Quando Mussolini tentou impedir a eleição de Pacelli, papável “político demais”

Papa Pio XII | Foto: Editora Leya

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03 Fevereiro 2020

De um lado, Galeazzo Ciano, genro do Duce, ministro das Relações Exteriores do governo fascista. De outro, Guido Manacorda, germanista recebido e admirado por Hitler, homem de ligação com Mussolini no propósito de restabelecer as relações (desgastadas) com o Führer em 1934. Católico fervoroso, procurou, com encontros e conversas confidenciais, influenciar a Cúria Romana e, em particular, os cardeais do Sacro Colégio.

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 30-01-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

São os dois fidelíssimos do Duce que, mais do que outros, trabalharam para ele na tentativa malsucedida de fazer com que o conclave de 1939 não elegesse o cardeal Eugenio Pacelli, considerado como alguém que tendia “a uma mentalidade democrática”, um perigo para a ditadura e para as suas relações com a Alemanha.

Essa revelação, totalmente inédita, é explicitada claramente a poucas semanas da abertura dos arquivos relativos ao pontificado de Pio XII (1939-1958), o bispo de Roma conhecido também pelos silêncios mantidos sobre a Shoá e os judeus. Sobre esse silêncio, muito dirão os documentos que, por poucos dias, ainda permanecem em segredo.

Por sua vez, sobre a sua eleição, fala tudo um poderoso volume que o jornal La Repubblica pode antecipar, publicado precisamente pelo Arquivo que, até poucos meses atrás, se chamava Secreto – com um motu proprio de outubro passado, Francisco mudou o nome para Arquivo Apostólico Vaticano – graças à pena de Giovanni Coco.

Ele se intitula Il labirinto romanoe, com documentos inéditos à mão, dá a ideia daquela confusão às vezes inextricável que foram as relações Igreja-Estado sob Pio XI, seu sucessor, Pio XII, e Benito Mussolini.

Embora Coco, sem indultar em vã apologias, esclareça o sentido da suposta “inclinação democrática” de Pacelli, que era mais um fantasma que se agitava nas salas do regime, a inicial simpatia desfrutada pelo cardeal havia se consumado perto do fim do pontificado de Pio XI, de cuja última intransigência – certa ou erroneamente – o purpurado era considerado o inspirador ou cúmplice.

Escreveu-se muito sobre uma satisfação inicial de Mussolini com a eleição de Pacelli, mas não foi exatamente assim. O governo fascista se moveu para evitar a eleição ao sólio de Pedro de um papa considerado como “político demais”, enquanto se preferia um papa “apolítico”, uma solução mais suave, que permitiria que o regime, segundo Coco, “estabelecesse ex novo e de modo mais vantajoso as relações com a Santa Sé”.

Não é por acaso que o padre jesuíta Peter Gumpel, postulador da causa de beatificação de Pio XII, diz: “Um papa italiano como Pacelli inevitavelmente criaria problemas para Mussolini na sua relação com Hitler. A eleição devia ser evitada”.

A primeira tentativa de influenciar os jogos foi feita no dia 11 de fevereiro de 1939, um dia após a morte do papa Ratti. No jornal “Regime Fascista”, foi publicado um longo artigo que indicava os nomes dos supostos papáveis. O jornal fascista indicou Pacelli, Della Costa, Marmaggi e Massimi como os favoritos.

Para a Santa Sé, foi uma clara manobra para influenciar a eleição. O “Regime Fascista”, de fato, mostrava preocupação com a possível eleição de Pacelli, por estar “envolvido demais nas escolhas do seu antecessor para poder se distanciar dele”.

No dia 12 de fevereiro, Mussolini deixou Ciano livre para continuar com a ação de perturbação. No jornal “Telegrafo di Livorno”, escreveu-se que Pacelli “terá, nos primeiros escrutínios, votos muito lisonjeiros, mas que não alcançarão os dois terços necessários; e esses votos serão, mais do que qualquer outra coisa, um reconhecimento dos seus méritos e diminuirão gradativamente”. O “Telegrafo”, então, fez as suas previsões: os verdadeiros papáveis, de acordo com os documentos sugeridos por Ciano, eram “o eminentíssimo Dalla Costa e o eminentíssimo Massimi”.

Em suma, o candidato “político”, inclinado demais contra o regime, seria “superado” por um purpurado “apolítico”, “espiritual” e “mais conciliador”.

No dia 13 de fevereiro, a polícia política interceptou uma conversa telefônica de Paul Gentizon, correspondente do Temps, com o seu editor em Paris: “O governo fascista defende que, no trono de São Pedro, se sente algum Pastor angelicus, que, de mãos dadas, olhando mais para o céu do que para a terra, se preocupe com as almas e seja severo na disciplina”.

Nesse sentido, o perfil perfeito para o regime fascista era o do cardeal Massimi. “Jurista da verdadeira humildade e santidade”, dizia um informativo da polícia política. E ainda: “Um dos melhores sacerdotes do clero romano”. A sua candidatura “cairia muito bem, porque depuraria o Vaticano de todas as escórias ambrosianas, pondo fim a todas as roubalheiras que há anos se repetem no ambiente”.

Manacorda correu para Roma nos dias do conclave, girando pela Cúria Romana com o pretexto de uma colaboração com o Corriere della Sera. Ele entrava como estudioso desejoso de escrever artigos e não como “espião” do regime. Com alguns purpurados, ele foi prudente, com outros, explícito: ele disse ao cardeal Baudrillart para seguir um conselho de “modération”, ou seja, eleger o cardeal Massimi, cujo nome circulava nos ambientes da Cúria como candidatura “soutenue par Mussolini”.

Para obter apoio à candidatura de Massimi, Manacorda se dirigiu aos desiludidos do pontificado anterior, os muitos opositores que, como mostra a história atual, nunca faltam do outro lado do Rio Tibre. Ele visitou Gomá y Tomás, primaz da Espanha, que, como representante oficioso do Vaticano junto ao governo de Burgos, muitas vezes se encontrava em uma posição embaraçosa diante do general Franco. Pacelli não o ajudou como esperava. Por isso, Manacorda tentou trabalhar sobre o seu rancor.

Assim fez com outros. A sua obra de convencimento não produziu o efeito esperado. A candidatura de Mussolini – nos seus pensamentos, a alternativa de um papa religioso e agradável ao fascismo – nunca decolou.

 

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