El Salvador. “O desmantelamento da democracia por Nayib Bukele é absoluto”. Entrevista com Carlos Dada

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13 Outubro 2021

 

Era muito difícil supor que em um pequeno país da América Central, arrasado por guerras civis e pela violência das gangues, iria nascer um dos jornais de maior qualidade e influência na região. Mas isso aconteceu já há 23 anos, chama-se El Faro e em suas páginas digitais são publicadas algumas das melhores matérias da história do jornalismo na América Latina.

 

Carlos Dada é o seu fundador e, agora, novamente o seu diretor. Está há alguns meses fora de seu país e vê com assombro e raiva como o presidente Nayib Bukele, eleito com um grande apoio popular há pouco mais de dois anos, está desmontando a frágil democracia salvadorenha com base em tuítes e acontecimentos suspeitos, como a implantação do bitcoin como moeda legal.

 

A entrevista é de Gumersindo Lafuente, publicada por El Diario, 07-10-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Quem é, na verdade, Nayib Bukele?

É o atual presidente de El Salvador, um dos presidentes mais jovens da América Latina, com 40 anos e, além disso, o presidente com maior aceitação popular de toda a região. É um presidente procedente da classe alta, seu pai era um homem com recursos suficientes para manter seus filhos com altos padrões de vida e um dia decidiu entrar na política.

Foi prefeito de duas cidades, sua segunda administração foi em San Salvador, a capital de El Salvador, e se caracterizou por ser um político que se conectava com as novas gerações e, nesse sentido, rompia com o discurso dos dois partidos que governaram El Salvador desde o fim de nossa guerra, em 1992. Bukele surge como uma voz fresca que não traz mais aquele discurso de guerra fria e que se conecta com gerações que não viveram, nem se interessam pela guerra e é aí onde reside parte de seu sucesso.

E o que aconteceu nesses dois anos de presidência?

Deu-se que o jovem com ar fresco se tornou um autocrata, concentrou boa parte do poder político e público em El Salvador, violentou a Constituição, deu um golpe no poder judiciário, desmantelou toda a nossa institucionalidade democrática e trouxe de volta os militares para a nossa vida política, o que é gravíssimo, e agora persegue seus críticos a partir dessa institucionalidade do Estado que controla.

Nessa perseguição, também se inclui a imprensa.

É um de seus principais alvos. Com sua chegada ao poder, deixou o resto do sistema político salvadorenho na irrelevância, não tem oposição considerável no país, não há sociedade civil organizada e, portanto, seus críticos ou seus obstáculos para concentrar todo o poder estão, hoje, principalmente na imprensa independente, em alguma parte da academia que ainda resiste e em algumas poucas organizações da sociedade civil. Então, sim, a imprensa é uma de suas prioridades.

Bukele é muito ativo no Twitter, um pouco a imagem de Trump. É possível relacioná-lo com esse estilo de populismo?

Absolutamente. Bukele não teria conseguido avançar em sua concentração de poder, caso não tivesse existido nos Estados Unidos, que é a nossa principal esfera de influência, Donald Trump e o embaixador que enviou para El Salvador. De sua embaixada, consentiram e aplaudiram todos os atos de desmantelamento da democracia.

A agenda de Trump para a América Central não incluía democracia, nem luta anticorrupção, implicava simplesmente deter todos os migrantes e em troca disso não se preocupar como o que acontecesse em cada país. Enviou-nos um embaixador, Ronald Johnson, que basicamente tirava fotos familiares com Bukele, uma semana depois que o presidente invadiu o Congresso com soldados armados.

O estilo Trump casou muito bem com Bukele, que apesar de presidir um país pobre, fez sua campanha por meio das redes sociais. Não teve comícios políticos e, além disso, a imprensa tradicional não lhe deu espaço. Isso é um mérito a seu favor. A partir daí, descobriu que as redes eram um veículo eficaz para se comunicar com as novas gerações e os novos eleitores.

E o salto no vazio do bitcoin?

Foi sua primeira grande derrota política. As pessoas não entendem o que é isso, eu não tenho muito claro o que é o bitcoin. Tenho clareza de algumas coisas, tenho claro que o bitcoin já era utilizado por qualquer cidadão do mundo, com absoluta liberdade. Então, não compreendemos por que isso nos é imposto como uma lei. Não é que tenhamos a opção de utilizá-lo, somos obrigados a isso por lei.

Não entendemos a necessidade de introduzir uma criptomoeda de curso legal em um país onde entre 60 e 70% da população nem sequer tem conta bancária, onde a maioria das transações comerciais são feitas com dinheiro nos mercados ou nos povoados e, agora, estão sendo forçados a receber bitcoins. Não entendemos a razão dessa obrigatoriedade, o motivo para torná-la uma moeda de curso legal, ainda que tenhamos a suspeita de que existem algumas razões por trás que não têm a ver com modernizar a economia.

Por exemplo, o Governo emitiu uma conta digital, por meio da qual você administra seus bitcoins, que funciona com fundos públicos, mas não pode ser auditada e que, além disso, estranhamente pede acesso à câmera do seu telefone. Esse Governo fechou todo o acesso à informação pública, ignoramos os contratos para fazer o bitcoin, quem são os donos dos caixas que foram instalados em nossas cidades, caixas que permitem a você converter seus bitcoins em dólares e sacá-los. Ignoramos quais são as comissões, simplesmente temos que acreditar naquilo que o presidente nos diz, não existe mais acesso à informação pública em El Salvador.

Efetivamente, o bitcoin entrou na vida cotidiana dos salvadorenhos?

Ainda não, porque ainda não aprendemos a utilizá-lo e não sei se isso, em algum momento, vai acontecer. O Governo repassa 30 dólares para cada pessoa que baixar o aplicativo, isso em bitcoins. Nas últimas semanas, o que vimos foram filas de pessoas, não fazendo transações em bitcoins, mas na frente dos caixas para sacar esses 30 dólares e utilizá-los no cotidiano.

Não é que os trinta dólares sejam dados pelo presidente Bukele, foram financiados com fundos públicos. Essa é a forma que o presidente encontrou para estimular o uso do bitcoin entre uma população que não o compreendia.

É muito curioso, é exatamente o mesmo valor que Nicolás Maduro oferecia aos venezuelanos, caso baixassem o aplicativo para a sua criptomoeda, que naquele momento era o Petro e foi um fracasso. Agora, El Salvador introduziu o bitcoin, mas nós publicamos que a intenção é a criação de uma criptomoeda própria.

Em que situação está um jornal tão independente como ‘El Faro’, frente ao Governo de El Salvador?

Nós sempre vimos o jornalismo como um ofício que enfrenta o poder, não que se coloca ao lado dele, e com isso quero dizer que parte de nossa obrigação é exigir que preste contas. Nunca fomos bons amigos dos governos de meu país e tivemos a inimizade declarada de alguns, mas nenhum controlava tanto o Estado como o atual. Nunca havíamos sido submetidos a tal assédio, tal perseguição, como estamos agora com o Governo de Nayib Bukele.

As gangues, as maras, foram um dos mais graves problemas de El Salvador, nos últimos 30 anos. O que está acontecendo com as maras, durante o atual Governo?

As gangues são consideradas as principais responsáveis pelos crimes em um país que foi classificado como um dos mais violentos do mundo. O Governo de Bukele reduziu em mais de 70% a taxa de homicídios. Ele atribui isso ao sucesso de seu plano de controle territorial, no qual envolveu o Exército, espalhando-o por todo o território, mas nós documentamos que, na verdade, trata-se mais uma vez de um pacto do Governo com as gangues para que diminuam sua violência, suas guerras por territórios, em troca de benefícios carcerários e outros pontos de negociação que ainda estamos buscando. O que, sim, documentamos é que as negociações existem.

A democracia está em perigo em El Salvador?

Acredito que já passamos isso, o desmantelamento da democracia é absoluto e a divisão de poderes não existe mais. Digo a você dessa maneira, nossa democracia nasceu em 1992 com a assinatura dos acordos de paz e foi construída sobre dois pilares: manter o Exército longe da vida política, após décadas de regimes militares, e dirimir todas as nossas diferenças dentro das instituições do Estado. Bukele rompeu com isso no dia em que entrou no Congresso com soldados armados.

A partir daí, temos um Exército que responde ao presidente e não à Constituição. Desde então, Bukele desmantelou tanto toda a institucionalidade, que hoje controla todos os poderes do Estado, a Assembleia Legislativa e a Suprema Corte e de forma inconstitucional. Destituiu juízes da sala Constitucional e sem cumprir com nenhum procedimento impôs cinco novos juízes que, assim como já havia acontecido na Nicarágua em sua primeira resolução, endossaram a reeleição. O presidente controla hoje a Promotoria, a Polícia, o Exército, a Assembleia Legislativa, a Suprema Corte de Justiça e agora todo o sistema de juízes. A democracia, que é um sistema de pesos e contrapesos, não tem mais contrapesos em El Salvador.

E apesar de tudo isso, Bukele continua com um nível muito alto de aprovação popular...

Diminuiu um pouco, sobretudo com o bitcoin, mas continua sendo o presidente mais popular de toda a América Latina. Acredito que isso deveria ser um caso de estudo para todos aqueles interessados na democracia, na legitimidade do poder e em outra série de conceitos que damos como certo, quando são democracias funcionais. Devemos repensar algumas coisas.

Primeiro, para que serve a democracia em uma população empobrecida e submetida a urgências vitais como sobreviver em comunidades controladas por gangues, em comunidades onde o Estado não chega. O que é a democracia para essas pessoas? Se a democracia não foi capaz de resolver seus problemas vitais, a democracia não serve para nada. E é isso o que aconteceu em El Salvador e o que acontece na América Central.

Existe uma pesquisa que é feita no Chile, que é da Latinobarómetro, que mede a saúde da democracia em toda a América Latina. El Salvador está em último lugar. É a população que menos acredita na democracia.

Estamos vendo nos últimos meses, de modo muito singular na América Central, que muitas pessoas, sobretudo da esfera dos meios de comunicação, que precisam sair de país por sofrer prisões ou ameaças. Isso está acontecendo em El Salvador?

Primeiro, aproveito para falar do drama dos nicaraguenses. Dezenas e dezenas de jornalistas e escritores nicaraguenses se exilando, aqui está Sergio Ramírez. Acadêmicos, pensadores, empresários, aqueles que não estão presos na Nicarágua, estão fugindo porque não podem mais viver lá, correm o risco de ser presos e torturados.

Em El Salvador existe um exílio silencioso. Esse novo exílio está começando e centenas de salvadorenhos estão saindo por causas distintas da emigração normal. Isso já é um exílio político. Se você não tem mais garantias constitucionais, no momento em que o presidente se declarar seu inimigo, tirará toda a institucionalidade do Estado contra você e não contará com nenhuma defesa possível, nenhuma. Não poderá mais confiar na justiça, nem apelar de uma sentença que considere equivocada. Não terá mais defesa alguma e acabará também em uma prisão controlada pelo presidente Bukele.

Com a presidência de Biden, mudará alguma coisa nessa situação?

Biden me lembra muito Jimmy Carter. Chegam ao poder obstinados em recuperar a autoridade moral de seu país e isso implica uma política exterior de princípios. Biden entrou dizendo que sua política exterior, particularmente para a América Central, estaria fundamentada na consolidação democrática e na luta contra a corrupção. Mas se deparam com a realidade, não interromperam um centímetro a agenda de desmantelamento da democracia de Bukele.

Na verdade, a América Central não é um tema de política exterior para os Estados Unidos. No fundo, a principal preocupação que possuem em relação à América Central são os migrantes que chegam na fronteira do México com os Estados Unidos. Isso é um problema de política interna que os leva a vencer ou perder eleições e isso determina tudo.

É um dos fatores com os quais Biden se chocou. Se não há presidentes na América Central com os quais possa sustentar um diálogo, não poderá negociar o modo como frear esses migrantes e agora se vê forçado a sustentar um diálogo com presidentes que são exatamente o oposto a esses princípios fundamentais. E depois existe um fator externo que é o que eu chamo de um rato na sala. Basta mencionar a palavra China para que nos Estados Unidos todos subam em uma cadeira e gritem. Você diz China e tudo muda, ficam muito assustados.

Bukele tem sido muito hábil. Toda vez que os Estados Unidos o repreendem ou se distanciam um pouco, aproxima-se da China. Tudo o que os Estados Unidos pediram a Bukele não foi cumprido. O desmantelamento da democracia e os escândalos de corrupção são cada vez mais dramáticos e por isso estamos no momento de maior distanciamento.

 

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