O pontificado do Papa Francisco e o magistério moral da Igreja em debate no IHU

Todd A. Salzman volta à programação do XX Simpósio Internacional IHU – A (I) Relevância Pública do Cristianismo num Mundo em Transição com palestra na próxima quinta-feira

Foto: Angie Menes | Cathopic

Por: João Vitor Santos | 16 Agosto 2021

 

Desde que a pandemia de Covid-19 rasgou a humanidade, as aceleradas transformações no mundo parecem ter chegado a um grau de incompatibilidade com as formas com que vivíamos. Nesse contexto, surge como inevitável a questão: que respostas o cristianismo pode nos dar no atual contexto? Essa é a indagação que inspira o XX Simpósio Internacional IHU – A (I)Relevância Pública do Cristianismo num Mundo em Transição, que nesta semana terá mais uma conferência. O professor Todd A. Salzman, da Creighton University, dos Estados Unidos, fala sobre o magistério moral da Igreja no contexto do pontificado do Papa Francisco: desafios e perspectivas. A atividade é totalmente online, com transmissão pelo Canal do You Tube e Página do Facebook do IHU com tradução simultânea. Através da plataforma Zoom também será possível acessar o áudio original da palestra.

 

 

 

Essa é a segunda vez neste ano que o professor Salzman volta ao IHU. Em junho, junto com Michael G. Lawler, professor emérito de Teologia na Universidade de Creighton, discutiram as implicações do Responsum, documento emitido pela Igreja, que proíbe a benção de união de pessoas LGBTGIA+.

 

 

 

Na conferência, que também gerou um artigo de ambos, publicado no Cadernos Teologia Pública (confira abaixo), seguem por um caminho que traz em evidência a pastoralidade de Francisco na acolhida a comunidades gays, o que causa ainda mais espanto essa reação da Congregação para Doutrina da Fé, que é quem concebe esse Responsum. “Esse Responsum faz várias coisas. Ele enfatiza novamente o amor incondicional de Deus por todas as pessoas, reitera o ensino da Igreja sobre a moralidade dos atos homossexuais e insiste que não abençoar as uniões do mesmo sexo não é uma forma de “discriminação injusta”, definem. Mas, para os professores, esse documento tem uma perspectiva moral distorcida, especialmente porque exorta “que Deus ‘não abençoa nem pode abençoar o pecado’, calunia gays e lésbicas que seguem as suas consciências bem-formadas e promove discriminação e mesmo violência contra estas pessoas”. Ainda assim, acreditam que há esperanças às pessoas LGBTGIA+ dentro da Igreja.

 

 

E as esperanças que os professores colocam têm conexão direta com a Conferência Episcopal Alemã que, apesar dessa orientação, promove a bênção das uniões civis do mesmo sexo e também com o documento Amoris Laetitia, do Papa Francisco. Para eles, há chaves por esses caminhos que podem abrir portas para uma acolhida mais ampla, apesar de toda a resistência. “Mudanças geralmente ocorrem por meio de tensão, conflito e, no papado do Papa Francisco, pelo diálogo sinodal. O Responsum exemplifica essa tensão. O debate público do Caminho Sinodal e o desacordo apaixonado entre bispos, padres e fiéis, bem como o desafio do Responsum por parte de muitos padres alemães que publicamente abençoaram uniões do mesmo sexo, indicam que, nas palavras de Dom Georg Bätzing, uma mudança está pendente. Palavras de esperança, certamente!”, concluem.

 

Conexão direta com a próxima palestra

 

Pela fala do professor Todd A. Salzman e pelo texto que escreveu a quatro mãos com Michael G. Lawler é possível perceber que o assunto toca diretamente a fala que deve fazer na palestra de quinta-feira. Afinal, o cristianismo do século XXI não pode renunciar à realidade das relações homoafetivas. Além disso, como o próprio professor coloca em artigo publicado no site do IHU, “Há duas populações perdidas no deserto católico, as pessoas intersexo e LGBT. Já passou da hora de a Igreja ir em busca delas e encontrá-las, para criar mais alegria no céu por tantos que estavam perdidos e foram encontrados”.

 

No entanto, essa questão de gênero é uma das perspectivas que põe em debate a relevância do ‘ser cristão’ por esses tempos. E, talvez, olhar para o pontificado de Francisco a partir dos pequenos movimentos que fez diga mais do que as próprias reações institucionais da Igreja. Afinal, quem sabe, Francisco, muito mais do que atos de gestão, está provocando essa instituição milenar a se rever diante das mudanças epocais. O próprio Salzman, em entrevista conjunta com o amigo Lawler concedida ao IHU em 2015, já observava que o pontífice provocava tanto uma nova ética moral quando social. Na época, havia expectativa de que “Francisco encoraje os fiéis a se informarem para desenvolver suas consciências, e a se empoderar para segui-las, mesmo que estas posturas vão de encontro aos ensinamentos falíveis do magistério sobre normas sexuais”.

 

Nessa mesma entrevista, os professores já vislumbravam as reações e as dificuldades para a plena efetivação dessa virada de chave que Francisco parece provocar. “Há certamente uma evolução no tom de Francisco quando se trata do ensino moral. Para que tal evolução ocorra, no entanto, Francisco precisa traduzir esta ternura e amor de uma perspectiva pastoral em mudanças substantivas no ensino doutrinal”, refletiam.

 

Assim, mesmo que se diga que a Igreja não avance em grandes mudanças dogmáticas ou reveja grandes documentos, há de se reconhecer que em plena pandemia o Papa foi o primeiro a se insurgir sobre a necessidade de viabilizar a vacinação para todos no mundo. Além disso, fez dessa mais uma trincheira para sua luta contra ‘a economia que mata’ e toda a degradação que tem causado no mundo.

 

Assista a outras conferências de Todd A. Salzman no IHU

 



 

 

 

Todd Salzman é doutor em Teologia pela Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica. Foi professor na University San Diego. Atualmente leciona na Creighton University. Foi homenageado pelas Nações Unidas e várias organizações não governamentais (ONGs), em Nova York, em 2001. Autor de diversos livros e artigos científicos, citamos The Sexual Person: Toward a Renewed Catholic Anthropology (Georgetown University Press, 2008).

 

 

Salzman (Foto: Creighton University)


XX Simpósio Internacional IHU – A (I)Relevância Pública do Cristianismo num Mundo em Transição segue até novembro

 

 

 

Toda essa discussão sobre a (I)Relevância Pública do Cristianismo num Mundo em Transição não abre com a conferência de Salzman. Pelo contrário, é um debate que vem pautando o IHU há bastante tempo. Mas, neste ano, dentro do XX Simpósio Internacional, as reflexões a partir das conferências vêm ocorrendo desde 4 de junho, quando Armando Matteo, da Pontifícia Università Urbaniana de Roma, falou sobre uma espécie de mal-estar pós-moderno do cristianismo.

 

 

 

Assista às demais conferências do XX Simpósio Internacional

 

Secularização e o papel do cristianismo hoje. Desafios e perspectivas, com Charles Taylor

 

 


O declínio do cristianismo: possibilidade de um novo começo para a fé cristã?, com Francesco Consentino

 


XX Simpósio Internacional IHU – A (I)Relevância Pública do Cristianismo num Mundo em Transição terá ainda atividades até o final do ano. No dia 9 de novembro, Alec Ryrie aborda o tema da relação entre valores seculares e valores cristãos. Acesse a programação completa.

 

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