tarde, os jesuítas missionários franceses são expulsos.

As cidades coloniais do Sul

Já o Prof. Dr. Pedro Ignácio Schmitz, atual membro e ex-diretor do Instituto Anchietano de Pesquisas de 1966 a 2009, apresentou um amplo relato sobre o "Território das missões jesuítico-guaranis" na América do Sul.

Segundo ele, enquanto ocorria o processo de fundação das reduções, já havia diversas cidades coloniais bem desenvolvidas na região, como Córdoba, na Argentina. É lá que surge, por exemplo, a primeira universidade da região, ainda em 1611. Além disso, os colégios das cidades coloniais, ainda antes das reduções, já realizavam diversas ações sociais, tanto com os europeus colonizadores, quanto com os índios que trabalhavam para os europeus.

Segundo Schmitz, que também edita a Revista Pesquisas desde 1962, a missão na parte espanhola da América começou por meio dos franciscanos, dominicanos e mercedários, e os jesuítas chegaram tardiamente. De 1558 a 1661, foram fundadas oito reduções franciscanas no território de Assunção, no atual Paraguai, e, de 1615 a 1638, foram fundadas outras cinco, no território de Corrientes, na atual Argentina. Já na parte portuguesa, são os jesuítas que recebem essa missão.

A expansão para a periferia

Assim, como já havia diversas cidades coloniais fundadas na região, e nelas a missão jesuítica se desenvolvia nos colégios, especialmente nas localidades dos contrafortes dos Andes, os jesuítas passam então a expandir sua missão entre os índios da periferia do continente da época, iniciando as primeiras fundações de reduções em 1609 até 1619. "As reduções jesuíticas entre os índios guaranis se caracterizam como uma incorporação periférica e disjunta numa área pobre do sistema colonial espanhol", afirmou. De 1622 a 1628, outras 14 reduções são fundadas na região do atual Estado do Paraná, no Brasil. Nesse período, ocorre uma grande expansão, com mais missionários.

Porém, segundo Schmitz, ao mesmo tempo, a colônia portuguesa se fixa e se estabelece na zona litorânea, e os bandeirantes vão se deslocando ao interior para arregimentar índios para irem trabalhar em São Paulo.

Assim, de 1631 a 1635, as reduções do Paraná são destruídas pelos bandeirantes. Os sobreviventes se deslocam para as reduções do Sul. Dessa forma, 16 novas reduções são fundadas no atual Rio Grande do Sul, por exemplo São Miguel, por meio do padre jesuíta Roque Gonzales.

Os cultivos

De acordo com Schmitz, nesses territórios, os índios cultivavam ervais, com produção de algodão, cana-de-açúcar, trigo, mandioca, vinhedos, além de pomares. Além disso, cada redução tinha grandes currais e pastos nos quais se guardavam os animais a serem abatidos durante o ano. "O índio não comia pão. O pão do índio era a carne", comentou Schmitz, citando um relato do Pe. Antônio Sepp, fundador da redução de São João Batista, um dos Sete Povos das Missões.

Schmitz também apresentou alguns números referentes às reduções, como exemplo da organização dos índios. Em São Miguel, em 1768, por exemplo, havia mais de 3 mil pessoas, com mais de 18 mil cabeças de gado de corte, 195 vacas leiteiras e mais de mil ovelhas.

Aos poucos, porém, especialmente entre 1682 e 1740, epidemias, serviços militares ao império, dizimação nas guerras, desabastecimento, tudo isso reduz a população das reduções, o que levou também a uma redução econômica. "Entre os fins do século XVIII e começos do século XIX se dissolvem as comunidades, e o território é apropriado por fazendeiros de origem espanhola e portuguesa. Os povoados se arruínam, os antigos moradores se dispersam, se misturam com o resto da população colonial e desaparece o caráter de `missioneiro`", conclui Schmitz.

Em suma, o historiador afirmou que é preciso entender que os jesuítas – assim como os demais missionários – eram pagos para servir aos seus respectivos impérios – espanhóis e portugueses. Por outro lado, para se ter uma compreensão mais clara da "missão" jesuítica como um todo, Schmitz afirmou que é preciso levar em consideração, em suas especificidades, fenômenos como os colégios, as universidades e as reduções, que ocorriam conjuntamente, mas focavam a evangelização dos indígenas por meio de prismas diversos, que precisam ser melhor comparados e aprofundados.

(Por Moisés Sbardelotto)