Os dados (não as armas) são a chave da nova guerra fria entre a China e os Estados Unidos

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16 Julho 2021

 

“O próximo conflito mais interessante não será entre a China e os Estados Unidos como tal, mas entre as elites empresariais das duas nações que buscam gerar grandes receitas e as elites políticas das duas nações que querem proteger seus países e, de passagem, proteger seus próprios centros de poder”, escreve Robert Reich, professor de políticas públicas na Universidade da Califórnia, em artigo publicado por El Diario, 14-07-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

Esta semana, as ações da gigante chinesa Didi, um aplicativo de transporte para solicitar viagens de carro, caíram mais de 20%. Alguns dias antes, a Didi havia ganhado mais de 3,7 bilhões de euros, em uma grande oferta pública de venda (OPV), em Nova York, que se tornou a maior OPV de uma empresa chinesa desde a estreia do Alibaba, em 2014.

A causa imediata do colapso da Didi foi um anúncio da Administração do Ciberespaço do Governo chinês manifestando suas suspeitas de que a Didi havia coletado e utilizado ilegalmente informação pessoal de seus usuários. Na falta de uma investigação, a agência ordenou que a Didi parasse de registrar novos usuários e eliminou a plataforma das lojas de aplicativos chineses.

Em um editorial na segunda-feira, o jornal Global Times – de propriedade estatal – destacou que a Didi é a empresa com “a informação mais detalhada de viagens pessoais”, entre todas as companhias tecnológicas, o que supõe um risco potencial para as pessoas porque poderia realizar uma análise de macrodados sobre os costumes e o comportamento de seus usuários.

Mas desde quando Pequim se preocupa com a privacidade dos cidadãos chineses? O Governo chinês faz tudo o que está a seu alcance para espioná-los.

É muito provável que a grande operação na bolsa de Nova York tenha deixado Pequim nervosa ao pensar que os Estados Unidos possam ter acesso a uma enorme quantidade de informações pessoais de cidadãos chineses: onde vivem, onde trabalham e para onde viajam. Esses dados poderiam ameaçar a segurança nacional da China.

Na última quarta-feira, outro órgão regulador chinês multou várias empresas de internet, incluindo a Didi, por supostamente violar a lei antimonopólio do país.

A incipiente guerra fria entre Pequim e Washington tem mais a ver com dados do que com armas tradicionais: a coleta, o acúmulo, a análise e a utilização ao máximo desses dados para ficar à frente do rival. A cibersegurança se resume a quem tem mais acesso à informação sobre o outro e quem a pode utilizar melhor.

Nesta semana, a China também anunciou que aumentará a regulamentação das empresas tecnológicas com cotação no exterior e supervisionará que tipo de informação enviam e recebem do outro lado das fronteiras. A justificativa oficial é que querem garantir que os consumidores chineses estejam protegidos dos crimes informáticos e dos vazamentos de informação pessoal. A verdadeira razão provavelmente seja a segurança nacional chinesa.

Os políticos de Washington estão quase tão nervosos como os políticos de Pequim pelo fluxo de informação que passa para o outro lado.

O senador Marco Rubio declarou ao Financial Times que é “imprudente e irresponsável” que a bolsa de Nova York permita que a Didi venda ações. Sua preocupação? Proteger os aposentados estadunidenses.

“Mesmo que essas ações se recuperem, os investidores estadunidenses não têm conhecimento da fortaleza financeira da empresa porque o Partido Comunista chinês impede os órgãos reguladores de nosso país revisar seus livros contábeis”, disse Rubio. “Isso coloca em perigo os investimentos dos aposentados estadunidenses e envia a Pequim os dólares que nós tanto precisamos”.

Por favor. Se Rubio e outros legisladores verdadeiramente quisessem proteger os investidores estadunidenses, tentariam restringir a quantidade de poupança estadunidense que escapa para a China por meio dos fundos de pensões, fundos mútuos de investimento e fundos negociados na bolsa.

No entanto, atualmente, empresas chinesas representam a maior porcentagem dos índices de ações emergentes, que determinam por onde se movimenta a poupança dos estadunidenses no mundo. Apesar do aumento das tensões geopolíticas nos últimos anos, a destinação para a China cresceu de forma dramática. Tanto é que os índices do mercado de bônus incluem os bônus do Governo chinês em suas carteiras de ações.

O investimento de carteiras de ações estadunidenses em empresas chinesas e bônus do Governo daquele país pode ultrapassar os 843,3 bilhões de euros até o fim de 2021.

O que realmente preocupa os legisladores estadunidenses em que a Didi e outras grandes empresas tecnológicas chinesas assegurem sua posição financeira nos Estados Unidos é que poderiam coletar enormes quantidades de dados sobre os Estados Unidos e continuar respondendo ao Governo chinês, ou seja, a mesma preocupação de Pequim.

Os temores de Pequim e Washington em relação à segurança dos dados é compreensível. No entanto, de um ponto de vista prático, as duas economias estão entrelaçadas. Oficialmente, a economia chinesa continua sendo comunista e controlada pelo Estado, mas extraoficialmente os líderes das empresas tecnológicas são capitalistas e se enriquecem até quase se igualarem a seus colegas estadunidenses.

Os empreendedores e os cérebros das finanças, tanto na China como nos Estados Unidos, compreendem bem que as duas nações juntas formam o maior mercado do mundo. E continuarão fazendo tudo o que for possível para ganhar dinheiro dentro deste mercado gigantesco, sem se importar com o nacionalismo tecnológico cada vez mais forte de seus respectivos responsáveis políticos.

Isso significa que o próximo conflito mais interessante não será entre a China e os Estados Unidos como tal, mas entre as elites empresariais das duas nações que buscam gerar grandes receitas e as elites políticas das duas nações que querem proteger seus países e, de passagem, proteger seus próprios centros de poder.

 

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