Natureza e graça. Artigo de Raniero La Valle

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08 Julho 2021

 

"Seria este, de fato, o momento de passar da luta pela hegemonia para a construção de um mundo inclusivo para todos. Pode ser feito. Este é o apelo que vem das guerras que ninguém mais pode vencer, este é o apelo que vem do Papa Francisco e seus irmãos de outras religiões que juntos estão nos propondo uma imagem inédita de um Deus que une todos em si no amor", escreve Raniero La Valle, jornalista e ex-senador italiano, em artigo publicado por Chiesa di Tutti, Chiesa dei Poveri, 06-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Enquanto a Europa vive despreocupada seus campeonatos de futebol, sem ligar para a pandemia, notícias dramáticas irrompem do outro lado do Atlântico, na frente do clima, abrindo um novo terreno de luta, quase como para nos lembrar que, depois de uma história feita de guerras, a humanidade enfrenta agora duas guerras que poderiam ser as últimas, e que exigem decisões radicais.

Da primeira, a guerra atômica, há tempo sabemos que ela não poderia ser vencida. Por isso foi solenemente estabelecido e repetido até o recente encontro dos "Dois Grandes", Biden e Putin em Genebra, que nunca deverá ser combatida.

Mas agora sabemos que nem mesmo a segunda poderá ser ganha, que ninguém vai ganhar. É a guerra climática. Sabemos disso desde que chegou a notícia de que Lytton, uma cidade a 200 km de Vancouver no Canadá, está em chamas, a temperatura atingiu 49,5 graus, ante um nível médio de 24 graus no mesmo período do ano. Quinhentos são os mortos apenas por isso, enquanto em Verkhoyansk, na Rússia Ártica, em 21 de junho passado, foram atingidos 40 graus.

Analistas e cientistas de todos os tipos apareceram com estudos, levantamentos e estatísticas que mostram que algo nunca visto antes está acontecendo, algo que não apenas parecia improvável, mas completamente impossível de acordo com a climatologia anterior.

A NASA divulgou um estudo que mostra que a atmosfera terrestre armazenou uma quantidade "sem precedentes" de calor, que dobrou em quase quinze anos.

A conclusão que pode ser tirada é que aquele aumento controlado do calor global com a qual se contava para a luta contra o desastre ecológico iminente e sobre o qual haviam sido alinhavadas as estratégias gradualistas como as adotadas nos acordos de Paris (que previam até a compra de cotas adicionais de poluição pelos países mais ricos) não é possível, a batalha já foi perdida, seria necessária uma inversão dos comportamentos coletivos, não uma retórica reformista.

 

As dores são inevitáveis hoje

 

O problema político que se coloca hoje é que, ao contrário do que se pode dizer da guerra atômica, esta segunda guerra não pode ser travada, precisamente porque vencidos devemos decidir assumi-la como nossa prioridade absoluta, e deveríamos colocar na segunda todas as energias e recursos que certamente investiríamos na primeira. Mas infelizmente é justamente a resposta política que falta. A orgia dos encontros diplomáticos nas últimas semanas, tão alardeada quanto inconclusiva, é a prova disso. O esquema proposto é sempre o mesmo, o mundo não é concebido como um sistema de sujeitos em relação entre si cuja vida na terra deve ser organizada da melhor forma possível, mas como uma selva apenas um pouco civilizada após a invenção hobbesiana do estado moderno, cujo conflito deve ser administrado e onde a inimizade deve ser cultivada.

Isso não acontece por acaso. A montante existe uma cultura, que é a entronizada pelo Ocidente, e é a cultura dialética, que sempre contempla dois termos armados um contra o outro, que têm em si a guerra como possibilidade real. É nesse esquema que o "concerto das nações" que foi exibido nas recentes representações diplomáticas, repropôs o conflito Rússia-Ocidente como paradigma permanente, enquanto já assoma o novo modelo, que introduz como obrigatório, sabe-se lá por quê, um conflito trilateral que consagra a China como terceiro inimigo. A entrevista com a qual o secretário de Estado estadunidense Blinken veio explicar a política de Biden aos italianos foi muito clara: com a China poder-se-á até discutir direitos humanos, o que importa é que permaneça aberto o conflito com ela em um mundo dividido.

Em vez disso, o mundo é um só. Natureza e graça nos chamam para uma resposta completamente diferente, para uma inversão. Em vez disso, essa seria a hora de passar da dialética à harmonia, de Hegel a Confúcio, como os próprios chineses nos convidam a fazer, celebrando o centésimo aniversário da fundação de seu Partido Comunista e apesar do pensamento de Mao. Seria este, de fato, o momento de passar da luta pela hegemonia para a construção de um mundo inclusivo para todos. Pode ser feito. Este é o apelo que vem das guerras que ninguém mais pode vencer, este é o apelo que vem do Papa Francisco e seus irmãos de outras religiões que juntos estão nos propondo uma imagem inédita de um Deus que une todos em si no amor.

E a política e o direito deveriam fazer a sua parte, fazendo dos povos destroçados um só povo com uma única Constituição na qual todos possam se reconhecer. Enquanto isso, depois da operação que sofreu em 4 de julho, “Chiesa di tutti Chiesa dei poveri” deseja os mais fervorosos votos de recuperação ao Papa Francisco, terno cúmplice do retorno de Deus à terra.

 

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