“Santo, ainda que tarde!”

Revista ihu on-line

Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

Edição: 546

Leia mais

Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

Edição: 545

Leia mais

Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

Edição: 544

Leia mais

Mais Lidos

  • “A mulher precisa, e as religiosas sobretudo, sair daquele papel de que ela é inferior”. Entrevista com a Ir. Maria Freire

    LER MAIS
  • Governo Bolsonaro deixa estragar 6,8 milhões de testes de covid-19

    LER MAIS
  • A Economia de Francisco. ‘Urge uma nova narrativa da economia’. A vídeomensagem do Papa Francisco

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


24 Novembro 2015

Juntos elaboramos o documento-base denominado postulação, exigido pelo Vaticano para iniciar a caminhada oficial de Sepé rumo aos altares, com direito a ter seu nome inserido no martirológio, a um dia de festa por ano no calendário litúrgico, direito a culto universal, a ser invocado por todos os cristãos como modelo de santidade, a ser declarado padroeiro dos prefeitos e dos políticos em geral, numa época como a nossa, no Brasil, tão necessitada de um modelo de santo político, que soube harmonizar perfeitamente a Fé Cristã com a Política, etc.

No dia 10 deste corrente mês de novembro, na cidade angelopolitana, acompanhados de uma centena de lideranças leigas da diocese, fizemos a entrega solene, ao bispo diocesano, Dom Liro Vendelino Meurer, da Postulação, acompanhada de apoios endereçados ao mesmo bispo, a fim de que envie o pedido ao Vaticano.

O artigo é de Antonio Cechin. Ele formou-se em Letras Clássicas e em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS, onde também foi professor. Fez sua pós-graduação no Centro de Economia e Humanismo, em Paris. Iniciou na Instituição Católica de Paris a especialização em catequese, quando foi chamado para o Vaticano, na Sagrada Congregação dos Ritos, no início da década de 1960.

Esse texto com os referidos apoios, primeiro passo do processo de canonização oficial, é o seguinte:

“Santo, ainda que tarde!”
“Por uma postulação de reconhecimento de santidade de José Tiaraju (São Sepé, o Tiaraju)

No bairro Teresópolis, em Porto Alegre, encontra-se a rua Sepé Tiaraju. As placas de esquina completam a informação: “corregedor indígena, defensor da terra missioneira”. Logo adiante, na rua, há um posto de gasolina com o nome: Sepé Tiaraju. e mais adiante uma lancheria: São Sepé. Há também uma escola, um CTG, uma praça: Sepé Tiaraju. E levantando o olhar para o mapa do Rio Grande do Sul, ou mesmo examinando-o por Internet, não há cidade de médio porte ou muitas inclusive de pequeno porte, que não tenham algo em seu nome, um bairro em Santo Ângelo, até chegarmos a uma cidade inteira, no coração do Rio Grande, que o canoniza em seu próprio nome municipal, a cidade e o município de São Sepé.

Acima das controvérsias políticas e das interpretações históricas viciadas pelo olhar luso-açoriano (em confronto histórico com o castelhano) que impediram a ereção de um monumento a São Sepé por ocasião do bicentenário de sua morte, na verdade chegamos aos 250 anos com diversos monumentos, placas, denominações públicas ou de iniciativa popular, e, sobretudo, o reconhecimento oficial de Herói Rio-grandense e de Herói Nacional. Ou seja, ao invés de diminuir, sua fama cresce! O que deve ser tem força. Mas por duas razões não se trata de um herói ao modo grego, narrado pelo vencedor e pela lógica do mais forte, que para isso estão nossas ruas e praças com nomes de coronéis e figuras ilustres da sociedade. As duas razões são claras: A primeira, a percepção popular difusa pelo Rio Grande é de que se trata de um “santo” ao modo dos santos católicos, e daqui ocorre o título mais original que lhe é dado com longa insistência:

São Sepé”. E segunda, porque de fato, politicamente e friamente, ele não foi vencedor, foi vítima da política de dois impérios coloniais, juntamente com o povo pelo qual ele era responsável. Para a lógica dos vencedores, ele é, como o caso de Jesus, um “anti-herói”. A ele cabe bem a homenagem do francês Antoine Mercié com sua dolorosa e serena escultura “Gloria Victis” (1874): a vítima erguida por um anjo pronto para o voo e com um olhar sereno lançado para um horizonte mais vasto do que a miséria do poder do mais forte. Ou, melhor ainda, já que sua motivação foi profundamente cristã: como a figura joanina de Cristo sereno em oferecimento de si na cruz transformada de suplício sob o poder mundano em trono de redenção. A cruz de São Sepé interpreta bem a dolorosa, perseverante e resistente memória popular do povo guarani vencido e disseminado na população gaúcha, de alguma forma identificada com seu santo patrono, São Sepé. Gloria Victis: reconhecimento já secular da cruz de Cristo, cujo sangue derramado sob a aliança de poderes em solo gaúcho tem se revelado um caminho de Páscoa, um risus paschalis do povo originário que é a raiz principal do verdadeiro gaúcho para quem decide conhecer sem preconceitos a história mais que milenar desta região do mundo.

A memória de santidade de José, seu nome cristão de batismo conservada no epíteto Sepé, está também tipificada em seu nome guarani “Tiaraju”, um autêntico nome bíblico-guaraní, com sentido pascal, nome que se tornou origem de uma narrativa hagiográfica ao estilo “edificante” como as legendas medievais de Santo Antônio e São Francisco ou da mais famosa Legenda Aurea. O nome Tiaraju diz exatamente, em língua guarani, “facho de luz”. Segundo o poema do mais ilustre dos contadores de histórias populares, Simões Lopes Neto, é “o lunar de sua testa (que) tomou no céu posição!”. De tal forma que quem olha para o Cruzeiro do Sul nas noites abertas do RS vê ali seu altar irradiando desde o céu o que ele foi na terra: a vigilância, o juízo e a decisão, a luz de proteção do “corregedor” do RS – o prefeito, juiz e presidente do cabildo da maior das cidades de então. Como as demais cidades, cobiçada, caluniada e mal vista ao mesmo tempo por dois impérios, cidade guarani-cristã já há diversas gerações. “Facho de luz”, em uma narrativa pascal como as que se encontram nos textos evangélicos, ele foi estabelecido anjo da guarda de um povo inspirado em seu próprio patrono celeste, São Miguel, e que por isso contava com Deus: A referência de sua missão até a luta trágica foi Deus e seu Arcanjo Miguel, que deram essas terras ao seu povo. Por isso só eles – Deus e seu Arcanjo - poderiam deserdar os filhos desta terra. Esta afirmação conservada na memória narrativa revela a convicção e a motivação que consumou sua missão e sua “caridade política” (EG 205).

A partida de São Sepé liderando seus companheiros para a defesa da vida do povo dessas cidades tem algo da partida de Jesus para Jerusalém à frente de seus discípulos, ao encontro inevitável de um embate de deuses: o Deus do Reino do direito e da justiça em confronto com um deus do poder vampiro e sacrificador sob o manto do sagrado. Seu nome ligado ao “facho de luz” de sua testa que, “enquanto seu corpo cai na terra, sobe aos céus e toma posição” (Simões Lopes Neto), é luz brilhante e orientadora: tem um claro recurso à narrativa pascal, semelhante ao recurso com que os evangelistas contam as aparições brilhantes de Jesus. É, portanto, a narrativa da paixão, morte e ressurreição de um cristão guaraní, proto-gaúcho, mártir ao lado dos três jesuítas mártires em meio aos mal-entendidos e injustiças da história, gaúcho diante do qual todo gaúcho está em dívida. Ele agora continua vigilante e protetor do povo que vive desguaritado pelos poderes da sociedade, santo do povo sem importância e invisível aos olhos das classes bem sucedidas. É o santo protetor da “opção preferencial pelos pobres” na história desta terra.

A memória dos sete povos missioneiros encontra-se de forma dolorosa e trágica como um paraíso perdido na visão sombria de Érico Verissimo, em sua trilogia O tempo e o vento, na figura originária de Pedro Missioneiro, que carrega na dispersão da catástrofe um crucifixo quebrado e um punhal, queda original e expulsão do paraíso no destino paradoxal do Rio Grande do Sul, no qual o crucifixo se mantém discreto sob o cuidado da linhagem de mulheres de geração em geração enquanto os homens manejam o punhal, depois a arma de pólvora e o revólver num Rio Grande belicoso de identidade inquieta.

Nessa recuperação de memória e dignidade originária, resistente, escondida e envergonhada pela cultura dominante, voltando a Simões Lopes Neto, na mais bela narrativa gaúcha - o “Negrinho do Pastoreio” - ele evoca em uma frase, numa preciosa interpolação da memória, o juiz da carreira de cancha reta em que começam as desgraças do negrinho representante de toda uma população escrava sob o peso das charqueadas: o juiz que sentencia honestamente, ainda que ele mesmo esteja entre os perdedores da aposta, “era um velho do tempo da guerra de Sepé Tiaraju, era um juiz macanudo, que já tinha visto muito mundo” (sic, no original). É assim, pelos rastros da cultura popular, das denominações, da literatura de fundo oral, que o povo reconhece o “rastro das almas” (Coelho Neto), e sabe por uma conatural empatia a respeito da santidade e do valor de pessoas que se tornaram seus reais heróis, sem o triunfalismo da história dos vencedores: gloria victis, ainda que nas catacumbas. Por isso o povo simples do RS já o tem como santo, com seus cânones infalíveis e seus critérios de santidade e de martírio. São Sepé combateu pela vida do povo e deu a sua própria vida por isso, que não pode ser em vão, porque é de Deus, igual a Jesus. E, com lógica pascal, oposta à lógica do mundo e por isso escândalo e pedra de tropeço tornada pedra angular, testemunha que o impossível dos homens é possível de Deus: Quem como Deus? Ele combateu o bom combate.

São Sepé, como já foi mencionado, tem elementos lendários como Santo Antônio, São Francisco, Santa Joana D’Arc, São Sebastião, ou mesmo a Virgem Maria em alguns de seus títulos mais belos. Mas isso, ao invés de depor contra sua história ou criar dificuldades, se torna um rastro de busca de interpretação da pessoa de carne e osso que lhe está na origem. A narrativa simbólica exige uma cuidadosa hermenêutica, a mesma que se aplica aos anjos cantando na noite de Belém, a Jesus andando sobre as águas, ao aparecimento de Jesus ressuscitado no cenáculo e no caminho da Galileia: ele é um critério canônico de interpretação da linguagem simbólica que diz mais do que a mera historiografia, linguagem da memória que produz sempre de novo a história dos que não estão contemplados na história dos vencedores. Mas há mais informações históricas sobre a pessoa de Sepé Tiaraju do que do beato Juan Diego, o vidente de Guadalupe beatificado por João Paulo II, por exemplo, ou mesmo de alguns santos do santoral e do martirológio cristão. Sobre ele e sobre os acontecimentos que o envolveram até sua morte, há historiadores contemporâneos ou imediatamente posteriores que dão suas versões dos fatos.

Pode-se facilmente inferir que o incômodo mais ou menos persistente na consideração oficial de sua santidade está também na perturbação que provocam figuras proféticas: morrendo sob os interesses que continuam, também continuam, como memória, provocando o incômodo que eles provocaram em seu tempo. Um exemplo muito atual é o beato Dom Oscar Romero, assim como foi no começo da colonização da América a figura de Bartolomeu de Las Casas. Suas memórias continuam a gritar. Aqui se trata da memória do “mais belo florão das missões”, daquele momento histórico incomparável reconhecido até pelo anticlerical Voltaire como “grande triunfo da humanidade”, o melhor momento da evangelização dos povos originários das Américas, que, de resto, foi uma evangelização manchada pelo genocídio e pela escravidão, pelo extermínio cultural e espiritual, diante do qual o papa Francisco, recentemente, como já tinha feito João Paulo II, reiterou pedido de perdão por parte da Igreja.

É importante lembrar que Sepé Tiarajú foi cristão desde seu nascimento, cristão ao menos de terceira geração, com pais e avós católicos, educado com esmero desde criança pelos padres jesuítas da cidade de São Miguel, demonstrando-se apto a ser eleito, como de fato foi, e confirmado pelos padres, “corregedor” de São Miguel, o que hoje poderíamos interpretar como líder máximo, prefeito, juiz, presidente da câmara – do cabildo – e, portanto, realmente encarregado da vida de uma comunidade que abrangia alguns milhares de membros.

José Tiarajú, em sua responsabilidade máxima, sofreu com o seu povo o decreto de morte nas negociações do Tratado de Madri, de 1750. O que era uma negociação de fronteiras e benfeitorias para as grandes potências coloniais, para os guaranis, fossem eles cristãos católicos e vivendo em paz em suas cidades e em suas terras, nas terras da memória de seus antepassados, tal tratado era decreto de morte de milhares de inocentes. Somente os padres poderiam ainda cogitar que haveria alguma chance, ainda que difícil, na mudança para a outra margem do rio, ainda que soubessem, segundo Escandón, que já não havia terra “realenga” disponível do outro lado. Mas não era assim para os que só conheciam aquelas terras de seus antepassados e na qual tinham todo o seu mundo, inclusive o que tinham de mais sagrado, a sepultura de seus antepassados.

Os chefes guaranis não podiam aceitar a tergiversação dos missionários, pois isso seria alta traição aos seus povos e às suas responsabilidades. É comovente ler as cartas, hoje disponíveis, dos chefes guaranis de cada cidade ao governador de Buenos Aires sobre a reação, o impacto, o pedido sensato de reconsideração, e a forma religiosa, respeitosa, insistente, com clara exposição de motivos indeclináveis, das suas cartas. E, diante da absoluta negativa, a sua firmeza com motivos bem justificados. Eles fizeram como Santo Agostinho: até que tivesse uma alma sob seu cuidado, mesmo com os riscos da invasão bárbara, o bispo devia permanecer.

Ou como o beato Oscar Romero: mesmo tendo o convite de Dom Pedro Casaldáliga para vir um tempo ao Brasil enquanto estivesse tão ameaçada a sua vida, decidiu permanecer com seu povo que sofria as arbitrariedades e mortes infligidas pela ditadura. Ou como Ir. Dorothy Stang, o anjo da Amazônia, que preferiu continuar incentivando o povo a se organizar na floresta mesmo sob a ameaça de morte por parte dos grileiros, até ser morta por seus pistoleiros abraçada à Bíblia. Assim o corregedor partiu por primeiro, quando todos os recursos estavam esgotados, para confrontar os dois exércitos que já entravam em suas terras. Tratava-se do último recurso na resistência e na proteção da vida de seus povos, já a única possibilidade em seu horizonte. Mas, segundo documentação portuguesa – e o próprio épico de Basílio da Gama, O Uraguay – o líder de São Miguel, em meio às reiteradas tentativas de negociações, apresentou-se para uma última tentativa de dissuasão em Rio Pardo, onde já se encontrava o general Gomes Freire de Andrade com o propósito de tomar as cidades guaranis, assim como tinha estado em Santa Tecla para negociar o recuo dos espanhóis. As conversações, logicamente, fracassaram.

Ao corregedor e seus companheiros das demais cidades restou o caminho da defesa em total desproporção de forças. Os diversos documentos, espanhóis, portugueses e do Pe. Henis coincidem no essencial da morte de Sepé e do massacre indígena. Escandón descreve o que se encontrou entre os 1500 guaranis abatidos pelos dois exércitos em fevereiro de 1756, na localidade de Caiboaté, estância guarani da antiga São Gabriel, da missão dos Tapes destruída pelas incursões predatórias dos paulistas: eles tinham, junto a seus corpos perfurados, imagens de crucifixos, o nome de Jesus, de Maria e dos santos inscrito em papéis, para que os santos de Deus fossem protetores contra os que vinham tornar impossível a vida de suas famílias: Gloria victis!

Esses fatos mostram em São Sepé um homem que buscou a paz e se encontrou em meio a contradições que decretaram o esmagamento de seu povo, com dois impérios coloniais normalmente em conflito agora unidos para expulsar – este é o verbo afinal utilizado - os guaranis destas suas cidades. Em nome de seu povo ele se levanta utilizando a autoridade moral e religiosa que lhe foi ensinada, com a consciência de que aquelas terras eram o espaço de vida dado pelos antepassados, por Deus e por seus santos patronos, cujo dever de consciência era defender, ainda que isso implicasse a morte. Por isso pode ser realmente comparado a Santa Joana D’Arc e São Luís IX, rei da França. Com alguma vantagem e maior clareza do que os dois grandes santos da identidade católica francesa por ser mais clara e com menos ambiguidades a sua missão, as suas possibilidades e as suas intenções ou os efeitos colaterais mortais das suas ações na dolorosa decisão do mal menor.

Mas o principal incômodo durante os séculos que se seguiram não se deve ao fato de ser um líder de uma guerra ou de uma cruzada, como foram os santos franceses, pois facilmente se enquadra no que a encíclica Populorum Progressio chama de ofensa grave aos direitos fundamentais da dignidade da pessoa e do bem comum que justifica uma insurreição justa (Cf. PP 31 ). O incômodo foi outro: o triunfo da historiografia oficial e a repressão das origens indígenas e da contribuição africana na formação do Rio Grande do Sul, o “branqueamento” e o silenciamento a respeito da grande massa de descendentes indígenas e africanos que sobreviveram até nossos dias e jazem nas periferias da civilização hegemônica.

Portanto, o reconhecimento da santidade de São Sepé é um clamor de justiça seja a ele seja aos descendentes do povo por quem ele deu sua vida de forma extrema, com seu sangue, sob o ódio à justiça e sob o triunfo do poder injusto e sanguinário. Trata-se de um gesto de oferta de redenção aos próprios causadores e de todos os que vivemos nesta terra que ainda maldiz Caim por causa do sangue de Abel derramado nela, maldição que se perpetua através da turbulência da identidade gaúcha fragmentada e conflituosa. Trata-se também de um gesto de justiça, ainda que tardia, aos descendentes dos povos originários que até hoje jazem espoliados por nós outros que aqui moramos com má consciência todos esses séculos, reprimindo a verdade da nossa história rio-grandense. Como Igreja Católica, trata-se de reconhecer que eles foram católicos antes de nós nesta terra, e que foi um santo católico aquele que deu sua vida por seus irmãos, cumprindo assim o maior mandamento no seguimento de Jesus até a cruz. Por isso, também, trata-se de reconhecer um verdadeiro “mártir” propter odium jusititiae como foi o próprio Jesus.

De fato, Jesus só indiretamente foi mártir por causa da sua fé, ou seja, por causa da forma como ele testemunhava Deus. Diretamente, foi mártir porque foi executado sob os poderes do seu tempo por causa de sua ação pela justiça do Reino de Deus, por suas opções e suas confrontações. Como Jesus não podia trair sua missão e voltar atrás em Jerusalém, São Sepé não podia trair a sua condição de corregedor e por isso administrador, juiz e defensor político de seu povo em todas as circunstancias, algo que também São Luís ou Santa Joana D’Arc, como já disse, ao se encontrarem em meio a contradições e violência incontornável. E, no entanto, mais transparente do que na complexa ambiguidade em que aconteceram as cruzadas numa das quais morreu o santo que deu fisionomia ao catolicismo francês medieval ou sob os interesses políticos de França e Inglaterra, com os bispos divididos e alcançados pela corrupção de então, no caso de Joana D’Arc. A “caridade política” – expressão que vem acompanhando o ensinamento dos papas desde Paulo VI - se radicalizou em Sepé Tiaraju na exposição de sua vida como máxima figura das missões. Os Estados Unidos, com menos do que isso, tem sua santa indígena e seu santo missioneiro. Aqui há um mártir.

Para a Igreja Católica o processo de reconhecimento de virtudes heroicas e santidade de São Sepé, José - o Tiaraju, certamente será ocasião de uma nova evangelização, de certo modo mais autêntica por recuperar aspectos que ainda clamam por justiça, pois se trata de segmentos populares indefinidos mas reais e presentes em grandes maiorias, com faces e nomes, que andam em ônibus de periferias, fazem mil trabalhos e serviços subalternos ou – os que ficaram fora - ainda jazem à beira de estradas, eles que, naquele paraíso perdido, na república missioneira, podiam fazer seus trabalhos comunitários, no Tupãbaê, cantando, segundo cartas da época. Na cultura e no biótipo gaúcho, além do negro afrodescendente está em grande abundância miscigenado o descendente do indígena originário – é algo tão óbvio no cotidiano social que, exatamente por isso e por mecanismos vários de defesa, não se toma a devida consciência. Em termos religiosos, esse descendente inumerável não consegue se identificar com a Igreja Católica nem açoriana e nem romanizada das culturas de migração europeia, por razões culturais e até afetivas óbvias. O lugar que atualmente mais lhe acaba correspondendo parece ser o das pequenas comunidades pentecostais, quando, na verdade, nas origens estava já sob o cuidado evangelizador da Igreja Católica e contava com gerações de católicos em cidades pujantes para o período. Em que erramos? Em que continuamos errando? Em que queremos continuar a errar ou afinal acertar?

Seremos capazes realmente de uma honesta e coerente “evangélica opção preferencial pelos pobres”? Essas perguntas vão diretamente ao nosso santo, Sepé Tiarajú: o reconhecimento de sua santidade – servo de Deus e servo do povo de Deus de então – podem ser o recomeço, a nova e justa evangelização em relação à multidão de gaúchos de descendência indígena que permaneceram calados e envergonhados, desidentificados de nossa Igreja que os ignorou e deve-lhes justiça e oportunidade de voltar à alegria do evangelho e da comunidade eclesial com seus rostos, sentimentos e cultura. Não é suficiente, como advertiu o descendente missioneiro Pedro Ortaça, cuidar dos monumentos como fonte de turismo e de memória, embora o turismo religioso seja hoje uma ocasião preciosa de evangelização. É que há descendentes do povo de São Sepé clamando reconhecimento, estima e pão. Os 260 anos da morte de Sepé Tiarajú podem ser uma oportunidade de recomeço, de conversão, de nova evangelização.

E pode ter como eixo estimulante o interesse pelo processo de reconhecimento de um grande cristão que deu sua vida por seus irmãos nas origens do Rio Grande do Sul, sob o embate de dois impérios unidos contra o povo originário, líder cristão e sinceramente católico, dizimado e calado pelos canhões de reinos equivocadamente cristãos e católicos. Dele poderemos ganhar um passo importante de redenção da unidade na diversidade superando as exasperações dos confrontos que nos tornam continuamente duais e conflituosos, e absolvidos pela vítima, poderemos ainda nos orgulhar se fizermos agora o nosso dever, se retirarmos os equívocos e injustiças, redimindo assim os nossos próprios antepassados. Reconhecer a santidade não acrescenta nada ao santo, mas se torna um grande benefício à fraternidade universal na comunhão dos santos para a qual Jesus derrubou toda fronteira de raça, língua, nação, etc.

Além disso, desde a primeira Romaria da Terra, justamente na data da morte de Sepé Tiarajú e na terra de sua Páscoa, em São Gabriel, e que teve a participação ativa de dois grandes bispos-profetas – Dom Tomás Balduíno e Dom Pedro Casaldáliga - a memória de São Sepé, o Tiarajú, não cessou de infundir uma mística típica de Reino de Deus para o movimento social, popular e religioso ao mesmo tempo. Revela-se um potencial enorme de agregação de energias de fé e esperança em busca de uma vida justa segundo os desígnios divinos para o povo de nossa região, a começar pelos mais “pequeninos”, como convém.”

Por isso, Propomos a Postulação do processo de reconhecimento de santidade através do título de “Servo de Deus” por parte da Diocese que atualmente corresponde à região das cidades de São Miguel das Missões e de quase todas as demais cidades missioneiras que sofreram o horror da guerra dos impérios contra elas, a diocese de Santo Ângelo, com seu bispo e seu povo cristão de hoje. Propomos que o pedido seja dirigido ao bispo de Santo Ângelo para que possa pedir o nihil obstat (nada contra) à Congregação para a Causa dos Santos em Roma e possa constituir a comissão adequada para receber e examinar a documentação disponível, os testemunhos da tradição a seu respeito e apreciações teológicas, além da nomeação de postulador em nível de diocese, segundo o que julgar mais conveniente conforme as normas da Igreja.

O documento postulação vai assinado por:
- Frei Susin
- Irmão Cechin
- Pe. Alex
- José Roberto
- Pe. Jesuíta Antonio Betancor

Lista dos apoios:
1) Bispo Mario Medina da Diocese de Misiones - Paraguay
2) Dom Pedro Casaldáliga - Prelazia de São Félix do Araguaia - MT.
3) Conselho Indigenista Missionário.
4) Deputados Estaduais do PT-RS
5) Júlio César Vázquez - Nación Misioneira - AR.
6) Padres da Missa Gaúcha e Padres do Conselho Regional de Presbíteros.
7) Olívio Dutra - Governador RS (1999-2002)
8) AMM - Associação dos Municípios das Missões (26 municípios)
9) Prefeitura Municipal de Giruá
10) Câmara Municipal de Vereadores de Santa Maria.
11) Prefeitura Municipal de São Luiz Gonzaga e comunidade.
12) Prefeitura Municipal de São Miguel das Missões.
13) Câmara Municipal de São Miguel das Missões.
14) Prefeitura Municipal de São Gabriel.
15) Câmara Municipal de Vereadores de São Gabriel
16) Alcy Cheuiche
17) Grupo da Bicicletada Caminho de São Sepé Tiaraju.
18) Luiz Fernando Taborda - carta de 2003.
19) Indígena Guarani - Padre Juan Lino Flores - PY.
20) Victor Miguel Zuriga - Artista Plástico - Argentina.
21) Prefeitura Municipal de Canoas.

Notas:
1- Veja-se a interpretação que lhe confere o hino da cidade:

Esta terra tem o ouro que encanta
E ufana a cobiça do estradeiro
Se maior é a relíquia deste povo
Que segura sempre o passo forasteiro
Bem pertinho, do coração
Do Rio Grande, vivo em ti
Amado São Sepé
Recebi no calor de teu abraço
Tanto afeto pra viver de amor e fé.
Lá na bica correm gotas de saudade,
Que beijando esta terra mais querida
Mas quem bebe um só gole de verdade,
Ganha o berço que o ama toda vida.
Tua alma é Praça das Mercês,
Tua gente luta sempre com entono
Corre ainda de São Sepé o sangue bravo
Pra dizer que esta terra já tem dono!

2- Há, por exemplo, o precioso relato histórico do jesuíta Pe. Tadeo Xavier Henis, contemporâneo que acompanhou de perto os dolorosos fatos da derrota das missões, texto em español: Diario Historico de la Rebelion y Guerra de los Pueblos Guaranis, situados en la Costa Oriental del Rio Uruguay, del año de 1754. É uma versão ao espanhol, de 1836, do texto latino: Version castellana de la obra escrita en latin por el P. Tadeo Xavier Henis, muito ilustrativa para reconhecer a seriedade historiográfica dos acontecimentos que envolveram Tiarajú. É o caso, também, do jesuíta contemporâneo, secretário da província do Paraguai, Juan de Escandón, em sua monumental História da transmigração dos sete povos orientais (São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas, 1983). O livro é interessante porque, como apologia dos jesuítas ameaçados pelos poderes políticos, Escandón trata os guaranis como “terceiros” na relação entre os jesuítas e os políticos, tanto portugueses como espanhóis. Desta forma fica clara a sua imparcialidade por seu desinteresse em termos apologéticos em relação aos índios, o que dá mais autoridade às informações positivas a seu respeito, incluindo especificamente Sepé Tiarajú; do lado português há Basílio da Gama: contamos com seu poema épico O Uraguay, que também, por ter uma leitura portuguesa, dá mais autoridade às informações positivas a respeito de Sepé Tiarajú e sua causa. 

3- Na verdade, a tomada das missões foi mais grave do que as invasões bárbaras no norte da África: Genserico e os vândalos já eram cristãos, embora arianos, ao chegarem ao norte da África, e o que se deu foi um embate com o modo do império romano governar a região, o que explica porque o povo de servos da região se sentiu mais confortável com a “paz vândala” do que com a “paz romana”. Mas a versão triunfante, passado o século de ouro do reino vândalo, foi a versão romana. Aqui, ao contrário, o povo guarani cristão era diretamente ameaçado e, afinal, derrotado pelos interesses dos dois impérios coloniais, que deram depois as suas versões. (Cf. para o acontecimento que envolveu Agostinho: GOURDIN Henri, Genseric, soleil barbare. Paris: Méditerranée, 1999).

4- Os documentos podem ser lidos facilmente em: OLIVEIRA José Roberto de, Pedido de perdão ao triunfo da humanidade. A importância dos 160 anos das Missões Jesuítico-Guarani. Porto Alegre: Martins livreiro, 2011 (2ª edição), p.125-147.

5- ESCANDÓN, Opus cit, p. 307ss.

6- Cf. SOBRINO Jon, Los mártires jesuánicos em el tercer mundo. In: Revista latino-americana de teologia. Nº 48, sep-dic. 1999, p237-255.

7- Trata-se de Catarina Tekakwitha, uma indígena “pele-vermelha” que viveu no século XVII, e agora Junípero Serra, missionário nas reduções da Califórnia. Não faltaram questões polêmicas em ambos os casos, como o de Juan Diego de Guadalupe.

8- Veja-se o que o payeador missioneiro canta:

Sou o que os historiadores
Procuram lá nas ruínas
Mas não sabem os doutores
Que esta saga não termina
Que ainda restam descendentes
Da terra dos sete santos
E o passado está presente
Em tudo aquilo que canto
Não sabem que a esses escombros
Ainda sirvo de escora
E que carrego no ombros
Trezentos anos de história
Podem pensar que sou louco
Mas eu comprovo na estampa
O que hoje somos poucos
Os fósseis vivos da pampa
Sou filho dos sete povos
Tenho sangue de Sepé
E tudo que digo eu provo
Com juramento de fé
O meu legado é tanto
Nem carece explicações
E até no canto que canto
Ecoa a voz das missões
Guarany fui batizado
E ahora pago minhas penas
Sob o símbolo sagrado
Da velha Cruz De Lorena
Porém não sabe que nada
A história do vencedor
Que a lança fez-se guitarra
E o guerreiro payador
Pra manter viva a memória
As pedras ganharam nome
E transformaram em história
O que resta desses homens
Pois mais vale a carcaça
De um templo quase no chão
Que os descendentes da raça
Que vagam changueando pão.

9- São Sepé é representado pela iconografia gaúcha como um bravo guerreiro a cavalo, assim como o Negrinho do Pastoreio. São representações paradoxais, que indicam mais uma vez a percepção pascal e a glorificação da vítima. O Negrinho, segundo a crença redentora do povo negro escravizado no RS, é o que reúne aquilo que foi perdido porque sofreu na sua pele negra e inocente por isso. São Sepé, além de poder ser o padroeiro dos prefeitos, como de fato já é evocado, representa bem a coragem que, segundo a interpretação rigorosa de Santo Tomás de Aquino, se comprova não só como virtude mas como dom do Espírito Santo quando é exercida em situações extremas que comportam a morte: a coragem de morrer por uma causa justa ultrapassa a capacidade da virtude humana, só pode ser dom e sinal de Deus. Santo Tomás exemplifica não só com o caso do martírio, mas, para compreender melhor do que se trata, com a batalha em que se é mais corajoso não quando se está avançando em terreno inimigo, mas quando se deve suportar e combater o inimigo na invasão do próprio terreno, pois o inimigo que agride pode cessar enquanto o que defende deve manter sem decisão própria a continuidade de sua fortaleza – justamente o caso de São Sepé e de seus companheiros! Cf. Summa Theologica II, II q.123, a.6.

10- A título de exemplo, já referido: Diario Historico de la Rebelion Y Guerra de los Pueblos Guaranis, situados en la Costa Oriental del Rio Uruguay, del año de 1754. Version castellana de Pedro De Angelis, de la obra escrita en latin por el P. Tadeo Xavier Henis, de la Compañia de Jesus. 1836 (p.87): (…) llegó corriendo a los españoles, que estaban emboscados detrás de las cabeceras llenas de bosque del Rio Vacacay, y esto, acometiendo con un numeroso escuadrón al sobredicho capitán, y á pocos de los suyos, como por defecto del caballo cayese en una fosa que habían hecho los toros, le rodearon ó cercaron, y también á algunos indios que iban corriendo al socorro del capitán; á quien primero con una lanza, y después con una pistola, mataron. Y habiéndole muerto, sus súbditos, aunque cercados, rompieron á fuerza los escuadrones del enemigo, y se pusieron en salvo, quedando muerto uno, si no me engaño, y otro herido: arrojaron el cuerpo ya despojado de todo, y como algunos dicen, lo quemaron con pólvora, mientras aun estaba espirando, y lo martirizaron de otras maneras. Enterraron (con los sagrados cánticos y himnos que se acostumbran en la iglesia, pero sin sacerdote) el cuerpo de su buen, pero muy arrojado capitán, en una vecina selva, habiéndole buscado de noche los suyos con gran dolor, a la medida del amor que le tenían (…). Fue de admirar cuanto cayeron de ánimo los indios con la muerte tan intempestiva de su capitán, en cuyo valor, prudencia y arte, tenían puesta toda su esperanza.
Cf. também: CASTRO, Evaristo Afonso de, O Gigante Missioneiro - Poemeto Histórico e Geográfico, Rio de Janeiro, 1902.  Em sua nota explicativa de número 17 (p. 96) diz: "José Sepé, general em chefe do exército Missioneiro, Cacique de grande fama, real prestígio e merecimento; foi fundador da Vila de São Sepé, e julgado Santo invencível pelos seus". (ênfase nossa, provando a constância da percepção de que se trata de um santo). O livro foi premiado com a 'Medalha de Ouro' na exposição do Rio de Janeiro em 1908. Etc.

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

“Santo, ainda que tarde!” - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV