O ''símbolo sexual'' do Vaticano afirma que a reforma continua. Entrevista com Francesca Chaouqui.

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18 Junho 2014

Mudanças tendem a gerar resistência, e uma forma que muitas vezes isso acontece é através da difamação das pessoas envolvidas. Se os arquitetos dessas ações são inteligentes, eles começam com o fruto maduro, ou seja, com as pessoas que por uma razão ou outra se tornam alvos fáceis.

Em poucas palavras, essa pode ser a história de Francesca Immacolata Chaouqui (foto), sem dúvida, a segunda personalidade do Vaticano mais comentada do ano passado depois do próprio Papa Francisco.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no jornal The Boston Globe, 14-06-2014. A tradução é de Cláudia Sbardelotto.

A especialista em relações publicas da filial italiana da Ernst and Young, de 32 anos, foi indicada em julho de 2013 para fazer parte de um painel de oito membros para estudar as estruturas econômicas e administrativas do Vaticano. Ela é jovem, bem informada e franca, qualidades não tipicamente associadas com os assessores do Vaticano, o que fez de Chaouqui uma sensação instantânea, até mesmo sendo apelidada por um escritor italiano como a "lobista do papa".

Em pouco tempo, porém, ela também se tornou o objeto de fofoca e comentário público, muitas vezes, desagradável, o que ela acredita ser impulsionado por inimigos da reforma de Francisco.

Em agosto, um comentarista católico descreveu-a como uma "inimiga dentro de casa", depois que uma série de tuítes sensacionalistas supostamente enviados por Chaouqui vieram à tona, incluindo um que, erroneamente, sugeria que o Papa Bento XVI tinha leucemia, outro acusando um cardeal do Vaticano de corrupção, e um terceiro alegando que a conta de um ex-ministro das finanças italiano no banco vaticano foi afastado por ser gay (o ministro anunciou imediatamente uma ação judicial).

Entretanto, Chaouqui afirma que nunca enviou os tuítes e que eles são falsos.

Um frenesi ainda maior eclodiu quando imagens picantes de Chaouqui e de seu marido se tornaram virais na internet, levando uma importante revista italiana a publicá-las sob o título "o símbolo sexual que envergonha o Vaticano".

Chaouqui reconhece que as imagens são de sua página no Facebook, mas diz que elas tinham a ver com um presente de seu marido pelo aniversário de oito anos de casamento, e que basicamente tudo não passou de uma brincadeira.

Mais recentemente, Chaouqui esteve no centro de mais uma tempestade na mídia quando ela foi fotografada em uma recepção em um terraço do Vaticano durante a cerimônia de canonização dos Papas João XXIII e João Paulo II, um evento VIP que aparentemente custou mais de 20 mil dólares e supostamente deixou o papa soltando fogo pelas ventas.

Alguns rapidamente chegaram à conclusão de que Chaouqui foi a organizadora do evento. Ela nega, brincando que "eu não posso nem organizar minha casa" e insistindo que, embora estivesse presente, nada escandaloso aconteceu.

"O que é pecaminoso em comer um sanduíche em um terraço?", perguntou.

Filha de pai egípcio e de mãe italiana, Chaouqui é uma personalidade espirituosa, que às vezes parece cortejar a controvérsia. Antes de sua aventura no Vaticano, ela indignou a sua nativa região italiana da Calábria, sugerindo em um jornal que os homens da Calábria estão condicionados a ver a violência como normal depois que um jovem de lá queimou a sua namorada de 16 anos de idade até a morte.

Alguns membros do Vaticano nunca "compraram" a sua nomeação. Se a ideia era trazer especialistas de nível mundial, perguntaram eles, por que recorrer a alguém que é relativamente inexperiente, e cuja formação é em comunicação de negócios, em vez de algo que tenha a ver com a Igreja? Alguns também a veem como alguém mais talentoso em cultivar amizades do que em produzir resultados.

No entanto, quaisquer que sejam os pontos de interrogação legítimos, é difícil ignorar que a maioria dos ataques contra Chaouqui não têm nada a ver com o seu desempenho.

Essa comissão foi encerrada recentemente, e a maioria de seu elenco foi para um novo conselho permanente de economia criado para supervisionar as finanças do Vaticano. Chaouqui estava ciente de sua ausência no novo órgão, mas ela insiste que não é porque seus inimigos a tornaram radioativa, mas porque sua experiência já não era mais necessária.

Talvez o pano de fundo sobre a saga é esta: o Papa Francisco e sua equipe provavelmente deveriam ser mais cuidadosos com quem eles trazem a bordo, especialmente se eles forem italianos. Se há uma maneira de fazê-los parecer ruins - seja por auto-inflição ou fabricação - alguém vai descobrir.

A seguir, publicamos trechos da entrevista de 12 de junho de Chaouqui ao The Globe.

Eis a entrevista.

Qual é a verdade sobre os tuítes?

Em primeiro lugar, algumas pessoas dizem que eu tenho reclamado que o meu perfil no Twitter foi invadido, mas não há dúvida disso. O que aconteceu é que alguém recortou e colou alguns dos meus tuítes reais, usando o MS Word ou o Photoshop, e depois mudou algumas das palavras. Eles pegaram essa coleção de tuítes fabricados, converteram em um arquivo PDF e enviaram para os jornais.

A maioria desses tuítes foram totalmente inventados. Aquele sobre o cardeal Bertone é completamente falso, como aquele sobre Tremonti [ex-ministro das finanças]. Eu nunca escrevi qualquer coisa assim e nunca pensei isso. Se você considerar apenas logicamente, naquela época, eu era responsável pelas relações externas de uma grande empresa comercial, e Tremonti era o ministro da economia. Eu teria que ser muito louca, porque eles teriam me chutado para fora do escritório! A coisa toda não resiste à razão.

Outros tuítes se baseavam em coisas que eu tinha escrito, mas foram alterados para dizer outra coisa, por exemplo, para fazer com que parecesse que eu disse que Bento XVI tinha leucemia.

Você sabe exatamente quem fez isso?

Não.

Qual é a história das fotos?

Meu marido tirou as fotos. Elas foram um presente para mim, meu marido retocou-as com Photoshop, fazendo-me parecer mais glamurosa do que eu realmente sou. As fotos foram então colocadas em um álbum no Facebook, sob o título "Se fosse assim!". Além disso, as imagens são de oito anos atrás. Elas foram tiradas no momento do nosso segundo aniversário de casamento. Isso significa que elas foram colocadas no Facebook quando eu tinha 24 anos, e eu tinha a vida de uma jovem de 24 anos.

Alguns dizem que você organizou a recepção de 27 de abril em um terraço do Vaticano.

São fofocas italianas. Pelo amor de Deus, eu não tenho poder para organizar um evento no Vaticano! Eu não posso nem organizar minha casa. Eu só participei como membro da COSEA. (COSEA é a sigla em italiano para a comissão papal que estudou a reforma econômica).

Viu alguma coisa escandalosa?

Nem um pouco. Basicamente, tudo o que fizemos foi participar da missa. Em seguida, houve uma pequena recepção. Tenho certeza de que a maior parte do dinheiro foi gasto para montar a plataforma. Eu não acho que há qualquer ofensa contra a moralidade pública em participar de uma missa e, em seguida, fazer um lanche. O que exatamente é pecaminoso em comer um sanduíche em um terraço?

Você acredita que esses ataques vêm de inimigos da reforma sob o Papa Francisco?

Com certeza, isso é certo. Infelizmente para a paz de espírito desses inimigos, nós ainda estamos aqui e a reforma ainda está acontecendo.

Não poderia se dizer que no seu caso, o ataque funcionou? Você não foi chamada para o novo Conselho da Economia.

Eu não acho que isso tem alguma coisa a ver, porque a minha área de competência estava voltada para a reorganização financeira dos meios de comunicação do Vaticano. O perfil necessário para o conselho é diferente. É um órgão papal composto por especialistas em finanças e economia. Eu posso ler um balanço, mas não tenho a capacidade técnica para certificar o que está correto.

Você acha que as críticas contra você são porque você é mulher?

Eu não acho que o sexo tenha alguma coisa a ver com isso. Eu acho que poderia ter sido diferente se eu fosse francesa ou alemã, porque eu acredito que foi a minha nacionalidade que fez de mim um alvo. A imprensa italiana presta muita atenção no Vaticano, e muitas vezes estão mais interessados em especular sobre o que está acontecendo nos bastidores do que na história real. Isso é considerado mais apetitoso, mais saboroso para o público italiano. Diante de todos os problemas enfrentados pela indústria midiática hoje, pelo menos eu ajudei a vender mais alguns jornais.

Alguns dizem que a reforma financeira em andamento no Vaticano é um ponto de viragem histórica, outros que é um caso de mudar tudo para que tudo fique na mesma. Qual é a sua opinião?

Eu acho que é um ponto de mudança histórico. Em parte, isso é por causa do cardeal [George] Pell, que eu apoio totalmente (Pell é o cardeal australiano indicado pelo Papa Francisco em fevereiro para supervisionar esse novo ministério das finanças). Em parte, é por causa do peso que agora está sendo dado, realmente, pela primeira vez, para o papel dos leigos no conselho. Eu também acho que as regras vão mudar para tornar o processo mais colegial.

Você espera ter um papel futuro no Vaticano?

Estou à disposição do papa, do cardeal Pell, da Secretaria de Estado e do Vaticano em geral. Todos eles sabem que, se eu sou capaz de ajudar, tudo o que eles têm a fazer é pedir. Dito isso, eu não estou procurando um emprego no Vaticano. Minha esperança para o futuro está em outro lugar. Na verdade, meu objetivo é seguir a minha carreira fora da Itália. Eu gostaria de trabalhar nos Estados Unidos.

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O ''símbolo sexual'' do Vaticano afirma que a reforma continua. Entrevista com Francesca Chaouqui. - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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