Recordações da minha fé

Foto: Cathopic

06 Julho 2021

 

"Abordar os grandes temas da fé e da teologia à altura do mundo de hoje... Mario de França Miranda com sua experiência pessoal, competência e sensibilidade pastoral mostra-nos nestas páginas que a teologia é a inteligência da fé a serviço da fé", escreve Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão (padres vicentinos) Província do Sul e mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).

 

Eis o artigo.

 

Mário de França Miranda é padre jesuíta, doutor em Teologia pela Universidade Gregoriana, professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Foi membro da Comissão Teológica Internacional do Vaticano, assessor do CELAM e da CNBB, autor de vários artigos e livros já publicados. Um teólogo veterano!

No livro: Recordações da minha fé (Paulinas, 2021, 216 p.), o referido autor busca oferecer uma síntese de questões relacionadas à fé cristã. Tal síntese é fruto de sua experiência pessoal, de suas leituras e de suas experiências como cristão. Mario de França Miranda diz que depois de muitos anos de convivência com a teologia, de luta diária para ser cristão, de experiência positivas ou não com a Igreja, de contato estimulante com autênticos cristãos, de preocupação crescente com o futuro do cristianismo, de intervenções imprevistas do Espírito Santo, do conhecimento realista de sua fragilidade que o fez conhecer um Deus misericordioso.

O intuito do autor é ajudar o leitor a compreender melhor a sua fé, a conhecer melhor a pessoa de Jesus Cristo, a captar melhor a ação do Espírito em sua vida, a invocar melhor a ação do Espírito em sua vida, a invocar o Deus de amor infinito revelado por Jesus de Nazaré, e a estimular a comunidade eclesial de seguidores de Cristo da qual também, faz parte.

O livro está estruturado em dez capítulos. A seguir nomeados os títulos, páginas correspondentes e pequenos recortes de cada reflexão:

1) Crer em Deus (p. 11-32) – “o cristão é aquele que livremente responde à iniciativa salvífica de Deus. O acesso a Deus não é mediado pelo saber, mas pela fé que também goza de luminosidade própria, experimentada por aquele que crê. É uma opção que envolve toda a pessoa, pois arte de seu intimo, do seu coração, como designa a Bíblia (...). Enquanto opção livre, enquanto acolhimento do mistério, enquanto se deixar por ele determinar, enquanto não é apenas fruto da inteligência, a opção de fé é um ato de confiança, de entrega, de amor, que goza de uma luminosidade própria no interior da própria opção, que leva a razão a ultrapassar a si mesma, chegando, assim o ser humano à sua realização última, que não é apenas no conhecimento, mas no amor. Não podemos ser reduzidos a uma máquina voraz por novos conhecimentos, numa busca sempre insatisfeita e frustrante. Somos mais. Ter fé é não só reconhecer a impotência da razão humana para oferecer sentido último para a existência, mas acolher o sentido concedido pelo próprio Deus, dissipando assim, o angustioso silêncio diante da questão: por que existe o que existe?” (p. 18-19).

2) O Deus de Jesus (p. 33-54) – “Deus é infinitamente simples: seu ser e seu querer se identificam. Desta forma, sintonizar com Deus significa sintonizar com seu querer, com seu projeto para a humanidade. Esse projeto para a humanidade amadurece ao longo dos séculos na história salvífica de Israel, alcançando seu ponto máximo e definitivo em Jesus Cristo, que o apresenta como a realização do Reino. Portanto, o compromisso com os valores do Reino, como aparecem nas palavras e ações de Jesus, é porta de acesso à presença atuante de Deus, é sintonizar com sua vontade, quer dela tenhamos uma consciência reflexa ou não” (p. 41-42), “Deus aparece como alguém que entra e age na história da humanidade, procurando orientá-la e movê-la para o advento de uma sociedade realmente fraterna, solidária, pacífica e feliz. (...). Portanto, a imagem do Deus de Jesus Cristo é a de um Pai que tem um projeto histórico para a humanidade” (p. 46), “a imagem de Deus anunciada e vivida por Jesus é a de um Deus que promove a vida, a saúde e a felicidade, de um Deus que busca melhor qualidade de vida para as pessoas, de um Deus que se identifica com os mais excluídos, de um Deus que promove uma sociedade mais justa e humana, de um Deus que nos oferece gratuitamente a salvação, a qual já tem início nesta vida, como demonstram as ações de Jesus a favor dos necessitados” (p. 49).

3) Em que consiste a salvação cristã? (p. 55-78) – “a vida eterna da pessoa constitui a colheita do que ela semeou no tempo. Eternidade já tem inicio nesta vida. Daí a seriedade da nossa história, das nossas opções, do nosso cuidado com o outro e com a natureza, nosso empenho pela sociedade justa, do culto autêntico a Deus, enfim, da vivência real de nossa fé” (p. 78).

4) Quem é Jesus Cristo? (p. 79-100) – “ao confessarmos Jesus Cristo como revelação plena e definitiva de Deus, devemos reconhecer que cada palavra sua, cada gesto seu, cada reação sua, revelam algo do próprio Deus. Mais ainda. Jesus Cristo, ao cumprir em tudo a vontade do Pai, manifesta concretamente o que conhecemos como vontade Deus. Como em Jesus Cristo ela se realizou ao longo de sua vida, assim também nós não podemos realiza-la de uma só vez. Portanto, cabe-nos encontrar na totalidade das manifestações desta vontade divina na vida de Cristo, que episódio, que palavra, que gesto nos indicam a vontade de Deus a ser acolhida e vivida em determinado momento de nossa vida. Só assim Jesus Cristo será realmente o caminho que nos leva ao Pai” (p. 85). Por isso, “confessamos Jesus Cristo como nosso salvador pela sua coerência de vida na fidelidade a sua missão pelo Reino de Deus. Sua vida, morte e ressurreição nos oferecem igualmente podermos participar de sua salvação, de sua ressurreição. Sua paixão e morte na cruz permanecem, entretanto, como prova evidente da seriedade do amor infinito de Deus por nós” (p. 99).

5) A Igreja que somos nós (p. 101-124) – “todos nós somos Igreja, todos nós somos responsáveis pelo que ela é, todos nós configuramos seu rosto na atual sociedade, todos nós comprovamos a presença atuante de Deus no mundo através de nossa vida e de nosso testamento, todos nós somos sacramentos de Deus ao refletir sua ação salvífica em nosso cotidiano e, deste modo, comprovar que a Igreja é sacramento da salvação” (p. 124).

6) Eucaristia, a ceia do Senhor (p. 125-141) – “a eucaristia não apenas rememora um evento do passado e o atualiza para o presente, mas remete seus participantes para o desenlace feliz na vida de Deus, pois a ceia eucarística é a prefiguração do banquete eterno com Deus (Mt 26,29). Consequentemente, uma celebração que confirma nossa fé, reforça nossa esperança e nos motiva para um amor maior aos demais. Construímos nossa eternidade através de uma vivencia eucarística que é, afinal a vivencia cristã sem mais” (p. 133-134).

7) O cristianismo em transformação? (p. 143-166) – “hoje se impõe a gestação de uma nova configuração do cristianismo, desprovido de poder, de certezas, de moralismo, de superioridade, pois nela também Deus está atuando, que saiba mostrar-se frágil e simples como foi o Mestre de Nazaré, que concentre sua pastoral na pessoa de Cristo e não em questões eclesiais secundárias, que reconheça sua própria incoerência e imperfeição, que não pregue o que não vive, que saiba discernir a presença vitoriosa do Espírito Santo em entidades e pessoas que não apresentam a etiqueta de cristãos, mas que vivem a solidariedade fraterna, a compaixão pelo pobre, a indignação diante de um sistema econômico e político que produz pobreza e sofrimento, pois só se chega ao Deus de Jesus Cristo através do comportamento diante do semelhante em necessidade” (p. 149).

8) O ser cristão como processo (167-181) – “enquanto acionada pelo Espírito Santo, a vida do cristão mais se assemelha a uma caminhada, exigindo respostas novas aos desafios que possam surgir, levando a um crescimento existencial jamais concluído no amor fraterno, no amor a Deus ou no compromisso real pela causa do Reino de Deus. Assim, o cristão deve viver comprometido com o Reino, como Jesus, certamente uma tarefa difícil, mas possibilitada pelo Espírito Santo que o acompanha sempre nesta caminhada. Compete-lhe saber invoca-lo e nele confiar” (p. 181).

9) Como rezar? (p. 183-197) – “o que caracteriza o cristão consiste em assumir a vida de Cristo: o que distingue a oração cristã funda-se em assumir a oração de Cristo. Portanto, uma oração profundamente relacionada com sua missão pelo Reino, com sua pessoa, com sua vida de cada dia. Nesse sentido, a oração cristã brota da vivência da fé em Cristo, apresenta uma estrutura trinitária (ao Pai no Espírito), inclui necessariamente o cuidado com o outro, não podendo ser reduzida apenas ao indivíduo e Deus, nem avaliada pela concentração, pela presença de fortes sentimentos ou pela profundidade de sua compreensão das verdades cristãs. Consequentemente, a oração cristã será amis autentica e verdadeira na medida em que se enraizar e fortalecer numa vida realmente cristã” (p. 185).

10) Por que a opção pelos pobres? (p. 199-214) – “no fundo a mensagem em favor dos pobres vivida e proclamada por Jesus ganha novas dimensões, quando lida na perspectiva aberta pelas ciências históricas, sociológicas e econômicas atuais. Pois é então evidente que a atual situação não provém de Deus, mas resulta do próprio egoísmo humano, que cria ideologias justificadoras e estruturas geradoras de pobreza. Pertence assim à dimensão social da fé cristã não só acudir e dar assistência aos necessitados, como se fez no passado, mas também combater as causas de injustiças e misérias atuais. Não cabe dúvida que o imperativo político é inerente à autêntica caridade cristã, qualquer que seja a modalidade de ação, voto consciente, iniciativas de conscientização ou ações a partir de seu campo de trabalho” (p. 213-214).

 

Abordar os grandes temas da fé e da teologia à altura do mundo de hoje... Mario de França Miranda com sua experiência pessoal, competência e sensibilidade pastoral mostra-nos nestas páginas que a teologia é a inteligência da fé a serviço da fé. Os anos de convivência com a teologia e a sua luta diária para ser cristão em comunhão com a Igreja comprova que sem a fé não há teologia (inteligência da fé), e sem fé a teologia é um discurso ineficaz e inútil (serviço à fé).

Os recortes feitos acima nos permitem captar o teor das reflexões propostas pelo renomado autor, remetendo o leitor para o essencial da doutrina cristã lida e explicada para as urgências atuais. Escrito com competência e seriedade, sem as preocupações com os erudicismos academicistas, é um livro que põe a teologia ao alcance do laicato. Os leigos e as leigas encontraram neste livro reflexões consistentes para refletir e viver a própria fé, no empenho para dar à profissão de fé o coerente testemunho de vida.

 

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