“Se os ricos acumularem as vacinas, a pandemia vai se arrastar”. Instituições católicas de saúde cobram liderança dos EUA para a distribuição global de vacinas

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22 Abril 2021

 

Dois problemas têm impedido que mais pessoas sejam vacinadas contra a covid-19 no mundo: o ceticismo e a escassez. Uma coalizão de 42 agências e provedores internacionais e domésticos de saúde, socorro e desenvolvimento lançaram neste mês uma carta sobre esses desafios. A coalização confronta a desinformação nos Estados Unidos e se preocupa com o fornecimento de imunizantes além-mar, onde às nações pobres foi alocada uma pequena fração das doses necessárias para reverter a pandemia.

A reportagem é de Kevin Clarke, publicada por America, 19-04-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O presidente e CEO da Catholic Relief Services, Sean Callahan, fez um forte apelo para uma prática moral de distribuição de vacinas, de forma rápida e equitativa, em entrevista a America. “Nós não vamos ter a pandemia sob controle nos Estados Unidos até que nós a tenhamos sob controle em todos os lugares”, afirmou, notando os persistentes picos de casos de covid-19 nos Estados Unidos e no mundo por causa da emergência de variantes da covid-19.

O pior cenário, diz ele, seria aparecer uma variante insensível às atuais vacinas. Quanto antes a disseminação da covid-19 for contida em todos os lugares, melhor será para todos, tanto nos países ricos quanto pobres.

 

Corrida da vacina

Mais de um ano em crise e meses depois de várias vacinas se tornarem amplamente disponíveis, as nações ricas não têm dado exatamente um bom exemplo sobre a distribuição eficiente de vacinas. Na grande corrida das vacinas de 2021, as grandes potências econômicas mundiais investiram e criaram vantagem nas compras das vacinas em produção, bloqueando até mesmo países de média-renda e deixando os de baixa-renda muito para trás. Os suprimentos foram fornecidos conforme a capacidade de pagar, não a necessidade, atrasando o que tinha sido uma ambição global de distribuir vacinas onde se poderia ter o maior efeito na eliminação da disseminação da Covid-19.

De acordo com uma análise do Instituto de Saúde Global Duke, um grupo de 16 países representando 16% da população mundial – que inclui EUA, Canadá, União Europa e Reino Unido – asseguraram mais de 50% das doses de vacinas disponíveis no mundo. Em meados de fevereiro, 10 países contabilizavam 75% das quase 200 milhões de doses aplicadas. Até julho, os Estados Unidos, sozinho, terão reservado mais de 300 milhões de vacinas do que necessita.

“Se o mundo rico continuar a acumular vacinas, a pandemia vai se arrastar por, talvez, mais sete anos”, alertou Gavin Yamey, professor de saúde global e diretor do Centro para Políticas de Impacto em Saúde Global, na Duke University.

Esse acúmulo representa mais que um lapso ético. Callahan destaca os custos humanitários adjacentes da pandemia nos países em desenvolvimento. “Uma pandemia sombria” agora acompanha a covid-19, disse ele, não apenas ameaçando um número maior de mortes diretas da covid em estados de baixa renda, mas também colocando em risco décadas de progresso na redução da pobreza e da doença, à medida que recursos são desviados para enfrentar a covid-19, tratamentos eletivos são adiados e outros programas de imunização suspensos.

“Nós estamos vendo menos crianças sendo vacinadas para o sarampo, poliomielite e outras doenças. Algumas dessas doenças podem reaparecer na agenda internacional”, afirmou Callahan, “e então, você sabe, elas ficarão a um voo de distância dos EUA”.

A falta de acesso às vacinas representa a maior ameaça à África Subsaariana e América Latina, reporta Chloe Noël, coordenadora do Projeto Ecologia-Economia-Fé para o Escritório de Assuntos Globais da Maryknoll.

“A variante 501Y.V2 [que foi descoberta primeiramente na África do Sul] aparenta ser mais contagiosa”, afirmou em e-mail a America. “Atualmente a variante P.1 [que foi descoberta primeiramente em Manaus, Brasil] está disseminada pela América do Sul e levando os sistemas de saúde ao ponto de colapso – mesmo no Chile, onde a vacinação tem sido um sucesso”.

A maioria dos países no mundo em desenvolvimento depende da Covax Facility, a coalizão para acesso global de vacinas contra a covid-19. Esse programa, patrocinado pela Organização Mundial da Saúde – OMS, Unicef, Aliança Global para Vacinas e Imunização e a Coalizão para Inovações Preparadas contra Epidemias, deveria ser um equalizador do acesso global às vacinas, mas tem sido subfinanciado pelos Estados mais ricos. Apenas 25% das doses foram disponibilizadas.

Até agora, garantiu cerca de 25 por cento das doses de vacina que se tornaram disponíveis. Os críticos afirmam que essa abordagem de “esmola” para adquirir vacinas de fabricantes com fins lucrativos e doações de Estados ricos nunca será adequada para o trabalho de distribuição de vacinas suficientes para suprimir a covid-19 no mundo em desenvolvimento.

O New York Times relata que até 30 de março, a Covax despachou cerca de 33 milhões de doses para 70 países e regiões, a maioria adquirida por meio de doações - “apenas 6% das 564 milhões de doses administradas em todo o mundo” (a sorte do programa pode estar mudando. Ele recebeu uma ajuda significativa em fevereiro do governo Biden, que prometeu 4 bilhões de dólares para apoiar a coalizão, revertendo a recusa do governo Trump em participar da Covax).

Mesmo que a Covax funcione como pretendido, observa Noël, o programa só fornecerá vacinas suficientes para atingir cerca de 20% da população dos Estados participantes, muito pouco para atingir a imunidade coletiva de 60 a 70% que os virologistas concordam que poderia deter a pandemia. Pior, segundo ela, alguns países da África não devem receber vacinas até 2023 ou 2024. “Preço, produção, distribuição e patentes são quatro das principais barreiras ao acesso global”, disse Noël.

Os estados africanos sofreram graves reveses no desenvolvimento econômico e humano devido à covid-19, mas até agora não experimentaram o nível de mortalidade atingido na Europa, Estados Unidos, Brasil, México e agora na Índia, que são os líderes globais no sofrimento pela covid-19. Mas isso pode mudar em questão de semanas, à medida que surgirem novas mutações.

Isso aumenta o risco e a preocupação dos prestadores de serviços de saúde na África. De acordo com Mary Beth Powers, a presidente e CEO do Conselho da Missão Médica Católica, cerca de 20 nações apenas na África “ainda não receberam qualquer vacina”.

E aqueles que receberam vacinas, ela apontou em um e-mail, estão apenas começando a chegar aos profissionais de saúde e aos idosos, mas “não têm nem de longe o número de doses necessárias para proteger suas populações”.

De acordo com Powers, a África do Sul atingiu o nível mais alto de cobertura de vacinação no continente, mas seus números são insignificantes em comparação com o que foi alcançado em estados mais ricos. De uma nação de 60 milhões, apenas 291 mil pessoas receberam a vacinação, isto é, 0,51% da população, relata. Em comparação, somente em 15 de abril os Estados Unidos aplicaram imunizantes em mais de 4 milhões de pessoas e mais de 38% de sua população recebeu pelo menos uma dose de vacina contra a covid-19; hoje, 24% estão totalmente inoculados.

Os países em desenvolvimento têm esperança que a Covax apareça, mas adquirir as doses é apenas o primeiro passo para a imunidade coletiva. “Os custos de entrega da vacina uma vez que eles estão no país podem ser mais de cinco vezes o custo da vacina”, disse Powers, explicando que os custos de alcance, armazenamento, mobilização e distribuição nos países devem ser considerados para as campanhas de vacinação terem sucesso.

 

Superando o “nacionalismo das vacinas”

Para enfrentar a crise de forma mais eficaz, os defensores têm pressionado pela suspensão das patentes de vacinas e dos processos de fabricação de vacinas; isso permitiria a produção regional de baixo custo de vacinas, melhorando simultaneamente as reservas de vacina e as linhas de distribuição. Essa posição é apoiada pelo Vaticano e endossada pelo Papa Francisco. Em seu discurso de Natal “Urbi et orbi” no ano passado, ele criticou o “nacionalismo da vacina” e disse: “Não podemos nos colocar antes dos outros, colocando as forças do mercado e as leis de patentes antes das leis do amor e da saúde da humanidade”.

Em uma declaração divulgada conjuntamente pela Caritas Internationalis e pelo Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral em fevereiro, as autoridades do Vaticano reclamaram que enquanto “as nações ricas do Norte Global” esperam “por um retorno sobre seu investimento… o Sul Global, onde vive a maioria dos pobres, é deixado de fora”. Eles pediram que as questões técnicas e de patentes sejam resolvidas e que locais de produção sejam estabelecidos na Ásia, África e América Latina para acelerar a produção de vacinas.

“Cada vida é inviolável, ninguém deve ser deixado de fora”, afirmaram as autoridades do Vaticano. “Os pobres, as minorias, refugiados, marginalizados são os mais expostos ao vírus... nosso bem-estar coletivo depende de como nós cuidaremos dos últimos”.

Essa mensagem foi enviada para o encontro da Organização Mundial do Comércio – OMC onde os negociadores europeus e estadunidenses discutiram sobre um apelo da África do Sul e da Índia – apoiado por países de baixa-renda – para temporariamente suspender patentes relacionadas às vacinas da covid-19. Oficiais da OMC prometeram voltar à questão do TRIPS (Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio) no encontro do próximo mês. O governo Biden tem aumentado a pressão para apoiar isenções de patentes de curto prazo conforme a disseminação da covid-19 se intensifica e o número de mortos aumenta no México, Índia, Brasil e outros estados menos ricos.

Enquanto as negociações sobre a suspensão de alguns direitos de propriedade intelectual continuam, Callahan do CRS cobra “compromisso” por parte das nações com reserva de vacinas, para pelo menos compartilhar seus excedentes “e então desafiar os outros Estados a fazerem o mesmo, para que então possamos começar a sair disso”. No que poderia ser um modelo para recursos compartilhados, os Estados Unidos recentemente “emprestaram” 4 milhões de vacinas AstraZeneca para o Canadá e o México, enquanto o imunizante espera pela aprovação da agência Food and Drug Administration para ser usado no país.

 

Campanhas virais de desinformação

Os perigos da desinformação sobre as vacinas já estão se tornando evidentes nos EUA, onde de acordo com a recente pesquisa da NPR/Maris, um em cada quatro estadunidenses diz que não planeja se vacinar contra a covid-19. Se esse nível de resistência à vacinação se mantiver, isso frustraria as ambições do governo Biden de atingir a imunidade de rebanho até o verão. Essa resistência também tem sido alta no Brasil e outros países já que as ansiedades sobre a segurança da vacina estão ligadas a teorias da conspiração para desencorajar a vacinação, mesmo que os casos de covid-19 ameacem sobrecarregar os sistemas de saúde.

Católicos defensores e provedores de saúde podem ser os únicos qualificados para divulgar a mensagem sobre a importância crítica dos programas de vacinação aqui e no exterior. Susan Gunn, a diretora do Escritório de Assuntos Globais de Maryknoll, descreveu os líderes religiosos como parceiros essenciais na resposta às crises de saúde pública, “principalmente no tratamento da desinformação e no estabelecimento de parcerias eficazes para o fluxo de informações”.

Os missionários da Maryknoll tornaram-se fontes confiáveis para pessoas “tão distantes como Camboja, El Salvador e Quênia” no enfrentamento do HIV, Ebola e outras crises de saúde nas últimas décadas, disse ela em um e-mail para a America.

“É natural sentir algum medo e hesitação em relação a uma vacina que é nova e que trata de uma doença tão grave como a covid-19”, disse ela. Mas o ceticismo pode ser particularmente profundo entre as comunidades de países em desenvolvimento, nas quais no passado mentiram sobre as vacinas dos governos ocidentais ou onde o medo das vacinas tem sido uma estratégia de campanha eficaz para os políticos locais.

Como a covid-19 é considerada apenas uma entre outras em uma hierarquia de ameaças às vezes mais mortais no mundo em desenvolvimento, a vacinação pode não parecer uma prioridade importante para alguns, observou o Callahan. Parte do esforço do CRS será direcionado à divulgação e educação para destacar a importância do tratamento com vacinas para a covid.

Ele suspeita que a maioria das pessoas assistidas pela CRS estará disposta a seguir as instruções do Vaticano sobre a aceitabilidade ética das próprias vacinas e a necessidade moral de receber um imunizante da covid-19, para proteger os vizinhos e servir à comunidade. Ele não prevê que as vacinas se tornem o problema “político” que às vezes ocorre nos Estados Unidos.

O ceticismo quanto à vacinação pode ser um obstáculo a ser enfrentado entre as pessoas atendidas pelo Serviço Jesuíta para Refugiados. Joan Rosenhauer, diretora-executiva do SJR nos EUA, apontou que 85% dos refugiados do mundo estão atualmente hospedados em Estados do mundo em desenvolvimento, muitos dos quais já carecem de suprimentos de vacina. “A maioria das pessoas que atendemos não tem acesso a uma vacina nem para expressar hesitação”, disse ela.

De acordo com um rastreio das Nações Unidas, cerca de 20 países iniciaram a imunização de refugiados de forma igual a seus cidadãos, mas que “mais de 170 deixaram os refugiados de fora da vacinação”, afirmou Rosenhauer. E para refugiados sem status legal, “postergar a vacina pode representar um risco inaceitável sem proteções claras contra prisões e deportações”.

Quebrar o bloqueio das patentes se torna de importância maior, concordam os defensores.

“A necessidade crítica imediata é de aplicar vacinas na maior quantidade e velocidade possível”, afirmou Noël. “Mas atualmente, os planos de fornecimento, podem não encontrar a demanda necessária para alcançar a imunidade de rebanho. Se os países tiverem acesso às patentes para produzir as vacinas, tratamentos e outros suprimentos para conter a pandemia, esse objetivo seria alcançado”, acrescentou Noël. “Isso também produziria mais empregos para conseguir recuperar a economia”.

“Os custos globais de prolongamento de uma pandemia têm tido baixos níveis de vacinação em certos ambientes e comunidades desfavorecidos, serão calculadas as vidas perdidas e a crescente disparidade econômica e pobreza”, disse Powers. “Como o Santo Padre nos lembrou, não é hora de pensar que podemos voltar a fazer as coisas da maneira antiga”.

“Esta pandemia”, disse ela, “nos convida a reconhecer nossa humanidade comum e nosso destino comum – ninguém está realmente seguro até que estejamos todos seguros”.

 

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