Caminhos pastorais para os homossexuais, o Papa Francisco puxa o freio

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10 Abril 2019

Vira e revira e pouco ou nada se encontra. Quanto aos homossexuais no documento é calmaria total. A atenção midiática sobre a Christus vivit do Papa Francisco, publicada na última terça-feira, concentra-se sobretudo no “sexo dom de Deus” e na natureza “apaixonada” do verdadeiro amor. Colunistas de memória curta celebram a exortação apostólica pós-sinodal sobre os jovens como se Bergoglio já não tivesse salientado várias vezes (por exemplo, na Amoris laetitia, n. 150-152) as duas passagens focais de uma doutrina sobre a afetividade que o Pontífice não se cansa de abrandar nos tons, sem atualizá-la, no entanto, nos conteúdos mais profundos. Pensemos no casamento, o único âmbito em que ainda hoje para a moralidade católica é explicável a sexualidade.

O dejavu pontifício tranquiliza os setores mais conservadores da Igreja, preocupado em colocar em risco a tradição (aquela com o t minúsculo), mas enquanto isso nos 299 parágrafos da Christus vivit não é mencionada uma das viradas mais significativas (na prática eclesial), introduzida pelo Sínodo dos bispos no vértice de outubro último dedicada às novas gerações: o convite para as dioceses para que promovam pastorais especificas para homossexuais e lésbicas (Documento final do Sínodo, n. 150).

O comentário é de Giovanni Panettiere, publicado por Quotidiano.net, 07-04-2019. A tradução é de Luisa Rabolini

Poder-se-ia objetar que estamos olhando mais para o particular do que para o geral daquela que foi rebatizada como Magna Charta para o acompanhamento espiritual e vocacional dos jovens. É possível, mas aqui não queremos diminuir nem a linguagem dialógica e direta do texto, nem as alegres indicações do Papa. A partir do estímulo para implementar uma pastoral juvenil “popular” e “flexível” (Christus vivit, n. 231), aberta inclusive a quem professa outras religiões ou experiências dúvidas em sua jornada de fé (n. 235), em síntese mais uma peça do quebra-cabeça bergogliano para uma conotação cada vez mais missionária, em saída do povo de Deus.

E nem mesmo se pretende ofuscar a salutar tomada de consciência que a moral sexual é muitas vezes “causa de incompreensão e afastamento da Igreja, quando percebida como um espaço de juízo e de condenação.” Tudo isso sem esconder o eco dado por Bergoglio ao pedido dos jovens de aprofundar questões delicadas, da diferença entre identidade masculina e feminina à reciprocidade entre homens e mulheres até a homossexualidade (n. 81).

À espera que a Igreja finalmente prepare um momento de reflexão amplo sobre esses aspectos (o caminho de um Sínodo ad hoc poderia ser o ideal), se possível, deixando de lado um certo preconceito em relação à teologia contemporânea, fica a ver navios quem contava e esperava de Bergoglio um endosso oficial para a pastoral gay-friendly.

Explicita, sem mas nem meios mas.

Veja bem, não é que o Papa esteja colocando a marcha à ré. Simplesmente não inclui a intuição dos padres sinodais, fruto da escuta e do confronto com os jovens e os agentes pastorais, antes e durante o encontro de outubro, entre as prioridades da relação entre a Igreja e os jovens. Passar disso a esbravejar sobre uma derrota da pastoral homossexual, existe uma longa distância. Por si mesma, a exortação Christus Vivit apenas retoma alguns pontos da assembleia realizada. É o próprio Bergoglio que esclarece que no documento “não poderei recolher aqui todas as contribuições, que vocês poderão ler no Documento final (do Sínodo, ndr), mas tentei incluir, na redação desta carta, as propostas que me pareceram mais significativas” (n. 4). No número 42, então, quando o papa relança o compromisso da Igreja “contra toda discriminação e violência com base sexual”, nas notas se remete justamente ao inovador parágrafo 150 do Documento. Permanece o fato que Bergoglio preferiu não apresentar o disco verde para esse específico acompanhamento espiritual. Razões de prudência evidentemente o aconselharam a deixar de lado.

Aprovado no Sínodo de outubro, com o maior número de votos contrários (65 não contra 178 a favor), o parágrafo 150 é um terreno fácil de confronto entre conservadores e progressistas. O Pontífice, à sua maneira, faz uma mediação: por um lado, distancia-se de uma posição homofóbica e concede aos ativistas homossexuais uma audiência histórica no Vaticano (que aconteceu na sexta-feira, mas na sua ausência), pelo outro, evita enfatizar inovações pastorais difíceis de serem digeridas para aqueles que enxergam no homossexual alguém que, mais do que outros, arrisca a fúria de Satanás.

A linha de Francisco sobre a homossexualidade se cristalizou na Amoris laetitia: acolhimento em nome da dignidade de cada pessoa, independentemente de sua orientação sexual; superação de qualquer discriminação, inclusive acompanhando famílias com filhos homossexuais (parágrafo 250). No documento, síntese do duplo Sínodo sobre a Família (2014-2015), nada se fala sobre a homossexualidade “objetivamente desordenada” ou sobre as relações homossexuais “intrinsecamente desordenadas”, como prescrito pelo Catecismo da Igreja Católica (n. 2357 e 2358). Bergoglio estaria tentando cancelar aquelas que para a Igreja permanecem verdades de fé?

Nada disso, ainda é o critério da prioridade pastoral que marca os passos do Papa: Bergoglio, todos sabem, prefere o aspecto humano. Aposta no encontro pessoal mais do que no mero ensinamento, na convicção de que o calor de um abraço deva ser anteposto a qualquer discussão sobre o projeto de Deus sobre cada um de nós. No fundo é o que diferencia as pastorais homossexuais, iniciadas pela primeira vez na Áustria na década de 1990 (diocese de Innsbruck) e hoje também difundidas na Itália (Turim, Bolonha, Parma, Civitavecchia, Palermo etc...). Não é concebível nenhum acolhimento e subsequente integração, se não partindo da escuta e do discernimento das vivências. A relação com os homossexuais não é exceção nem omissão. Nem mesmo por prudência. Nada se perde do Documento final do Sínodo sobre os jovens, muito ainda poderia ser retomado e enfatizado.

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