Só a morte impediu Pio XI de entrar em confronto com o Duce. Artigo de Alberto Melloni

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18 Março 2014

Com a lentidão própria dos trabalhos de história, os anos de Pio XI, eleito em 1922 e falecido em fevereiro de 1939, às vésperas da guerra, são hoje mais estudados.

A análise é Alberto Melloni, historiador da Igreja, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação João XXIII de Ciências Religiosas de Bolonha. O artigo foi publicado no jornal Corriere della Sera, 03-10-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A função da história da nossa cultura mudou. Na segunda metade do século XX, ela foi o pão de cada dia das classes dominantes e das elites políticas, tanto quanto hoje é a utilização de categorias econômicas improvisadas no discurso público. Essa temporada acabou, deixando fome de história. Muitas vezes, ela é satisfeita pela força mediadora do jornalismo; com mais frequência – é o que está fazendo a série da Rai, Il tempo e la storia, de Massimo Bernardini – restituindo aos especialistas uma função diante do grande público.

Para esse público, não menos do que para as elites das décadas passadas, a história das relações entre a Itália e a Igreja teve um grande buraco negro, que coincide com o pontificado de Pio XI. Ofuscado pela diatribe entre modestos advogados e modestos acusadores de Pio XII, esmagado pela redução de Bento XV à frase sobre o "inútil massacre", Ratti começou a sair do cone de sombras com a abertura dos arquivos vaticanos sobre o seu papado, disposta em 2006.

Com a lentidão própria dos trabalhos de história, os anos de Pio XI, eleito em 1922 e falecido em fevereiro de 1939, às vésperas da guerra, são hoje mais estudados. As origens da relação com o regime foram exploradas como nunca antes por Cattolici e fascisti, de Alberto Guasco (Ed. Il Mulino), prêmio Pirovano deste ano.

A historiografia e as fontes foram objeto de dois importantes volumes de Lucia Ceci, publicados pela Laterza, Il Papa non deve parlare e L'interesse superiore. Hubert Wolf, vítima da paixão por fazer títulos sangrentos, analisou diversos momentos do pontificado rattiano no seu Il Papa e il diavolo (Ed. Donzelli). E, antes ainda, Pio XI, Hitler e Mussolini, de Emma Fattorini (Ed. Einaudi), tinha identificado no percurso espiritual de Pio XI a razão do crescente ressentimento do papa de Brianza  diante do Duce.

Agora David Kertzer, ex-reitor da Brown University, entra de sua parte nesse panorama com Il patto col diavolo, a ser lançado pela editora Rizzoli. Uma pesquisa ampla, escrita em um estilo que é o da docuficção: com verve imagética – traduzida de modo nada impecável – Kertzer enche os muitos espaços vazios que existem entre as cartas.

Ele acrescentar detalhes indispensáveis em um "roteiro" e ausentes dos documentos. E reconstrói, como em um set íntimo, a dimensão psicológica dos seus personagens. As expressões do rosto, as dores nas varizes, o estado de ânimo de um e de outro fazem uma trama de "sentimentos" sobre a qual, contudo, se desenrola a história crua: a que chega ao pacto com o diabo – mas o "filme" de Kertzer só revela nas últimas dezenas de páginas quem é o diabo e quem faz o pacto.

Antes, há um livro sobre Mussolini e Ratti, e sobre a nebulosa que os cerca: "lacaios" e "colaboradores", graças aos quais se pode compreender, segundo Kertzer, a rebelde submissão do papa diante de um interlocutor que ele detesta e do qual entende os enganos, mas do qual nunca chega a se distanciar.

Senão naquele discurso que deveria ter feito em fevereiro de 1939: um j'accuse que a morte tirou da sua mão, e que o sucessor arquivaria até o seu parcial conhecimento em 1959 e a sua análise completa por parte de Emma Fattorini quase meio século depois.

Ao seu leitor, Kertzer diz tudo o que pensa sobre a personalidade de Mussolini: capta as suas descrições das fontes diplomáticas, contabiliza as suas amantes, dá corpo a angústias e prazeres, inseridas em um catálogo de voraz vitalidade que, com rápidos versos ("surge o sol, canta o galo, Mussolini monta a cavalo"), Malaparte imputava ao arqui-italiano hiperativismo dos medíocres.

De outro lado, Kertzer explora o jardim vaticano: aquele do qual o papa de hoje diz que "não somos uma corte", e do qual, há cem anos, se afirmava o contrário. Um jardinzinho de detalhes inesperados (Ratti que pede que se envie sua pistola a Varsóvia, com os bolcheviques às portas), de sórdidos segredos de Pulcinella (como a sangrenta disputa entre o jesuíta Tacchi Venturi, douto intermediário entre o papa e o Duce, e um jovem amante seu), de lendas vaticanas (o passo "montanaro" do papa de Desio).

E aí enquadra três medos: o do comunismo, da subestimação do comunismo e de tudo aquilo (judaísmo, modernidade, liberdade) que aparece como seu preâmbulo ou fruto.

Nesse cenário, Kertzer acompanha um Pio XI que muda: mas, para ele, não o suficiente a ponto de incidir profundamente. Os sensores e corresponsáveis disso, a seu ver, são os secretários de Estado: isto é, o cardeal Gasparri – o rampolliano que se lamentará de ter sido demitido "como um cão" – e, depois, o cardeal Pacelli – o homem que o fascismo pensa que pode usar para moderar o ressentimento pontifício, como defendem muitas cartas do regime nem sempre sinceras.

Mas Kertzer (e com muitas fotos) identifica níveis menos visíveis da comitiva: como o louvável Tacchi Venturi, o geral dos jesuítas Ledóchowski, cujo papel na encíclica inexistente contra o racismo é enorme, Monsenhor Pizzardo ou o Pe. Gemelli. No fim desse percurso, está o ingresso da Igreja e do papado na afasia bélica e na incapacidade de ler uma realidade devastada pelo conflito, em cuja fumaça se mistura – e para quem a vê de longe se confunde – a do Holocausto.

O principal mérito de Kertzer não é, no entanto, escrever o fato como um pacto, mas também informar o leitor mais desinformado de tudo o que poderia ignorar: coisa indispensável para os leitores americanos do original, talvez até mesmo para os italianos que vivem hoje o paradoxal antagonismo entre história e memória.

Sobre a memória, de fato, o compromisso é forte e crescente: mas por mais que a Itália celebre o dia 27 de janeiro – recorrência estabelecida com uma lei que silenciou a palavra fascismo –, mais ela se encontra diante de uma "celebração da memória" indispensável e ambígua: e não é de se admirar que os espíritos perspicazes como o de Elena Löwenthal sintam o paradoxal contrapasso disso.

A memória, de fato, é como um vaso grande e pesado, que não pode ser apoiado no vazio de conhecimentos: e hoje, Kertzer também o mostra, ele corre o risco de ser depositado ali, em um vazio que, no fim, não tenta entender o que realmente aconteceu, mas sim o que é útil dizer sobre o que se pensa que houve.

Nesse vazio, a pesquisa italiana teve uma oportunidade e a perdeu. Pode um país como a Itália, onde a Igreja tem um peso em dar significado ou em removê-lo das instituições democráticas (com valores negociáveis ou não), onde o culto do líder se representa como pontual a cada passagem histórica, renunciar a ter conhecimento sobre onde colocar civismo e memória?

O livro de Kertzer confirma que a resposta é "não": mas, enquanto Pompeia desmorona, sentimos a desonra da indolência vaidosa de anos, a negligência da pesquisa custa ser ouvida, também por culpa dos historiadores. Mas os problemas que ela gera não são mais menores.

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