Quem são, o que pensam e como atuam os movimentos antivacinas. Entrevista com Florián Cafiero

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22 Janeiro 2021

Na ciência e na medicina há muitos temas que merecem ser debatidos e analisados criticamente, mas as vacinas não são um deles. Poucas conquistas sanitárias demonstraram uma eficácia tão categórica e um benefício social tão amplo em nível mundial. A invenção das diferentes vacinas salvou milhões de vidas na história da humanidade, erradicando doenças como a varíola ou a poliomielite, controlando outras e melhorando a qualidade de vida de milhões de pessoas.

No entanto, os movimentos antivacinas são tão antigos como as próprias vacinas. Por motivos religiosos ou políticos, crenças em teorias da conspiração, fundamentos ambientalistas ou simples ceticismos, pequenos setores de cada sociedade têm sido detratores das vacinas, negando-se às injeções.

Em tempos de pandemia e infodemia, os argumentos antivacinas ganham terreno dentro da opinião pública. Estes discursos colocam em risco a situação sanitária, já que o ato de se vacinar é uma decisão individual que incide no ambiente social. Optar por não se vacinar priva a possibilidade de conseguir “a imunidade de rebanho” e expõe aqueles que por diferentes motivos não podem se vacinar.

Para entender o movimento antivacinas, o jornal Página/12 conversou com o sociólogo da Sorbonne e pesquisador no Centro Nacional de Pesquisa Científica, Florián Cafiero, que é coautor de três trabalhos sobre a desconfiança em relação às vacinas, realizados em 2011, 2019 e 2020. Cafiero explica como estes grupos são formados, quais são seus fundamentos, que estratégias os diferentes governos devem tomar para evitar que seus argumentos sejam legitimados e quem são os que capitalizam com o crescimento deste movimento.

A entrevista é de Marcos Principi, publicada por Página/12, 16-01-2021. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Por que crescem os movimentos antivacinas em meio a uma das pandemias mais letais do mundo?

Com as diferentes epidemias, como a gripe suína ou o sarampo, começaram a ressurgir as controvérsias em torno da vacinação. A forte cobertura midiática do tema volta a colocar em primeiro plano os atores que podem semear dúvidas na população e tornam a projetar diferentes temas sensíveis como os vínculos entre o Estado e as empresas farmacêuticas, as acusações de efeitos secundários das vacinas, etc. Particularmente, com a pandemia do coronavírus, tanto a doença como a vacina são percebidas como novas. Todos estes elementos podem causar medo ou, no mínimo, gerar dúvidas e hesitação na população.

Quem são os que integram os grupos antivacinas?

Em geral, são grupos heterogêneos, existe uma grande diversidade entre as pessoas que acreditam que as vacinas são perigosas. É claro, há movimentos radicais, que geralmente se negam à vacinação por considerá-la ineficaz e/ou perigosa. As fortes crenças religiosas, a convicção de que a medicina alternativa é a melhor maneira de tratar doenças ou a adesão às teorias da conspiração costumam estar muito presentes nestes grupos.

Também há setores críticos moderados que pedem para “ecologizar as vacinas” retirando só algum dos elementos que as compõem. Estes setores moderados costumam ter uma mensagem menos radical, razão pela qual chegam aos meios de comunicação com maior facilidade.

Finalmente, é fundamental entender que uma grande parte da população que se nega a se vacinar não necessariamente adere às teorias dos antivacinas. Muitas vezes, são vítimas de uma informação prolixa em torno da vacinação. Uma controvérsia escutada nos meios de comunicação pode ser o suficiente para semear a dúvida.

Quem está capitalizando com estes movimentos contra as vacinas?

Antes da pandemia do coronavírus era bastante difícil caracterizar politicamente os antivacinas. Os setores mais radicais muitas vezes provêm da extrema direita, da ecologia ou de certos movimentos de extrema esquerda. Com a pandemia do coronavírus, as coisas estão mudando. A rejeição em se vacinar costuma ser uma negação em cumprir as instruções dos governos que se considera que estão gerindo mal a crise em geral. Portanto, os partidos de oposição, especialmente os mais radicais, podem se ver tentados a capitalizar com a retórica antivacinas.

Na França, 75% dos partidários de Emmanuel Macron dizem querer se vacinar contra o coronavírus, entre os simpatizantes de Marine Le Pen, ao contrário, menos de 40% da população planeja se vacinar.

Quais são os principais argumentos destes movimentos?

Em geral, os antivacinas jogam principalmente com o medo dos efeitos secundários. Em muitos países do mundo, as conclusões do famoso artigo retratado de Andrew Wakefield, que relaciona a vacinação com o crescimento do sarampo e o autismo, são as mais utilizadas. Na Alemanha e França, centram-se mais do que em outros lugares na presença de alumínio nas vacinas, acusado pelos antivacinas de desencadear miofasceíte macrofágica.

Em relação aos seguidores das teorias da conspiração, veem as vacinas principalmente como o resultado de negociações entre os governos com a “Big Pharma” para obter lucros à custa da população. Também podem inventar teorias mais disparatadas como a de que existem chips nas vacinas ou de que estas modificam o nosso material genético.

No caso da vacina contra o coronavírus, são acrescentados outros argumentos. Os partidários da cloroquina, uma molécula popularizada por Donald Trump, pensam que a vacina é inútil porque já existe um remédio efetivo contra a doença. Outros também dizem que os governos superestimam o perigo da Covid-19 para nos controlar melhor. Segundo eles, o coronavírus não passa de uma gripe, não valendo a pena se vacinar por tão pouco.

Como se difunde o argumento contra as vacinas?

Os antivacinas estão muito presentes na internet em geral e nas redes sociais em particular. Os mais radicais costumam publicar absolutamente qualquer conteúdo, sem importar de onde vem, sempre que haja ao menos uma frase ou duas contra as vacinas. Há muita atividade antivacina na internet. São conteúdos muito vistos e valorizados.

No entanto, não é certo que todos os que compartilham os diferentes conteúdos acreditam plenamente neles. Por exemplo, as teorias que vinculam o 5G ao coronavírus foram muito populares nas redes sociais, os vídeos de Youtube que falam deles tiveram milhões de visitas, mas quando realizamos pesquisas na população ninguém apontava que acreditava naqueles fundamentos.

Como surge e por que cresce a desconfiança em relação à ciência e a medicina?

A desconfiança na ciência, nas instituições, nos meios de comunicação e nas autoridades em geral é um dos temas fundamentais desta crise. Isto é o que torna pessimista a ideia de contar com a solução para este problema a curto prazo. As causas da suspeita em relação à vacina coronavírus se relaciona a uma manifestação de incredulidade nas instituições. Restaurar essa confiança perdida pode ser um processo longo e complicado.

A desconfiança em relação à medicina cresce inexoravelmente. Nasce de diversas crises e escândalos nos quais a disciplina perdeu o seu brilho. O poder dos laboratórios ou dos governos em manter os escândalos de saúde fora do conhecimento público assustam e corroem a confiança das pessoas. A crescente mercantilização da medicina em alguns países, seu alto custo e a impressão de que as instituições médicas têm como objetivo o lucro antes que a saúde são todos componentes, mais ou menos importantes, da perda de confiança na medicina.

Que estratégias devem adotar os diferentes governos para impedir que os argumentos críticos contra as vacinas sejam legitimados?

O problema com as crenças radicais é que é necessário muito tempo para mudá-las. Não é algo específico só ao tema das vacinas. A curto prazo, precisamos ter claro que a maioria das pessoas radicalmente hostis às vacinas contra o coronavírus não mudará de opinião. Até mesmo quando a realidade persiste em demonstrar o erro, estes grupos seguirão acreditando no que optaram por acreditar e que defendem publicamente.

Por outro lado, convencer a parte da população que só duvida é crucial. Refutar firmemente os argumentos contrários às vacinas é parte da solução. Mas é ainda mais importante criar um clima de confiança em torno das instituições e os médicos. É preciso dar à população boas razões para confiar nas instituições.

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