Pandemia eleva número de jovens nem-nem pela falta de trabalho e condições de estudo. Entrevista especial com Denise Guichard Freire

Segundo a pesquisadora, é preciso efetivas políticas públicas para manter adolescentes na escola até concluírem o Ensino Médio, pois do contrário deixam os estudos por frágeis ocupações

Foto: Agência Brasil

Por: João Vitor Santos | 27 Mai 2021

 

Não é de hoje que o Brasil tem se preocupado com o número de jovens que não estão nem na escola, nem procurando emprego, os chamados nem-nem. Para a economista Denise Guichard Freire, que pesquisa o tema, é importante compreender que garotos e garotas estão nessas condições por diversos fatores, todos alheios a sua vontade. Entre eles, a necessidade de deixar a escola para aumentar os rendimentos da família. O problema é que conseguem trabalhos muito frágeis, com pouco rendimento e ainda instáveis, além de perderem essa ocupação com muita facilidade, não conseguindo outra, e tampouco conseguem voltar para a escola. “A taxa de jovens nem-nem no Brasil tem se situado em um patamar acima de 20% desde 2015, aumentando a cada ano, e é composta por cerca de 70% de mulheres e 30% de homens”, detalha a pesquisadora, em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

 

O quadro tem se tornado ainda mais grave na pandemia e, embora os números tenham melhorado, ainda são preocupantes. “Com a retomada das atividades econômicas no terceiro e quarto trimestres de 2020, uma parcela dos jovens que estava em busca de uma colocação conseguiu se inserir novamente no mercado de trabalho, fazendo com que a taxa recuasse, mas ainda em um patamar elevado. O que demonstra que esses jovens necessitam de políticas públicas direcionadas aos seus problemas”, explica Denise. E, para ela, políticas têm de ser efetivas para assegurar esse público na escola. “O Bolsa Família atualmente auxilia as famílias com jovens até 17 anos, mas infelizmente nem todos conseguem concluir os seus estudos dentro do prazo”, constata. É por isso que defende “bolsas de estudo, de auxílio financeiro para as famílias ao longo do ensino médio, para que os jovens não abandonem precocemente os estudos para se inserirem no mercado de trabalho em ocupações informais, precárias, de baixa remuneração e alta rotatividade”.

 

Afinal, a própria precariedade da educação, em muitos casos, durante a pandemia, tem feito com que esses jovens abandonem os estudos e, acredita Denise, dificilmente retomarão. “Enquanto anteriormente à pandemia havia uma forte presença de mulheres inativas neste conjunto de jovens, com a pandemia houve um acréscimo de homens e mulheres que perderam seus empregos e se tornaram nem-nem por conta da desocupação. Assim, antes da pandemia mais da metade desses jovens era inativa, ou seja, não buscava trabalho; após a pandemia esse cenário mudou, com os desocupados sendo maioria”, reitera.

 

Denise Freire (Foto: Reprodução | Twitter)

Denise Guichard Freire possui graduação em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ, especialização em Análise de Conjuntura Econômica pela mesma instituição, além de mestrado em Estudos populacionais e pesquisas sociais e doutorado em Economia, ambos também pela UFRJ. É, ainda, especialista em análises sobre a situação educacional e laboral dos jovens brasileiros, com destaque para os jovens que nem trabalham e nem estudam, tema de sua tese de doutorado, e atua como economista concursada do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Com base nas pesquisas e nos dados que tem acompanhado, como a pandemia tem impactado os jovens de modo geral?

Denise Guichard Freire – Os jovens têm sido fortemente prejudicados no mercado de trabalho durante a pandemia, com o aumento da desocupação, pois normalmente são os primeiros a serem dispensados e os últimos a serem recontratados, e, no caso específico das mulheres jovens, também pelo aumento da sobrecarga no trabalho doméstico e no cuidado com as crianças. A desigualdade de acesso à educação remota impactou os jovens mais pobres, dificultando o seu aprendizado e o acesso ao conhecimento. Uma boa notícia foi que, apesar das dificuldades, a evasão escolar diminuiu durante a pandemia.

 

 

IHU On-Line – Em que medida o impacto do distanciamento social, em decorrência da pandemia, e as dificuldades acerca do ensino remoto na educação dos jovens devem trazer problemas para o futuro profissional dessa população?

Denise Guichard Freire – O acesso a uma educação de qualidade é primordial para a formação dos jovens. Durante a pandemia, com a necessidade do ensino remoto, os jovens, principalmente os mais pobres, tiveram mais dificuldades de acesso às plataformas educacionais, seja por falta de internet, seja por falta de equipamentos, ou ambos. Isso pode acarretar um atraso na conclusão da educação básica, para os que estão no ensino médio, e do ensino superior.

Em termos profissionais, a falta de uma formação educacional adequada reflete na dificuldade de acesso a melhores oportunidades de colocação no mercado de trabalho e a melhores condições salariais, perpetuando uma condição de vulnerabilidade a que muitos jovens estão sujeitos. Sabe-se que no Brasil existe um aumento no retorno salarial à medida que a pessoa aumenta a sua escolaridade. Nesse sentido, quanto menor o acesso à educação e à possibilidade de conclusão, menor a chance de os jovens conseguirem se inserir melhor no mercado de trabalho, estando sujeitos a trabalhos precários e mal remunerados.

 

 

IHU On-Line – Se, de um lado, o ensino remoto foi cheio de problemas na educação pública, no ensino privado o quadro parece ser diferente, inclusive com a retomada das aulas de forma mais rápida. Isso tende a se revelar como mais um elemento que amplia as desigualdades entre os jovens?

Denise Guichard Freire – Com certeza, os jovens mais vulneráveis estão na educação pública e essa dificuldade de acesso à educação amplia as desigualdades sociais e econômicas. Para que isso não ocorresse, durante a pandemia seria necessária a adoção de políticas públicas voltadas a fornecer acesso à internet de qualidade e equipamentos adequados aos jovens das escolas públicas, mas também uma política de valorização dos professores de escolas públicas por parte dos governos municipais e estaduais.

 

 

IHU On-Line – Pesquisas têm apontado também um grande impacto da pandemia nos jovens nem-nem. Segundo a Fundação Getulio Vargas - FGV, o número de jovens que “nem” trabalham e “nem” estudam no Brasil saltou de 23,66% – levando em conta jovens de 15 a 29 anos –, no quarto trimestre de 2019, para o recorde histórico de 29,33% no segundo trimestre de 2020. Depois, os números se acomodaram em patamar intermediário de 25,52% no período de outubro a dezembro de 2020. Como a senhora analisa esse quadro?

Denise Guichard Freire – A taxa de jovens nem-nem no Brasil tem se situado em um patamar acima de 20% desde 2015, aumentando a cada ano, e é composta por cerca de 70% de mulheres e 30% de homens. Em 2019, ela já estava, portanto, em um patamar elevado, 23,66%, em decorrência da crise econômica que o país atravessa desde o final de 2014. Vale ressaltar que essa taxa considera tanto os jovens desocupados, que buscam trabalho, como os jovens inativos, que não buscam.

 

 

 

O aumento na taxa verificado no segundo trimestre de 2020 revela um aumento da parcela de jovens desocupados, que atingiu a marca de 56%, segundo a FGV. Com a retomada das atividades econômicas no terceiro e quarto trimestres de 2020, uma parcela dos jovens que estava em busca de uma colocação conseguiu se inserir novamente no mercado de trabalho, fazendo com que a taxa recuasse, mas ainda em um patamar elevado. O que demonstra que esses jovens necessitam de políticas públicas direcionadas aos seus problemas.

 

IHU On-Line – Agora no início de maio, o ministro da Economia, Paulo Guedes, mencionou a intenção de tirar do papel o Bônus de Inclusão Produtiva - BIP, uma tentativa de qualificar jovens nem-nem. Quais as potencialidades e fragilidades de propostas como essa?

Denise Guichard Freire – Esse tipo de política mostra-se importante para melhorar a qualificação dos jovens com capacitações básicas voltadas para a inserção do mercado de trabalho, como a capacitação em informática. Contudo, não resolve o problema estrutural de acesso à educação e à capacitação, pois os mais pobres abandonam precocemente os estudos porque necessitam trabalhar para auxiliar na renda domiciliar, uma vez que os responsáveis não ganham o suficiente para fazer frente às despesas do domicílio.

 

 

Assim, um auxílio temporário e para capacitações genéricas não altera a trajetória desses jovens. É necessário um apoio constante com auxílio financeiro para que as famílias mais pobres consigam deixar seus jovens nas escolas até a conclusão do ensino médio. O Bolsa Família atualmente auxilia as famílias com jovens até 17 anos, mas infelizmente nem todos conseguem concluir os seus estudos dentro do prazo, necessitando que o apoio financeiro continue.

 

IHU On-Line – Na sua concepção, como deveria ser a ação, seja via programas de qualificação ou incentivo via bolsa de estudos, estatal, para mobilizar os chamados nem-nem?

Denise Guichard Freire – A maioria dos jovens nem-nem abandona os estudos antes de concluir a educação básica, seja por necessidade econômica (no caso dos homens), seja por precisar cuidar do trabalho doméstico e de parentes (no caso das mulheres). E, uma vez que abandone, somente 5% retomam os estudos. Para que os jovens permaneçam estudando é necessária a adoção de bolsas de estudo, de auxílio financeiro para as famílias ao longo do ensino médio, para que os jovens não abandonem precocemente os estudos para se inserirem no mercado de trabalho em ocupações informais, precárias, de baixa remuneração e alta rotatividade.

Os programas de qualificação podem auxiliar na formação dos jovens em uma área técnica, para que tenham uma profissão além da educação básica. Isso é importante uma vez que, apesar da educação superior garantir maior salário, nem todos os jovens podem permanecer estudando, necessitando trabalhar para compor a renda domiciliar.

 

 

IHU On-Line – Os chamados nem-nem foram o tema de sua tese de doutorado, defendida em 2018. O que caracterizava esse grupo de jovens na época e quais as diferenças dos nem-nem de hoje?

Denise Guichard Freire – Na minha tese de doutorado, eu analisei a evolução dos jovens nem-nem no Brasil entre 2004 e 2016. Os nem-nem contemplam os jovens que não estudam e estão inativos (não procuram trabalho) ou estão desocupados (que procuram trabalho).

Ao longo desse período, eu pude observar que as mulheres representam cerca de 7 a cada 10 jovens nem-nem, contudo a participação dos homens tem crescido. As mulheres, apesar de estudarem mais, possuem mais dificuldades de acesso ao mercado de trabalho por conta principalmente das responsabilidades domésticas e dos cuidados com crianças e parentes, chamado de trabalho reprodutivo. Isso faz com que muitas mulheres, por permanecerem fora do mercado de trabalho e por falta de experiência profissional, não consigam entrar no mercado de trabalho quando necessitam. Assim, as mulheres nem-nem são majoritariamente inativas. Por sua vez, os homens nem-nem tendem a estar nesta condição de forma temporária até conseguirem se realocar no mercado de trabalho. Como já ressaltado, dificilmente um jovem nem-nem volta a estudar.

Por conta da pandemia, houve um forte incremento de jovens na condição nem-nem devido ao aumento da migração de jovens da condição de ocupados para desocupados, que são jovens que em sua maioria não mais estudavam. Nesse sentido, enquanto anteriormente à pandemia havia uma forte presença de mulheres inativas neste conjunto de jovens, com a pandemia houve um acréscimo de homens e mulheres que perderam seus empregos e se tornaram nem-nem por conta da desocupação. Assim, antes da pandemia mais da metade desses jovens era inativa, ou seja, não buscava trabalho; após a pandemia esse cenário mudou, com os desocupados sendo maioria.

 

 

IHU On-Line – Que fatores levam os jovens a não se interessarem pelos estudos e tampouco procurar trabalho?

Denise Guichard Freire – A condição nem-nem não é uma escolha dos jovens e não significa que eles não façam nada. Esse é um grupo heterogêneo, que abarca jovens em diferentes situações: os inativos, os que aguardam oportunidade de trabalho, os que fazem trabalhos voluntários, os incapacitados físicos e/ou mentais e os que estão estudando para concursos após concluírem a educação formal.

Muitas mulheres, por exemplo, estão nesta condição por conta da sobrecarga no trabalho reprodutivo, que também é chamado de trabalho não produtivo. Isso ocorre devido à má distribuição sexual do trabalho doméstico e de cuidados no Brasil. As mulheres dedicam, em média, cerca de 21 horas semanais a este tipo de serviço, enquanto os homens somente 11 horas, quase a metade.

Muitos jovens também estão nesta condição após sair de um trabalho e até conseguir outro. Existem também os que têm problemas de saúde, como apontam diversos estudos internacionais, em que até mesmo em países onde há oferta educacional e de trabalho existem entre 6% e 8% de jovens na condição nem-nem por conta da saúde deles.

Ou seja, diversos fatores podem levar os jovens a estar nesta condição, seja permanentemente, seja transitoriamente.

 

 

IHU On-Line – Embora já tenha tocado nisso, gostaria que detalhasse como as diferenças de gênero incidem sobre os nem-nem?

Denise Guichard Freire – As mulheres tendem a estar mais na condição nem-nem que os homens, por conta dos fatores já apontados, sendo 7 a cada 10 jovens. A condição nem-nem é a segunda situação de atividade das mulheres, atrás de somente trabalhar e na frente de somente estudar e de estudar e trabalhar. Para os homens, todas as demais situações estão na frente da condição nem-nem.

Por faixa etária, a situação feminina se agrava à medida que a idade das jovens avança. Entre 15 e 17 anos, existe pouca diferença por gênero; essa diferença se amplia entre 18 e 24 anos e, entre 25 e 29 anos, as mulheres estão praticamente nesta condição, enquanto a parcela de homens é muito baixa.

 

 

IHU On-Line – Qual a incidência de jovens nem-nem nas diferentes classes sociais? O que aproxima e o que distancia, por exemplo, um nem-nem de periferia de um outro jovem de classe mais alta e que vive num bairro nobre?

Denise Guichard Freire – A condição nem-nem afeta todas as classes sociais, mas de forma diferenciada. Entre os mais pobres a taxa chega a ser oito vezes maior do que entre os mais ricos. Os jovens da periferia com menor escolaridade tendem muito mais a estar e a permanecer nesta condição ou transitar entre essa condição, a desocupação e a ocupação precária, do que o jovem de classe alta, que tem possibilidade de permanecer estudando até pelo menos o final do ensino superior sem se preocupar em entrar precocemente no mercado de trabalho. Quando este está na condição nem-nem é porque está aguardando uma oportunidade de trabalho de acordo com as suas qualificações, está estudando para concursos ou fazendo trabalho voluntário.

O que aproxima atualmente esses dois jovens é a falta de oportunidades no mercado de trabalho e o que os distancia são as condições socioeconômicas e de escolaridade desiguais, que permite aos jovens mais ricos ficarem mais tempo nesta condição, enquanto os mais pobres precisam procurar qualquer tipo de ocupação, formal ou informal, com ou sem direitos trabalhistas, para conseguirem alguma renda para se manter.

 

 

IHU On-Line – Jovens nem-nem são um problema urbano ou impactam também os modos de vida no campo? O que difere as realidades do meio rural e da cidade?

Denise Guichard Freire – Os jovens nem-nem são um problema tanto urbano como rural. No meio rural a taxa de jovens nem-nem é maior do que no meio urbano por conta da dificuldade de acesso às escolas e à carência de oferta de oportunidades de trabalho. Ressalta-se ainda a forte incidência de gravidez na adolescência entre as jovens das regiões Norte e Nordeste. Neste caso, a maioria dos jovens permanece na condição inativa, ou seja, não trabalha e nem procura trabalho pela escassez de oferta.

Os jovens nem-nem no meio urbano tendem a estar mais no grupo de desocupados, ou seja, estão em busca de uma colocação, oscilando entre estar ou não inseridos no mercado de trabalho dado que existem mais ofertas de trabalho e de escolas do que no meio rural.

 

 

IHU On-Line – A pandemia ainda trouxe à luz o custo da chamada economia do cuidado. Num país com cada vez mais idosos e menos jovens, como tem se tornado o Brasil, essas tarefas de cuidado, quase sempre realizadas no domicílio e sem geração de renda, tendem a mobilizar cada vez mais os jovens?

Denise Guichard Freire – Sim, o envelhecimento populacional demandará mais tarefas de cuidados por parte das famílias e com certeza mobilizará jovens e adultos no cuidado dos idosos. Como os jovens ganham menos, eles tendem a ser designados para essa tarefa para que os adultos consigam permanecer no mercado de trabalho e manter a renda domiciliar.

Isso significa uma redução da oferta de força de trabalho disponível para trabalhar e uma possibilidade de redução na geração de renda da economia de um modo geral, se não houver ganhos de produtividade por parte da força de trabalho ativa. Para as próprias famílias, o envelhecimento populacional representa um aumento de custos com medicamentos, planos de saúde e com cuidados, se terceirizar esse trabalho, e uma redução do rendimento domiciliar per capita, ampliando certamente a parcela de jovens nem-nem principalmente entre as mulheres, que historicamente têm realizado o trabalho de cuidados de familiares.

 

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