Escândalos de vacinas aumentam a tensão política na América Latina

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25 Fevereiro 2021

Como a violência, a corrupção e os escândalos das vacinas continuam a atormentar a América Latina, os bispos católicos estão pedindo para as pessoas evitar serem “tentadas pelo ódio”, e urjam pela paz, sem politizar a pandemia de covid-19.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 23-02-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Paraguai, um pedido por paz

O bispo Ricardo Valenzuela, no domingo, consagrou o povo paraguaio à padroeira nacional, Nossa Senhora de Caacupé, e pediu para a Mãe de Deus ajudar o país a superar o que ele definiu como um período de muita preocupação e tensão na ordem política, econômica e social.

O bispo de Caacupé também divulgou uma carta pastoral, na qual se refere a uma onda de violência extrema que está afetando o país, assim como a corrupção da classe dominante do Paraguai.

A considerável violência dos últimos meses, disse ele, são “reflexo de uma sociedade doente”.

Em acréscimo, Valenzuela apontou que todos no país sentem “a profunda corrupção em importantes esferas”, fazendo menção específica da força nacional de polícia.

Depois de um crescente número de casos de corrupção envolvendo autoridades públicas, o ministro do Interior anunciou na última semana que mudanças seriam feitas para tentar “melhorar os resultados”, reconhecendo que havia muitos casos de extorsão por autoridades policiais.

Independentemente dos desafios que o país enfrenta, Valenzuela disse, “o coração do Paraguai é grande, vimos isso antes e nos acontecimentos recentes”, inclusive durante uma série de tempestades e inundações que afetaram várias regiões do país: “Quanta solidariedade!”.

Por isso, exortou os fiéis a “engrandecer” esse coração, organizando uma rede forte e compacta que envolva todos os movimentos, grupos e associações laicais da Igreja, que se torne um instrumento para fomentar iniciativas que tragam esperança.

 

“Vacinagate” na Argentina e Peru

Os escândalos continuam a crescer devido ao que o presidente da conferência episcopal da Argentina chamou de “politização” da vacina da covid-19. Tanto na Argentina quanto no Peru, foi revelado que centenas de pessoas com laços com os governantes “furaram a fila” e pediram favores para obter a vacina.

No Peru, há uma lista de quase 500 pessoas que receberam a vacina antes do prazo, e antes de profissionais de saúde essenciais, incluindo o representante papal no país, o arcebispo Nicola Girasoli. O escândalo abalou o país e levou à demissão de mais de 100 funcionários públicos.

O escândalo, que se tornou uma bola de neve, começou no início de fevereiro, quando o ex-presidente Martín Vizcarra admitiu que ele, sua esposa e seu irmão haviam recebido a vacina chinesa Sinopharm em outubro.

As doses que receberam faziam parte de um lote de 3.200 enviado pela Sinopharm para complementar um ensaio clínico que estava conduzindo no Peru com cerca de 12 mil voluntários. O governo peruano, agora liderado pelo presidente interino Francisco Sagasti, assinou um acordo em janeiro para 38 milhões de doses da vacina da Sinopharm. Um milhão de doses chegaram em meados de fevereiro.

Mas o ex-presidente do país e sua família não foram os únicos a se beneficiar com as doses extras, e isso é o que gerou tumulto em um país que já viu mais de 45 mil pessoas morrerem com covid-19. Girasoli é, até agora, o único alto funcionário da Igreja envolvido no escândalo, e os próprios bispos locais não estão dispostos a lhe dar um passe por ter recebido isso como um “consultor de questões éticas” para uma das universidades que realizaram os ensaios clínicos.

Na Argentina, um escândalo semelhante derrubou o ministro da Saúde, Gines González García. O ministro da Saúde interpretou mal a crise do coronavírus em fevereiro de 2020, dizendo que era “apenas uma gripe” que nunca chegaria ao país e que seria um “fracasso” se atingisse 10 mil mortes. Até agora, mais de 51 mil pessoas morreram de covid-19.

González García montou um centro de vacinação “VIP” no Ministério da Saúde Nacional, e tudo veio à tona quando um jornalista pró-governo reconheceu no ar que havia chamado o seu “velho amigo” ministro e pedido a vacina. O político o adicionou à fila e o encaminhou ao ministério para recebê-la, onde pelo menos uma dúzia, mas provavelmente mais, de pessoas receberam a vacina antes de sua vez.

O arcebispo Oscar Ojea divulgou uma mensagem em vídeo no final da semana passada, como faz todas as semanas, e desta vez optou por enfocar os escândalos das vacinas: “Penso nas tentações que nós, argentinos, temos neste momento. Acho que temos a tremenda tentação de nos destruir e de boicotar o que pode ser bom para nós”.

E, a seguir, expressou seu desânimo com a revelação do favoritismo na aplicação da vacina da covid-19 e lembrou quais devem ser as prioridades em sua aplicação.

“Agora estamos perplexos com a politização da vacina”, disse o arcebispo de San Isidro. “Uma vacina que, como o Santo Padre nos disse repetidamente, deve ter um alcance universal, ninguém deve ficar sem, e aqueles que têm a responsabilidade de cuidados essenciais merecem recebê-la primeiro”.

“Com isso [a vacina] a gente tem que ter muita delicadeza”, disse Ojea, “porque é sobre vida ou morte. Quando nos deparamos com a possibilidade de nos sustentarmos na vida, isso não pode ser politizado. A vacina é para o bem de todos”.

O bispo, considerado muito próximo do Papa Francisco, convidou os argentinos a pedirem ao Senhor “que não ceda à tentação e à ruptura da divisão”.

 

Nicarágua, “tentada pelo ódio”

Dom Rolando Álvarez, um dos bispos mais jovens e novos da Nicarágua, disse no domingo que o país está mergulhado em uma grave crise social, política e humanitária.

Citando o Evangelho de Marcos, lido em igrejas de todo o mundo neste final de semana, que conta a história de Jesus indo ao deserto por 40 dias e sendo tentado pelo diabo, o prelado argumentou que a Nicarágua está passando por seu próprio deserto e é “tentada pelo ódio”.

“A Nicarágua vive seu próprio deserto: O deserto da provação, da crise social, política, econômica e de saúde causada pela pandemia”, disse o bispo durante sua homilia na catedral de San Pedro, em Matagalpa, ao norte de Manágua, capital do país.

O país está enrolado em uma revolta popular desde 2008, depois de uma série de controversas mudanças na seguridade social anunciada pelo presidente Daniel Ortega. A decisão foi abandonada pelo presidente, mas os danos estavam feitos. Mais de 300 pessoas foram mortas em confrontos com a polícia e exército, e mais de 30 mil fugiram para países vizinhos.

O governo classificou os protestos como uma tentativa de golpe, e o governo tachou os bispos católicos de “golpistas”.

A Nicarágua também está passando por uma crise de saúde devido à pandemia de covid-19. O governo negou que a doença exista no país e não tomou medidas para impedir a propagação do vírus.

“Há pobreza, dor, fome, solidão, às vezes confusão, moradores de rua, mulheres indignadas, crianças abandonadas”, disse Álvarez. “O deserto é um lugar de prova, aí encontramos Deus, em quem depositamos toda a nossa confiança e esperança”.

Para o prelado, a Nicarágua também está sendo “tentada pelo ódio, desesperança, medo”, acrescentando que “não devemos ceder a isso” porque “Deus está conosco”.

“A Nicarágua está sendo tentada pela ambição, liderança, interesses de grupo e interesses pessoais, por ideias alheias à nossa idiossincrasia, por uma certa surdez ou insensibilidade à realidade que vive o povo”, disse ele, acrescentando que o país também é tentado por “clãs e às vezes até intriga”.

O país está se preparando para as eleições nacionais, marcadas para 7 de novembro. Em sua mensagem quaresmal divulgada na semana passada, os bispos pediram uma reforma eleitoral que garantisse eleições livres e transparentes.

Ao apresentar a mensagem quaresmal, dom Carlos Avilés, que dirige a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Manágua, disse que as reformas são necessárias para evitar a fraude eleitoral.

“O apelo é pela paz, é pela não violência e por tudo o que contribui para o bem comum, neste caso a reforma eleitoral, para que as eleições sejam autenticamente credíveis e transparentes, senão estamos a voltar a outra fraude”, disse Avilés.

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