Chaouqui se vê como mártir da reforma no caso Vatileaks 2.0

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07 Janeiro 2016

Cedo ou tarde, ao que parece, toda boa causa no catolicismo acaba tendo o seu mártir.

São Tomás More, por exemplo, é lembrado por sua lealdade ao papa quando a Inglaterra se separou de Roma no século XVI e, mais recentemente, o Beato Oscar Romero, de El Salvador, se tornou o santo padroeiro dos defensores dos pobres.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 05-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Hoje, Francesca Immacolata Chaouqui, 34, mulher presente no centro de um processo judicial no Vaticano em decorrência do vazamento de documentos sigilosos, está se voluntariando para o papel de mártir para o mui aguardado projeto do Papa Francisco de reformar as finanças da Igreja.

Nesse caso, “martírio” não significa morte, mas sim aceitar uma sentença de prisão – teoricamente, nada menos do que oito anos, mas mais provavelmente algo em torno de dois ou três anos – por supostamente ter vazado documentos do Vaticano, apesar de ela vir afirmando veementemente o contrário.

Segundo Chaouqui, somente o espetáculo de mandar uma mulher inocente para a cadeia, forçando-a a dar, por detrás das grades, à luz a criança que ela está esperando, pode abalar as consciências da velha guarda vaticana. Ela espera ser condenada e afirma que sob nenhuma circunstância ela irá pedir, ou aceitar, um perdão papal.

“Creio que quando alguém no Vaticano perceber que eles têm a responsabilidade pelo que estão fazendo, daí então talvez poderão se sentir obrigados a fazer uma limpeza local e a colocar sob julgamento as pessoas que, de fato, roubam... aquelas pessoas que são culpadas de crimes financeiros extremamente graves”, declarou ao Crux na segunda-feira (4 de jan.) em entrevista.

Pode-se considerar esta sua postura como sendo nobre, de autoengrandecimento, delirante, ou qualquer outra coisa, mas o difícil é questionar a determinação de Chaouqui. Durante a entrevista concedida, ela rompeu em lágrimas ao descrever o dia em que teria de explicar ao seu filho por que ele nasceu e foi batizado na prisão.

Para constar: ela disse que planeja chamar o seu filho de “Pedro” em homenagem ao papa.

Visto de longe, pode parecer estranho que Chaouqui, cuja mãe é italiana e o pai, descendente de marroquinos, pode combinar uma visão tão sombria com uma tal lealdade ao homem que governa o mesmo lugar. Isso é a Itália, na verdade, onde a distinção entre o papa e o seu tribunal, que geralmente admira o primeiro e arruína o segundo, é o normal.

Quanto ao julgamento, Chaouqui acha que, daqui em diante, tudo o que vier acontecer é apenas de fachada, porque o verdadeiro objetivo já foi alcançado. Ela sempre foi um alvo, segundo disse, pois o ponto de vista renovado de uma pessoa leiga que ela representava enquanto servia na comissão encomendada por Francisco em 2013, grupo independente dos sistema tradicionais de clientelismo do Vaticano, constituía uma ameaça ao poder vigente.

“Eles já venceram”, diz ela, referindo-se à burocracia vaticana, em particular a Secretaria de Estado.

“É óbvio que [independentemente do que venha a acontecer] eu não posso mais ter nenhuma responsabilidade na Cúria nem desfrutar da proximidade junto ao Santo Padre, algo que eu tinha antes”, declarou. “Todas as portas se fecharam”.

“Para sermos apreciados no Vaticano, é preciso beijar vinte pares de chinelos antes de se chegar ao papa”, afirma na entrevista ao Crux. “Eu nunca fiz isso”.

Embora existam muitas incertezas em torno do caso apelidado de “Vatileaks 2.0” pela imprensa italiana, uma coisa que nunca se duvidou é que Chaouqui é a personalidade mais marcante a ser notada.

Ela primeiro apareceu diante do público em 2013, logo após a eleição de Francisco, quando fora nomeada membro de uma comissão papal de estudos conhecida pela sigla italiana COSEA, que iria centrar-se nas finanças vaticanas e apresentar uma base para uma reforma futura.

Na época trabalhando como especialista em relações públicas para a filial italiana da empresa de consultoria Ernst & Young, Chaouqui foi trazida à cena para assessorar as operações de comunicação do Vaticano. Os jornalistas ficaram intrigados com a ideia de uma leiga atraente em seus 30 anos ocupando um cargo tão influente em um ambiente, em geral, dominado por homens mais velhos, o que fez eles escavarem o seu histórico.

Rapidamente descobriram que a sua conta no Twitter continha várias mensagens críticas do então secretário de Estado do Vaticano, o cardeal italiano Tarcisio Bertone, e outros tantos favoráveis a um jornalista italiano, Gianluigi Nuzzi, quem havia publicado um livro com base em documentos furtados do Papa Bento XVI pelo seu ex-mordomo. (Este foi o “Vatileaks” original, de 2012).

Os jornalistas igualmente encontraram algumas imagens picantes de Chaouqui com o seu marido postadas online, o que levou a revista italiana Panorama a chamá-la de a “símbolo sexual que embaraça o Vaticano”. Desde então, ela se tornou uma sensação midiática.

Avancemos para o mês de novembro de 2015, quando dois livros explosivos apareceram baseados, em parte, em documentos vazados da COSEA. Os livros detalharam milhões de euros em receitas perdidas com aluguéis de algumas propriedades do Vaticano a preços abaixo do mercado, com a falta de livros de registro das lojas vaticanas isentas de impostos, além de relatar que quantias de dinheiro estavam sendo usadas para influenciar causas de santidade e que cardeais estavam vivendo em apartamentos luxuosos.

O próprio Vaticano iniciou uma investigação, que rapidamente acabou chegando a três pessoas ligadas àquela comissão: Chaouqui, o monsenhor espanhol Lucio Ángel Vallejo Balda (secretário do COSEA) e Nicola Maio, leigo italiano que trabalhava como auxiliar de Vallejo.

Os três foram acusados de serem quem vazou os documentos.

Os jornalistas que publicaram os livros, Nuzzi e Emiliano Fittipaldi, foram também acusados de supostamente empregar meios inconvenientes para obter as informações.

Inicialmente, as autoridades vaticanas esperavam que o julgamento acabasse em pouco tempo, antes de o Ano Santo da Misericórdia do papa começar, em 8 de dezembro. Após uma série de pedidos de análises periciais e de testemunhas por parte dos advogados de defesa, no entanto, o julgamento diante de um painel composto por três juízes foi suspenso, e agora espera-se ele que retorne em algum momento no final de fevereiro ou março.

Durante este tempo, Chaouqui se tornou um ímã para rumores na imprensa. A certa altura, o monsenhor Vallejo Balda teria dito a seus advogados que ela o havia seduzido em uma sala de hotel em Florença – afirmação que Chaouqui nega como sendo “delírios de um louco”, o que ela já repetiu várias vezes e que confirmou ao Crux.

Ao mesmo tempo, Chaouqui tem disparado contra o seu ex-colega em uma torrente quase diária de tuítes e postagens no Facebook, todos em sua defesa, bem como vem concedendo inúmeras entrevistas à imprensa, inclusive tendo uma coletiva de imprensa marcada para o final desta semana na região italiana da Calábria, onde nasceu.

“Vou lutar como um leão até o fim, de todas as formas, para trazer a verdade à luz”, contou ao Crux, “mas o problema é que o resultado do julgamento já foi decidido em algum momento”.

“Não estamos tendo um julgamento”, declarou. “É um jogo”.

Vendo hoje, ela crê que a sorte fora lançada desde o momento em que Francisco nomeou ela e outros membros da COSEA, ignorando os mandarins da Secretaria de Estado, guardiões tradicionais do acesso ao papa. Isso era algo que o sistema jamais iria tolerar, disse ela, e persegui-la era o caminho mais fácil de tirá-la de cena.

“Além do fato de que a nossa chegada rompeu com as regras, havia também o fato extraordinário de que, pela primeira vez, os leigos adentraram os corredores sagrados e, pela primeira vez, uma mulher como eu”, afirmou.

“É claro, há muitas mulheres no Vaticano, mas eu venho de um mundo diferente (...). Isso estava completamente fora da maneira de pensar deles”.

Chaouqui afirma que quando os magistrados do Vaticano interrogaram ela e Vallejo Balda, o monsenhor não só admitiu ter passado os documentos a Nuzzi e Fittipaldi como também concordou que Chaouqui nada tinha a ver com o caso. Consequentemente, ela está convencida de que as acusações contra a sua pessoa estão tendo motivos políticos.

“Eles estão completamente indiferentes sobre se eu sou ou não inocente”, declarou. “O meu indiciamento foi um ato político, não jurídico”.

A sua relação com Francisco, afirmou, foi também central para o desejo de fazer dela um exemplo.

“Quando estava na comissão, eu o via quase diariamente. Além do nível profissional, era uma relação verdadeira entre um sacerdote, mesmo sendo ele o papa, e uma fiel”.

No começo, segundo Chaouqui, Francisco foi servido com inúmeras provas “esmagadoras” apresentadas pelos advogados contra ela, mas agora a leiga italiana acha que ele sabe que algo não está certo.

“O Santo Padre, creio eu, está se fazendo uma pergunta importante: Será que esta vai ser uma boa imagem para a Santa Sé (...) porque agora eu estou com uma barriga pequena, mas em março, se Deus quiser, já terei uma barriga enorme (...) Será que vai ser uma boa imagem ter uma grávida por detrás das grades, especialmente uma pessoa que já recusou qualquer tipo de privilégio caso seja considerada culpada?

“Eu conheço o Papa Francisco muito bem”, disse ela, “e se existe uma coisa que eu sei com certeza é que, se ele ver os arquivos [da investigação], jamais irá consentir em me indiciar. Ele tem um incrível senso de justiça, e jamais concordaria”.

Chaouqui falou que se recusou a pedir que o seu caso fosse separado do de Vallejo Balda, em parte porque ela reconhece ter apresentado Nuzzi e Fittipaldi a ele. Segundo afirmou, com isso estava apenas tentando ajudar Balda a conhecer os jornalistas que cobrem o tema das finanças vaticanas, o que “dificilmente é um crime”, mas, em todo caso, ela se viu obrigada a “assumir a responsabilidade pelo que fiz”.

Hoje, Chaouqui está desafiando o tribunal vaticano a ou declará-la inocente ou mandá-la para cadeia.

“Se for para pegar alguém e destruir com a imagem pública dela, então o Vaticano deve ter a dignidade de fazer cumprir as suas penas”, disse. “Se eu tiver de passar por este sofrimento (...) e, então, eles simplesmente me considerarem ‘culpada porém perdoada’, ou ‘culpada com pena suspensa’, eu não vou aceitar”.

Se de fato acabar na prisão, ela confessa estar com medo: com medo da solidão e da inatividade forçada. Para superar a situação, a italiana planeja escrever um livro enquanto estiver presa; ele será sobre coragem e esperança, porque “para fazer as escolhas que fiz nesta vida, é preciso ter coragem e esperança”.

Até lá, segundo ela, estas tribulações não influenciaram em nada em sua ardente fé católica.

“Com certeza não vão ser estes juízes (...) que vão mudar a minha relação com a Igreja e com Deus”, declarou. “A Igreja é Jesus, a Igreja é vida, e ela é a coisa mais bonita que tenho”.

“Sei perfeitamente bem que se tudo isso está acontecendo, é por alguma razão”, disse Chaouqui. “Sabemos o que Maria disse ao anjo (...) ‘Faça-se em mim segundo a tua palavra’”.

“Essa é a minha resposta também”.

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