“Joe Biden segue uma lógica socialdemocrata”. Entrevista com Anton Brender

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15 Novembro 2020

Após inúmeras reviravoltas em alguns Estados-chave, e apesar dos repetidos apelos de Donald Trump no Twitter para interromper a contagem dos votos devido a supostas alegações de fraude, Joe Biden foi finalmente eleito 46º Presidente dos Estados Unidos. Com o atual presidente e concorrente ainda não reconhecendo a vitória do rival, a transição será difícil.

A entrevista é de Aude Martin, publicada por Alternatives Économiques, 12-11-2020. A tradução é de André Langer.

Não obstante, Joe Biden começa a esboçar sua visão de uma nova América, que deseja pacífica e unida, como destacou em seu discurso de vitória – proferido, obrigado pela crise de saúde, diante de um público que se encontrava em seus carros. O que sua eleição vai mudar para os cidadãos americanos, para o resto do mundo e na luta contra as mudanças climáticas?

Anton Brender, economista-chefe da Candriam, autor de L’économie américaine (A economia americana, Editions La Découverte, 2018) com Florence Pisani, nos responde.

Eis a entrevista.

Como você qualificaria a linha política defendida por Joe Biden?

Ele é um homem que tentará apaziguar o debate político e buscará reunificar o país. Ele também está determinado a promover uma causa negligenciada há décadas, a da igualdade racial, e a reverter os retrocessos de Donald Trump em matéria de saúde e de política climática. Após quatro anos de uma presidência atípica, os Estados Unidos puderam mais uma vez avançar no caminho do progresso social.

Alguns dentro do Partido Democrata consideram que Joe Biden não está suficientemente à esquerda, não é radical o suficiente em sua oposição ao capitalismo. Isso é verdade. Mas, atualmente, nos Estados Unidos, não se pode ser radical e querer unificar: Biden é antes de tudo um homem de compromissos. Em Capitalisme et progrès social (Capitalismo e progresso social, Éditions la Découverte, 2020), tentei explicar que podemos promover o progresso social enquanto nos acomodamos ao capitalismo, desde que apenas imponhamos restrições legais, fiscais, ambientais... que o obrigam a avançar nessa direção. A perspectiva de Joe Biden segue essa lógica, a da socialdemocracia.

Quais foram as principais promessas de campanha de Joe Biden? Ele falou muito sobre a necessidade de reconstruir uma classe média americana. O que isso realmente significa?

Para recriar uma classe média, Joe Biden tentará primeiro aumentar o poder de compra dos americanos menos afortunados. Durante várias décadas, os salários de metade dos empregos americanos não aumentaram, em termos reais: a concorrência internacional, a insuficiência de qualificações deixavam os que ocupavam esses empregos com um poder de negociação muito baixo. Para reverter permanentemente essa tendência, ele vai aumentar o salário mínimo [o programa do candidato prevê um aumento gradual do salário mínimo federal para 15 dólares por hora, mais que o dobro do valor atual de 7,25 dólares, nota do editor] e tentar empoderar novamente os sindicatos, cuja presença nas empresas tem se enfraquecido continuamente nas últimas décadas. Se for bem-sucedido, pode ajudar a compensar, pelo menos em parte, o fraco poder de negociação individual dos trabalhadores em muitas empresas.

Além disso, isso merece destaque, o Fed o ajudará a caminhar nessa direção. O banco central americano de fato anunciou neste verão novos objetivos para sua política. O banco não apenas poderá, após anos de inflação muito baixa, tolerar durante algum tempo uma inflação acima da meta de longo prazo (2%), como também redefiniu seu objetivo de pleno emprego: a partir de agora, considerará esse objetivo alcançado quando perceber uma melhoria das condições de vida não apenas em média para todos os americanos, mas quando estas se espalharem para todos os grupos sociais, incluindo os mais desfavorecidos.

Isso exigirá manter a taxa de desemprego mais baixa do que foi até agora. De fato, somente uma elevada tensão no mercado de trabalho poderá levar a um aumento dos salários dos trabalhadores com menor poder de negociação, como é o caso dos negros ou dos latino-americanos em particular.

Trump havia prometido um plano de infraestrutura antes de sua eleição em 2016. Nada foi realizado. Joe Biden também está planejando um plano deste tipo. O que podemos esperar?

Joe Biden não pretende reconstruir uma classe média apenas tentando acelerar o crescimento dos baixos salários do setor privado. A política do Estado federal também deve participar ativamente dessa reconstrução, contribuindo direta e indiretamente para a criação de empregos de qualidade em solo americano. Seu programa Build Back Better prevê investimentos públicos massivos em infraestrutura, que terão como alvo principal o “verde” e o “digital”.

E ele não pretende apenas, como prometeu Donald Trump, reconstruir estradas ou aeroportos (que de fato precisam!). Ele também quer consolidar e expandir as infraestruturas sociais, em particular o sistema educacional. Em suma, são os suportes essenciais da vida em sociedade e do dinamismo de uma economia que pretende consolidar e é também através dela que espera recriar os empregos que garantirão a uma maioria de americanos uma vida decente.

No âmbito fiscal, quais medidas foram anunciadas durante a campanha?

Joe Biden quer aumentar o imposto sobre as empresas para 28%, quando a arma fiscal de Donald Trump foi baixá-lo de 35% para 21%. O que Biden está propondo ainda não é um retorno à situação anterior a Trump, mas é uma meia-volta na direção certa. Pois, lembremo-nos também, a diminuição ocorrida está longe de ter produzido o boom de investimentos anunciado pelos republicanos.

No que se refere à tributação das famílias, ele quer, também aqui, reverter o rumo das medidas aprovadas há quatro anos, aumentando a carga tributária sobre rendas muito altas: prometeu que todos aqueles que ganham menos de 400 mil dólares por ano não vão pagar mais nada ao Estado federal. Inversamente, aumentará a alíquota de impostos e contribuições sociais de quem ganha mais [Joe Biden pretende elevar a alíquota da última faixa de imposto de renda de 37% para 39,6%, nota do Editor].

Do ponto de vista da saúde, o que o democrata prevê?

A curto prazo, ele gostaria de conseguir impor o uso de máscara – a oposição entre os dois candidatos cristalizou-se neste ponto! – e desenvolver as capacidades de teste.

Acima de tudo, ao contrário de Donald Trump, Joe Biden quer que a pandemia seja levada a sério no nível do Estado federal e que as medidas preconizadas repousem em bases científicas e não no humor e nas intuições, para dizer o mínimo, de um presidente. Ele sabe, é claro, que no curto prazo o distanciamento social imposto pela pandemia pesa sobre setores da economia – a hotelaria e a alimentação... – nos quais trabalham muitos dos americanos menos afortunados.

A prioridade orçamentária dos democratas será a aprovação da Lei CARES [sigla em inglês para lei de Auxílio ao Coronavírus, Alívio e Segurança Econômica], aprovada com urgência na primavera pelo Congresso, que melhorou substancialmente a compensação dos desempregados, incluindo aqueles que não tinham um trabalho assalariado e que até então não eram indenizados. Isto é crucial porque, em 31 de dezembro, todas as medidas de ajuda decididas na primavera terão expirado, embora vários milhões de trabalhadores ainda não tenham encontrado trabalho.

No sistema de saúde americano de forma mais ampla, Biden quer consolidar o Obamacare, contra o qual Donald Trump e o Partido Republicano lutaram durante quatro anos, sem conseguir questioná-lo. Joe Biden, no entanto, não vai tão longe a ponto de oferecer seguro saúde universal, como queria a ala esquerda de seu partido e especialmente Bernie Sanders, seu principal rival nas primárias democratas. Cada cidadão poderá continuar a escolher o seu programa de seguro e ter acesso a benefícios que variam de acordo com a sua renda... mas o Estado federal o ajudará a fazê-lo, se necessário através de subsídios e, sobretudo, garantindo que uma opção seja acessível a todos, qualquer que seja seu estado de saúde.

Joe Biden pode colocar os Estados Unidos de volta na corrida contra o aquecimento global, apesar das feridas abertas deixadas por Trump nesta área?

Ele pretende retornar imediatamente ao Acordo de Paris. Ele também pode indicar pessoas para as agências governamentais que compartilhem sua visão e pedir-lhes que ajam de forma a limitar as emissões de gases de efeito estufa. Trump fez muitas desregulamentações no campo ambiental durante seu mandato, usando seus poderes executivos. Em muitos casos, Biden pode fazer o mesmo. Pelo menos parte do que foi desfeito ainda pode ser refeito!

Uma palavra foi martelada pelo candidato democrata nas últimas semanas da campanha: a da “ciência”. Joe Biden quer se apoiar na ciência, tanto para enfrentar a crise da saúde, como o aquecimento global.

Fora do cenário doméstico, podemos esperar que as relações com o resto do mundo se tornem mais apaziguadas?

Com certeza. Joe Biden tem um bom conhecimento das relações internacionais. Ele o adquiriu no tempo em que foi senador e nos oito anos em que foi vice-presidente de Barack Obama. Ele sabe que os Estados Unidos não podem continuar a discutir com o resto do mundo como fez Donald Trump. Ele deve normalizar e distender as relações com os parceiros de Washington, o que não significa que as diferenças entre os Estados Unidos e o resto do mundo serão resolvidas. As tensões com a Europa, nos setores da aviação e automotivo, por exemplo, não vão desaparecer num passe de mágica.

Donald Trump trouxe de repente à luz um problema que também não vai desaparecer: a vulnerabilidade estratégica que resulta das importações de equipamentos de comunicação da China. Durante muito tempo, os Estados Unidos e os países ocidentais em geral aceitaram negociar livremente apenas com países que não podiam ser inimigos potenciais. Não é o caso da China; ela nunca foi aliada dos americanos, e estes, em duas décadas, tornaram-se, no entanto, extremamente dependentes do país asiático. A Europa está na mesma situação de vulnerabilidade. Depois de anos importando roupas da China, não percebemos as consequências de sua mudança gradual para o setor muito mais sofisticado das tecnologias da informação.

Isso significa que a guerra comercial com a China e a imposição de tarifas adicionais podem continuar pelos próximos anos?

Penso que não, porque as tarifas não são realmente o cerne da questão. O que se quer limitar hoje, tanto nos Estados Unidos como na Europa, já não é tanto a concorrência “desleal” da China, mas sim a sua penetração em áreas que têm uma dimensão estratégica. O caso Huawei, empresa que Donald Trump queria banir do continente americano, ilustra isso perfeitamente.

A eleição de 3 de novembro não foi apenas a do novo presidente dos Estados Unidos, mas também a do Senado e da Câmara dos Representantes. Os democratas manterão a maioria na Câmara, mas o destino do Senado ainda não está determinado. Quais seriam as consequências para Joe Biden caso o Senado permaneça republicano?

Os democratas viram sua maioria na Câmara dos Representantes encolher, mas eles conservam a maioria. No Senado, a margem é mais apertada: os resultados até agora dão a cada partido 48 representantes. Os dois últimos senadores serão escolhidos em um segundo turno na Geórgia, no dia 3 de janeiro. Se os democratas ganharem as duas cadeiras em jogo, eles terão maioria, já que o voto de Kamala Harris que vai presidir a câmara alta será somado ao dos senadores democratas. Caso contrário, voltaremos à situação atual, ou seja, um Senado republicano e uma Câmara democrata. No entanto, Joe Biden precisa de uma maioria no Senado para aprovar leis, caso contrário, só poderá tomar por decreto presidencial as medidas que não tenham implicações orçamentárias [que não geram despesas ou receitas adicionais, nota do Editor]. Foi o que aconteceu durante a última presidência de Barack Obama.

É claro que podemos esperar que Biden consiga, em algum momento, pacificar o debate político a ponto de conseguir reunir maiorias bipartidárias neste ou naquele projeto. Existem visões tão diferentes dentro do Partido Republicano que não se pode descartar que vários senadores não sigam sistematicamente a “linha do partido”.

Isso está longe de ser garantido, pois seria o contrário do que se observou nos últimos dez anos. E sob o governo Trump, as posições partidárias se endureceram ainda mais do que durante o segundo mandato de Obama.

Apesar da gestão devastadora da crise de saúde, Trump consegue uma boa pontuação eleitoral. Isso pode parecer surpreendente do ponto de vista europeu. Existe uma corrente trumpista que corre o risco de continuar?

De fato, existe hoje uma corrente trumpista na população americana. Nela se encontram pessoas que perderam os empregos, na maioria das vezes empregos industriais, o que durante muito tempo garantiu a quem os ocupava um padrão de vida confortável próprio da classe média. Principalmente branca e desprovida de ensino superior, essa parte da população vê o exterior – suas exportações, seus migrantes – como uma fonte de ameaças. Esses cidadãos que se sentem rebaixados, seduzidos pela proteção que Donald Trump lhes prometeu, vieram para ampliar a tradicional base eleitoral do Partido Republicano.

Por outro lado, e isso é à primeira vista mais surpreendente, parte da minoria latino-americana também votou em Donald Trump este ano. Menos por questões econômicas e sociais do que o fato de que o Presidente cessante encarna, na sua percepção, a defesa de valores religiosos que consideram essenciais, como a proibição do aborto. Essas minorias, muitas vezes desfavorecidas, também não estavam acostumadas a votar nos republicanos e agora se encontram, paradoxalmente, apoiando um presidente que defende a restrição da imigração.

Essas contribuições permitiram a Donald Trump angariar mais votos hoje do que em 2016! Unificar uma América que nunca esteve tão dividida e evitar que essa divisão coloque em risco a paz civil, não será tarefa fácil.

O que acontecerá nas próximas semanas?

Três meses ainda nos separam da posse, em 20 de janeiro, de Joe Biden. Portanto, é difícil imaginar que até lá grandes mudanças possam ocorrer, especialmente sem a cooperação do presidente cessante e do Partido Republicano.

As urgências são, porém, óbvias, em termos de luta contra a pandemia, certamente, mas também orçamentárias. Se uma lei orçamentária não for aprovada antes de 11 de dezembro, os Estados Unidos voltarão a ser ameaçados por um “shutdown”, ou seja, o fechamento de algumas administrações por falta de recursos. Duas soluções são possíveis. Ou as oposições entre os partidos diminuem um pouco e uma maioria se forma no Congresso em torno de um orçamento que inclui uma extensão das medidas da Lei CARES para ajudar os desempregados e as comunidades locais; ou, e é mais provável, uma resolução com vistas a estender o orçamento do ano passado por alguns meses seja aprovada.

De qualquer forma, até o início do próximo ano, o poder de Joe Biden repousará principalmente no seu poder de persuasão e no seu talento de negociador.

 

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