Jesus Cristo, salvação de todos

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13 Julho 2021


"As reflexões de Luis Ladaria esclarecem que a oferta de salvação, da qual o cristianismo é portador, se funda em Cristo de um modo muito profundo", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR), ao comentar o livro Jesus Cristo, salvação de todos (Vozes, 2021, 184 p.), de autoria de Luis Francisco Ladaria Ferrer.


Eis o artigo.


Luis Francisco Ladaria Ferrer é o autor do livro: Jesus Cristo, salvação de todos (Vozes, 2021, 184 p.) [1]. O referido autor é teólogo jesuíta espanhol, professor da Universidade Gregoriana de Roma. Foi nomeado pelo Papa emérito Bento XVI Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, e sagrado arcebispo em 26 de julho de 2008. Em 2017 foi nomeado pelo Papa Francisco como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Esta obra foi originalmente publicada na Espanha no ano de 2007, e, faz parte da Coleção Teología Comillas, projeto realizado pelo Serviço de Publicações da Pontifícia Universidade Comillas. A Coleção visa catalisar e estimular a equipe de professores desta Universidade a sair em praça pública e, assim, dar uma contribuição significativa e valiosa nas áreas em que atua.

Nesta obra Luis F. Ladaria aborda o tema da salvação respondendo às perguntas: Por que Jesus Cristo é o salvador de todos? Por que os cristãos devem manter essa pretensão que não raramente é ininteligível e até mesmo escandalosa para muitos de nossos contemporâneos. De início, o autor esclarece que quando refletimos sobre a soteriologia e a antropologia cristãs, percebemos que é a própria natureza da salvação que o Novo Testamento e o ensinamento da Igreja nos apresentam como a vocação e a perfeição última de todo ser humano, que não pode ser explicada sem Cristo.

Em sua morte e ressurreição Ele superou o pecado e a morte e comunicou sua própria vida a nós, de maneira que a salvação que Ele nos oferece não pode de forma alguma, separar-se de sua pessoa. Para explicar esse relacionamento intimo desde o início, se fala no título deste livro: Jesus como “salvador de todos” e não como “meu salvador” (cf. p. 11-16). Portanto, a mediação universal de Jesus e a relevância da cristologia para a doutrina da criação do ser humano são temas fundamentais que sob vários pontos de vista e com algumas variações são abordados nos cinco (5) capítulos deste livro.

O primeiro capítulo, Cristo, “perfeito ser humano” e “ser humano perfeito” (p. 17-38), começa explicitando a perfeição da humanidade de Jesus nos concílios antigos: Calcedônia, II e III Constantinopla (p. 17-24) - esclarecendo que a perfeição da humanidade de Cristo que os antigos concílios sublinharam, contém já no contexto dos antigos escritores à ideia de que não é somente o caráter completo da natureza o que se põe em jogo, mas também o caráter paradigmático da humanidade de Jesus como consequência da dignidade que outorga o ser da humanidade do Filho e a perfeição moral que a acompanha.

Na sequência, Ladaria destaca que neste sentido podemos pensar uma profunda continuidade, mesmo com a novidade que indubitavelmente se apresenta, entre as antigas definições e o Concílio Vaticano II que falou explicitamente do Cristo não somente como perfeito ser humano, mas também como ser humano perfeito (p. 24-25). Frente ao que diz a Gaudium et Spes no número 22, o autor, comenta alguns aspectos interessantes desta afirmação (p. 25-29).

As reflexões finais deste capítulo trazem reflexões sobre a cristologia e antropologia: a) a insistência na unidade do desígnio de Deus que abraça a criação e a salvação do ser humano realizada pelo Filho feito ser humano. A criação em Cristo, e não somente no Filho, é uma verdade fundamental do cristianismo que a teologia recentemente relativizou (p. 30-32); b) esta unidade do desígnio divino que abraça a criação e encarnação, a partir da qual devemos dizer que a segunda é o sentido último da primeira, não pode nos fazer esquecer a novidade radical do evento Cristo. Ele é absolutamente indivisível a partir do ser humano criado à sua imagem e chamado à semelhança e a conformação com Ele (p. 32-36); c) a relação entre Cristo e o ser humano pressupõe que este último possui uma verdadeira consciência criatural e uma verdadeira liberdade, não apesar, mas em virtude de sua vinculação a Cristo (p. 36-37); d) a rejeição constitui a desumanização do ser humano. Esta rejeição produziu-se no pecado. O ser humano quis ser deus por suas próprias forças, fixou seu destino à margem do que Deus havia assinalado. Por isso, a aparição de Jesus, em sua novidade, significa o juízo do ser humano e do mundo (p. 37-38).

O segundo capítulo, A antropologia cristã como proposta de um novo humanismo (p. 39-73), traz inicialmente alguns dados da antropologia do Antigo Testamento (p. 41-44). Ladaria faz notar que as afirmações do Antigo Testamento sobre o ser humano imagem de Deus, coroado de dignidade, no Novo Testamento são aplicados a Jesus Cristo, uma vez que, o que foi dito sobre a dignidade do ser humano em geral, agora é dito especificamente de um ser humano concreto, de Jesus. Essa constatação elementar nos indica inicialmente que a antropologia cristã não se explica sem uma intrínseca referência a Cristo.

A novidade que a antropologia cristã nos traz terá que ver, portanto, de maneira essencial, com a novidade de Cristo. Num segundo momento, o autor traz reflexões patrísticas sobre Cristo e o ser humano – lançando luzes sobre as seguintes questões: até que ponto Cristo é parte da definição do ser humano? Entra somente em cena quando o ser humano, caído no pecado, necessita de um redentor? (p. 44-50). O capitulo termina apresentando – Cristo e o ser humano segundo o Concílio Vaticano II e a reflexão teológica contemporânea: Cristo ser humano perfeito (p. 50-62); a filiação divina do ser humano (p. 62-66); Cristo, medida do ser humano (p. 66-71). Concluindo o autor diz que a encarnação do Filho confere à humanidade sua máxima dignidade, Jesus uniu-se a todo ser humano, de maneira especial nos pequenos e pobres. Daí o respeito fundamental que merece o ser humano, o ser humano todo e todo ser humano, chamado a ser filho de Deus e templo do Espírito.

O terceiro capítulo, Salvação de Cristo e salvação do ser humano (p. 75-114), destaca inicialmente que quando nos deparamos com a questão da salvação a partir do ponto de vista da fé e da teologia cristã duas perspectivas necessariamente se entrecruzam: a do ser humano frágil e necessitado, que necessariamente pensa em seu bem e em sua plenitude, que não tem em si mesmo tudo aquilo que desejaria e a do dom que Deus nos faz em Cristo. Por isso, Deus e o ser humano se encontram (p. 75-85). Em seguida, Ladaria salienta que a oferta de salvação não está ligada primordialmente a uma mensagem, nem mesmo a uma profissão de fé em determinadas verdades, mas ainda radicalmente a alguém que está na base e na origem de todas estas coisas: a própria pessoa de Jesus (p. 85-88).

Diante disso, a perfeição de Cristo é a causa de nossa salvação: Jesus, o Filho de Deus, na perfeição que pela obediência obtém em sua humanidade, é a causa da eterna salvação para todos os que lhe obedecem. A humanidade vivificada no Senhor, que recebeu a salvação do Pai, é princípio da vivificação dos seres humanos. Não há salvação do ser humano exceto pela participação nesta salvação de Cristo (p. 88-98). Precisamente por isso, se insere a relação entre a nossa, entre a que Ele possui como Cabeça e corpo e a que Ele outorga ao corpo inteiro (p. 98-105). O autor conclui este capítulo apresentando algumas perspectivas escatológicas: Cristo é a nossa salvação, não apenas porque nos livra do mal, mas porque nele, ser humano perfeito, nossa salvação é medida do próprio Deus, a vida divina que Jesus, também enquanto ser humano, possui por toda a eternidade (p. 105-112).

O quarto capítulo é intitulado A encarnação de Deus e a teologia cristã das religiões (p. 115-141). O autor salienta que já se passaram os tempos de uma estreita compreensão da necessidade de pertencer à Igreja para a salvação. Assim, a possibilidade de salvação fora das fronteiras visíveis da Igreja é um dado adquirido, não apenas na teologia católica, mas também no magistério. Nem a Igreja, à qual todos estão ordenados, nem com muito maior razão Cristo, o único mediador, estão ausentes desta salvação. Se a possibilidade de salvação para todos os seres humanos não oferece nenhum problema na discussão teológica do momento, o debate não é encerrado, apesar das qualificadas intervenções magistrais, acerca da universalidade da mediação nesta salvação.

Diante disso, Ladaria reflete sobre a relevância da encarnação, como a máxima manifestação do amor de Deus aos seres humanos, para a salvação de todos, tendo-se em conta que o evento único da vinda de Deus ao mundo não pode deixar de ter um significado universal. A encarnação é descrita pelo autor como evento único e irrepetível (p. 117-120), pois o Filho de Deus se uniu em certo modo a todo ser humano (p. 120-123). Ressalta o autor que a encarnação do Filho e tudo o que se segue implica a fé em um único destino da humanidade, em uma vinculação profunda que une todos os seres humanos em uma comunidade de origem e de destino em Jesus Cristo, por meio do qual nos unimos a Deus; uma unidade que se realizará em plenitude somente no futuro, mas da qual agora já temos as primícias (p. 124-126).

Na parte final deste capítulo, Ladaria faz notar que nenhum aspecto da teologia cristã pode prescindir do dado fundamental da encarnação do Filho de Deus, e certamente não o poder fazer a teologia das religiões nem a teologia do diálogo inter-religioso que dela deriva. O autor chama a atenção para a relevância universal da encarnação e a teologia das religiões (p. 126-136), para a encarnação e dom do Espírito Santo, tendo-se em consideração que na teologia cristã das religiões e do diálogo inter-religioso, o tema do Espirito Santo não pode ser deixado de lado: a presença universal do Espírito de Cristo é o princípio que permite uma avaliação positiva de muitos elementos das religiões (p. 134-138).

O quinto capítulo, O cristianismo e a universalidade da salvação (p. 143-176), o autor sem pretender repassar todos os textos em que a universalidade da salvação é contemplada no Concílio Vaticano II -, traz algumas indicações deste evento no tocante a universalidade da salvação (p. 143-146). Em seguida apresenta alguns desenvolvimentos da teologia recente em torno da universalidade da salvação, destacando que ao contrário de outros momentos da história da teologia, em que a perdição de muitos seres humanos foi dada como certa sem aparentemente uma tal convicção criasse problema, hoje em dia são amplamente maioria as opiniões que contemplam a universalidade da salvação. Poderosas razões nos induzem a essa posição. A primeira e fundamental é a vontade de salvação de Deus, que não conhece fronteiras, e a universalidade da salvação que Cristo nos trouxe, seu mistério pascal que é fonte de salvação para todos os seres humanos.

Tem sido substancialmente a reflexão escatológica centrada na cristologia, desenvolvida a partir do Concílio Vaticano II, que levou a teologia católica a estes posicionamentos (p. 147-155). Por isso, Ladaria defende que a universalidade da salvação e a unicidade da mediação de Cristo se afirmam conjuntamente, não são dois dados incompatíveis, mas se iluminam e se reclamam mutuamente (p. 155-171). Assim sendo, uma reflexão sobre a universalidade da salvação não poderá prescindir da referência pneumatológica: a universalidade de Cristo e a do Espírito vão juntas e não podem ser compreendidas uma sem a outra. Sem o Espírito, a obra do salvador de todos não chega a seu cumprimento. Tanto a relevância universal de Cristo como a do Espírito são necessárias para a universalidade da salvação (p. 171-175).

As reflexões de Luis Ladaria esclarecem que a oferta de salvação, da qual o cristianismo é portador, se funda em Cristo de um modo muito profundo. Não somente porque Cristo é o único salvador, que com sua morte e ressurreição libertou os seres humanos do pecado e lhes comunicou a vida divina, mas porque a salvação que lhes comunica é a sua mesma: a que Ele em sua humanidade recebe do Pai que é também o salvador dos seres humanos segundo o Novo Testamento, a que Ele quer compartilhar com todos nós, ainda mais, a que Ele não quer ter sem nós porque Ele não quer como uma cabeça, ser sem o corpo.

Nota

[1] LADARIA, Luis F. Jesus Cristo, salvação de todos. Trad. Cleusa Caldeira.  Petrópolis: Vozes, 2021, 184 p. ISBN 9788532664419

 

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