Desemprego e a mobilidade social descendente da Geração Covid. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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16 Julho 2020

"Antes da pandemia, as gerações mais jovens já enfrentavam declínio da mobilidade absoluta: salários reais em queda, menos oportunidades, padrões de vida estagnados e até em declínio, e crescente espectro de retrocesso nas condições de vida. O grande perigo agora é que a Covid-19 possa mergulhar os jovens em um período prolongado de declínio da mobilidade social", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador titular da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate, 15-07-2020.

Eis o artigo.

“A sorrir
Eu pretendo levar a vida
Pois chorando
Eu vi a mocidade
Perdida”
Cartola (1908-1980)

A pandemia da covid-19 tem provocado uma grande crise sanitária, mas também um pandemônio econômico e social. A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) estimou que a taxa de desemprego nos países do grupo ficará em 10% no fim de 2020 e, com uma eventual 2ª onda de contágio da covid-19, poderá ir a 12%. Em maio, o percentual de desocupados chegou a 8,4%. Em quantidade de pessoas, alcançou a cifra de 54,5 milhões no último mês pesquisado pela OCDE.

Os percentuais atuais são superiores ao de fevereiro, quando o desemprego estava em 5,2%. No cenário mais otimista possível, o percentual de desocupados chegará a 9,4%, segundo a organização internacional. O nível supera também o pico registrado desde a Grande Depressão, em 1929. As evidências disponíveis também sugerem que os grupos vulneráveis ​​- os menos qualificados, jovens e migrantes – e as mulheres estão pagando o preço mais alto da crise. E são os jovens, a parcela da população mais afetada pela crise do mercado de trabalho, tanto na OCDE, quanto no Brasil.

Segundo relatório do FMI, o mundo vai enfrentar a maior recessão da história do capitalismo em 2020, com queda do PIB de cerca de 5% no mundo e 9% no Brasil. Estudo da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal, 21/04/2020) mostra que a pandemia da covid-19 pegou a América Latina e Caribe (ALC) em um momento de debilidade macroeconômica, pois, no decênio posterior à crise financeira de 2008/09, o continente apresentou em média o menor crescimento desde a década de 1950. A Cepal estima um aumento do desemprego e da pobreza e uma redução da renda per capita de todos os países da região, com uma queda do PIB, em 2020, de 5,3% na ALC e de 5,2% no Brasil. Os jovens serão os mais atingidos pelo desemprego e a falta de oportunidades de trabalho.

O gráfico abaixo mostra que a população de jovens de 15 a 24 anos subiu até 35 milhões em 2005 e começou a cair em seguida, enquanto a população de idosos subiu até 30 milhões em 2020 e continua subindo.

Imagem: EcoDebate

A população idosa aumenta cada vez mais o seu poder eleitoral e consegue conquistas como uma coberta ampla do sistema de aposentadoria, pensão ou proteção social (como Benefício de Prestação Continuada – BPC). Infelizmente, os jovens não possuem políticas desta magnitude para garantir empregos e geração de renda.

Se pelo lado da saúde a pandemia da covid-19 está impactando mais a população idosa, pelo lado econômico e social o novo coronavírus afeta mais os jovens. Dois professores da prestigiosa London School of Economics (Major, Machin; 2020) tem chamado a atenção para a falta de oportunidades para estes jovens que fazem parte da “Geração Covid”, jovens com menos de 25 anos que estão vivenciando um processo de mobilidade social descendente. Os autores consideram que antes da pandemia, as gerações mais jovens já enfrentavam declínio da mobilidade absoluta: salários reais em queda, menos oportunidades, padrões de vida estagnados e até em declínio, e crescente espectro de retrocesso nas condições de vida. O grande perigo agora é que a Covid-19 possa mergulhar os jovens em um período prolongado de declínio da mobilidade social.

Segundo o IBGE, no primeiro trimestre deste ano, 41,8% da população de 18 a 24 anos estava na categoria classificada como subutilizados — desempregados, mais aqueles que desistiram de procurar emprego ou trabalhavam por menos horas que o desejado na semana. As escolas estão fechadas por mais de um semestre e os prejuízos educacionais serão imensos. Além do mais, tem crescido os jovens nem-nem-nem (nem estavam na escola, nem no mercado de trabalho e nem estavam procurando emprego).

O Brasil está próximo da marca oficial de 2 milhões de infectados, já ultrapassou 74 mil mortes e tem atualmente menos da metade da população em idade ativa ocupada no mercado de trabalho. Isto é um grave problema na saúde e um grande desperdício do bônus demográfico. Mas o maior sofrimento vai ocorrer para a chamada Geração Covid, que terá uma mobilidade social descendente em relação à população idosa, que nasceu logo depois da Segunda Guerra Mundial.

Os jovens são o futuro de qualquer nação. Jovens sem futuro significa uma nação sem futuro. Uma geração perdida é uma calamidade social. É preciso evitar que a covid-19 destrua os sonhos de uma geração. O Brasil deve repensar suas políticas educacionais e de emprego se pretende resolver os anseios da juventude que deseja entrar na vida adulta com igualdade de oportunidades e com perspectiva de realização pessoal e social.

 

Referências:

ALVES, JED. Diário da Covid-19: homens idosos são as principais vítimas da pandemia, #Colabora, 23/06/2020. Disponível aqui.

Lee Elliot Major and Stephen Machin. Covid-19 and social mobility, London School of Economics, May 2020. Disponível aqui.

OCDE. Editorial: From recovery to resilience after COVID-19. Disponível aqui.

 

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