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27 Novembro 2020

“As tendências autoritárias não são patrimônio daqueles que são a favor do protagonismo dos Estados (tudo depende de que Estado estamos falando), nem nasceu com a pandemia. A atual onda neofascista e autoritária precede o próprio surgimento da Covid-19. Mas ambos são a consequência de uma realidade destrutiva baseada na acumulação infinita dos poderes financeiros e das seitas corporativas”, escreve Jorge Majfud, escritor uruguaio e professor na Jacksonville University, em artigo publicado por Página/12, 25-11-2020. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

No dia 11 de março de 1889, o agora esquecido ex-presidente dos Estados Unidos, Rutherford Hayes, escreveu em seu diário: “No Congresso Nacional e nos parlamentos estaduais, são aprovadas centenas de leis ditadas pelo interesse das grandes empresas e contra os interesses dos trabalhadores... Este não é o governo do povo, pelo povo e para o povo. É o governo das corporações, pelas corporações e para as corporações”.

Três anos depois, explodiria a maior crise econômica do século XIX e quarenta anos mais tarde, pelas mesmas razões, a maior crise do século XX, que seria mitigada pelas políticas sociais do presidente F. D. Roosevelt.

Trinta anos a mais e o neoliberalismo dos Milton Friedman contra-atacaria para reverter estas “políticas socialistas” (segundo as acusações da época) que tinham salvado milhões de trabalhadores da fome e os Estados Unidos da desintegração.

No dia 18 de julho de 2019, o USA Today publicou uma pesquisa sobre a dinâmica da democracia estadunidense. Só em um período de oito anos, os congressos estaduais dos 50 estados da nação tinham recebido 10.163 projetos de leis escritos pelas grandes corporações, dos quais mais de 2.100 foram aprovados.

Em muitos casos, tratou-se de um simples copia-e-cola com pouquíssimas alterações. Nada novo e, muito menos, obsoleto. Sequestrar o progresso da humanidade sempre foi uma especialidade das todo-poderosas companhias privadas que depois reivindicam todo o crédito do bem-estar alheio e do bem moral próprio.

Ao longo da história, frequentemente, as pandemias mudam formas de ver o mundo e derrubam verdades inquestionáveis. Embora tudo dependa da gravidade e do tempo que durar o que nos ocupa agora, caso não derrube o muro neoliberal, ao menos deixará sua pegada nas políticas sociais, na forma de gerir as necessidades humanas, que não podem ser resolvidas pela mão invisível do mercado, nem pela visível miopia do interesse próprio.

Também ajudará a confirmar a consciência de que ninguém pode se defender de um vírus com as armas, nem com os exércitos mais poderosos do mundo, razão pela qual logo uma nova maioria em países belicosos, como Estados Unidos, talvez comece a questionar o sentido dos gastos astronômicos com alguns e o desprezo tradicional com outros.

Uma consequência indesejada, segundo a advertência de diversos críticos e analistas, seria o aumento dos Estados autoritários. Esta probabilidade, além de real, é também uma antiga expressão de outro autoritarismo que domina as narrativas e os medos há muitas gerações e que, por isso mesmo, não se reconhece como autoritarismo.

Este medo e esta advertência não são altruístas, nem inocentes. São uma herança que provém do modelo capitalista em suas variadas formas, que precisa demonizar tudo o que está nas mãos dos governos, dos sindicatos, das organizações sociais e até das pequenas empresas familiares ou comunitárias, e diviniza a ditadura das megacorporações privadas.

As tendências autoritárias não são patrimônio daqueles que são a favor do protagonismo dos Estados (tudo depende de que Estado estamos falando), nem nasceu com a pandemia. A atual onda neofascista e autoritária precede o próprio surgimento da Covid-19. Mas ambos são a consequência de uma realidade destrutiva baseada na acumulação infinita dos poderes financeiros e das seitas corporativas, de sua insaciável sede de lucros, de poder e de uma cultura consumista que, assim como um indivíduo doente, foi mudando de forma progressiva o prazer de um vício pela depressão e o suicídio.

Nas classes excluídas (ou seja, na maioria do povo), a resposta emocional e errática dos grupos fragmentados tenta preencher este esvaziamento de sentido social, individual e existencial com as cores de uma bandeira ou de uma seita, com o repetido efeito de desprezo e até de ódio por todas as outras coisas que não estão dentro de seu pequeniníssimo círculo (os outros excluídos), que confundem com uma verdade universal que, supõem, só eles têm acesso de forma mágica, secreta e excludente. A distração perfeita.

Esta nova crise provou não só a crônica ineficácia dos modelos neoliberais para enfrentar um problema global e até nacional, não só revelou a superstição inoculada nos povos (“o setor privado faz tudo melhor”, “livre empresa e liberdade são a mesma coisa”), mas também é a própria causa do problema. A pandemia não pode ser desvinculada de seu marco geral: o consumismo e a crise ecológica.

Embora em suas origens o capitalismo significou uma democratização da velha e rígida sociedade feudalista (o dinheiro aumentou a mobilidade dos comuns), logo se tornou um sistema neofeudal em que as seitas financeiras e empresariais, formadas por poucas famílias, acabaram concentrando e monopolizando as riquezas das nações, dominando a política dos países por meio de seus sistemas democráticos e, inclusive, prescindindo totalmente desta formalidade.

Quem vota nos donos dos capitais, nos gerentes dos bancos nacionais e internacionais, nas transnacionais que se arrogavam e se arrogam o direito de perseguir ou derrubar governos e movimentos populares em países distantes? A essa longa história de autoritarismo, agora é preciso acrescentar a ditadura mais amável e mais sexy de gigantes como Google, Facebook, Twitter e outros meios com os quais a maioria no mundo vive, se informa e pensa.

Que povo votou neles? Por que os governos democráticos têm tão pouca decisão em escolhas que afetam milhares de milhões de pessoas? A que interesses servem, além de sua própria classe ultramilionária em nome da democratização da informação? Existe algo mais demagógico do que isto?

Como fazem para adivinhar o que dois amigos conversaram na tarde anterior, escalando uma montanha ou caminhando por uma praia sem usar nenhum instrumento eletrônico? Adivinham (ideias, desejos) o que eles próprios induziram. Essas duas pessoas apenas percorriam um caminho estabelecido ou previsto pelas corporações que conhecem até o que um indivíduo pensará em um mês, em um ano, como se fossem deuses.

O domínio é de tal grau que os povos de baixo, presos no consumo passivo e sem nenhum poder de decisão sobre os algoritmos, as políticas sociais e a ideologia que regem seus desejos, são os primeiros a defender com fanatismo a ideia de “liberdade individual” e dos benefícios que procedem destes deuses onipresentes.

Ou seja, o medo de que caminhamos para um totalitarismo estatal procede, em grande medida, do interesse contrário: o medo do autoritarismo corporativo de que os Estados possam, de alguma forma, vir a regulamentar seus tradicionais e altruístas abusos de poder.

 

 

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