O poder e a multidão: por que Freud permanece atual

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25 Novembro 2021

 

"O chamamento à militarização das fronteiras - como Freud já apontava em sua obra - denuncia o caráter indômito do impulso securitário que, diante da escolha entre a felicidade e a obediência, sem hesitar sacrifica a primeira à segunda", escreve Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das Universidades de Pavia e de Verona, em artigo publicado por La Repubblica, 24-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Psicologia das Massas e Análise do Eu de Freud, publicado em 1921, completa 100 anos. Nenhuma obra freudiana parece hoje tão indispensável de ler como esse texto escrito em uma Europa que caminhava para a catástrofe dos regimes totalitários (fascismo, stalinismo e nazismo) e das atrocidades da guerra.

Uma verdadeira clarividência teórica leva Freud a tratar do fanatismo de grupo, o olhar hipnótico do líder, a identificação sugestiva e acéfala com o líder, da pulsão gregária e da excitação maníaca de sentir-se em uníssono no grande corpo da massa. Sua tese principal é que a massa se constitui a partir de uma identificação vertical comum com o líder localizado na posição de Ideal do eu. A perda de pensamento crítico que essa identificação idealizante comporta é compensada pelo refúgio identitário que ela garante a seus membros.

A troca parece conveniente: obediência absoluta ao líder em troca de sua proteção. Freud, retomando de forma absolutamente original as intuições do reacionário Le Bon contidas em Psicologia das multidões (autor que Benito Mussolini considerava central em sua formação), concentra sua atenção sobre a "sede de obediência" que caracterizaria a vida de as massas. Mas, ao contrário de Le Bon, para Freud a massa não se identifica com a figura do rebanho, mas com a da horda. Daí a centralidade da figura do Duce, do Führer, do líder como encarnação do Ideal do Eu. “A natureza da massa é incompreensível se negligenciarmos o líder” - ele escreve.

Por isso o verdadeiro fundamento da identificação da massa é a "saudade do pai". O lugar vazio deixado pelo pai idealizado da infância que se oferecia como escudo protetor para a vida do filho deve ser preenchido por seus substitutos. Para Freud, é isso que define a inclinação "devota" - profundamente religiosa - da massa. A massa diviniza seu líder, eleva-o à categoria de Ideal inatingível. Por isso, sua eventual queda causa sua fragmentação. Esta é a definição clínica que Freud oferece para o pânico: há pânico quando há "desagregação da massa". Desenha-se uma relação circular entre a perda do pai e a experiência do pânico. A referência de Freud é à massa militar. É quando o vértice da massa é decapitado que "não se dá mais obediência a nenhuma ordem do superior e que cada um se preocupa apenas consigo mesmo sem levar em conta os outros".

Os laços se rompem e um medo ilimitado e irracional é desencadeado. Por isso, segundo Freud, a massa não é absolutamente revolucionária - como era teorizado naqueles mesmos anos por Lênin - mas expressa uma tendência profundamente conservadora. É uma das teses mais duras do livro: o desejo das massas não é de forma alguma subversivo, mas fascista. Mas pode existir um desejo fascista? O Desejo não é justamente o antagonista de todo sistema autoritário? O desejo não vive em nome da liberdade? Não rejeita toda forma de vínculo?

Na realidade, segundo Freud, a massa deseja ser dominada, quer o senhor com o bastão, é ávida de autoritarismo, prefere as correntes à sua liberdade. Em primeiro plano está aquela pulsão securitária que reapareceu na cena do Ocidente na última década sob o disfarce do soberanismo nacionalista que rejeita paranoicamente toda forma de diferença, especialmente aquela personificada por imigrantes vivenciados como uma ameaça à vida. A apologia do muro, que ainda hoje continua a ser evocada, reflete a inclinação fascista da pulsão que anima a massa.

Para Freud, porém, não se trata de um simples analfabetismo político ou de um bárbaro irracionalismo, mas, precisamente, de uma tendência pulsional que define o humano como tal: a defesa da própria vida termina, paradoxalmente, por contar mais do que a própria vida. Esta é a origem do paradigma imunitário formulado nos últimos anos por autores como Jacques Derrida e Roberto Esposito: a defesa extenuante da própria saúde identitária pode se inverter em seu contrário; a obstinação pela defesa da vida, em vez de conservar a vida, pode destrui-la. Mas em nosso tempo a massa não cultiva mais nenhuma paixão ideológica pelo Ideal.

O olhar obcecado do Duce ou do Führer deu lugar a um vazio de referências que provoca uma condição permanente de perplexidade. Não é por acaso que, de um ponto de vista estritamente clínico, o ataque de pânico há muito assumiu formas epidêmicas de difusão. O sobressalto soberanista tenta reunir o enxame hipermoderno em torno da exaltação da fronteira, do culto à identidade nacional, da defesa da própria terra.

Trata-se de uma resposta regressiva e efêmera que não leva em conta a conexão sistêmica que caracteriza o mundo contemporâneo. No entanto, o chamamento à militarização das fronteiras - como Freud já apontava em sua obra - denuncia o caráter indômito do impulso securitário que, diante da escolha entre a felicidade e a obediência, sem hesitar sacrifica a primeira à segunda.

 

 

 

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