Sem frear mudanças climáticas, humanidade sofrerá com desigualdades e novas pandemias. Entrevista especial com Wagner Ribeiro

Para o professor, a eclosão da covid-19 não surpreende e tem relação direta com a ação do homem sobre o planeta

Foto: Pixabay

Por: João Vitor Santos | 20 Agosto 2020

“Quem acompanha as discussões socioambientais há décadas não ficou surpreso com a eclosão da pandemia. Ela estava prevista, só não sabíamos exatamente quando ocorreria.” A observação é do geógrafo e professor na USP Wagner Ribeiro. Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele explica que não há como descolar esse acontecimento que parou o planeta da ação humana na terra. “Os estudos sobre mudanças climáticas e os que tratam do desmatamento apontavam essa possibilidade”, acrescenta.

 

Segundo ele, nessas pesquisas há dados de que o derretimento de áreas geladas pode trazer outros problemas além da elevação da temperatura global. “Entre os efeitos do aquecimento global está a intensificação do derretimento de geleiras, mas também do permafrost, solo congelado que ocorre em baixas latitudes. Desse modo, vírus e bactérias que estavam congelados voltam à superfície terrestre e podem infectar tanto seres humanos quanto outros animais”, explica. Isso tudo sem falar nos desmatamentos, pois “a diminuição das áreas com cobertura vegetal original causada pelo desmatamento enfraquece, quando não elimina, barreiras geográficas que nos distanciam de micro-organismos”.

 

Por fim, sem conter o desequilíbrio ambiental, se tivermos muita sorte e não formos assolados por outras pandemias, nossa sociedade também terá de lidar com o aumento ainda maior das desigualdades. “Os países de renda mais baixa serão os mais afetados pelos efeitos do aquecimento global. Nunca é demais relembrar que as alterações nos padrões de chuva podem causar períodos de elevada pluviosidade ou secas severas e prolongadas”, aponta. E secas que, por final, “levam à migração forçada, inclusive internacional, o que causa tensões entre diferentes unidades geográficas”.

 

Wagner Ribeiro (Foto: IEA | USP)

Wagner Costa Ribeiro é geógrafo, formado pela Universidade de São Paulo - USP. Possui doutorado em Geografia Humana pela mesma instituição, e é professor titular do Departamento de Geografia, do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da USP. Ainda realizou estudos de pós-doutorado na Universidad de Barcelona, também tendo atuado como professor visitante na Universidad de Salamanca, Universidad de Sevilla e na Universidad de Caldas. É coordenador da Área Temática Águas Transfronteiriças da rede de pesquisa Waterlat. É um dos autores de Livro branco da água. A crise hídrica na Região Metropolitana de São Paulo em 2013-2015: origens, impactos e soluções (São Paulo: Instituto de Estudos Avançados, 2018).

 

 

Nesta quinta-feira, dia 20 de agosto, Ribeiro será o palestrante do IHU Ideias. A conferência “O Novo Marco do saneamento. Privatização, Desigualdades e Invisibilidades dos Direitos Humanos” será transmitida no formato ‘live’, a partir das 17h30min.  

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Como a experiência da pandemia causada pelo novo coronavírus pode impactar a relação entre seres humanos e meio ambiente?

Wagner Ribeiro – Apesar da desinformação gerada por inúmeras notícias falsas sobre a covid-19, acredito que a situação que enfrentamos pode envolver mais pessoas na necessária revisão das relações sociais e com a natureza. Não resta dúvida de que o isolamento físico diminuiu os deslocamentos e que esse tempo “adicional” pode ser usado para repensar as desigualdades sociais e o desequilíbrio ambiental em curso. Mas não podemos ser ingênuos porque, como indicam vários trabalhos, uma diminuta parcela da população ganhou ainda mais com a pandemia e não emitiu sinais que quer colaborar para mudar o quadro complexo que enfrentamos.

Além disso, as grandes empresas de informática induziram rapidamente o uso desse tempo adicional ao proporem eventos virtuais de várias ordens, como shows, eventos, jogos e até relações amorosas e sexuais. Portanto, não estou certo que, mesmo com mais tempo “livre”, aumentou a quantidade de pessoas que refletem sobre a desigualdade social e o caos ambiental em que vivemos.

 

 

IHU On-Line – Em 2016, o senhor nos concedeu uma entrevista em que refletia acerca do Antropoceno e foi bem claro ao afirmar que se não mudarmos nosso estilo de vida iremos sucumbir. O que mudou de lá para cá? Nos aproximamos ou nos distanciamos dessa possível mudança de estilo de vida? 

Wagner Ribeiro – Infelizmente, muito pouco mudou nesses quatro anos. Mesmo com o aumento de conhecimento científico sobre os efeitos dramáticos de processos globais, como as mudanças climáticas e o modelo de expansão da produção capitalista sem limites, não verificamos uma redução dos níveis de emissão dos gases de efeito-estufa nem do consumo, que só caíram muito recentemente em função da pandemia. É curioso porque, em 2015, tivemos a Encíclica Laudato Si’, elaborada pelo Papa Francisco, que apontou diversos aspectos importantes sobre os impactos no que ele chamou de “casa comum” desse estilo de vida baseado no consumo e descarte rápido de mercadorias. Mas ele ainda não conseguiu mobilizar muita gente para essa questão. Observa-se, ao contrário, uma resistência em setores da Igreja Católica em implementar as necessárias reformas contidas no documento papal.

 

Saiba mais sobre a Encíclica através do material preparado pelo IHU em alusão à semana que lembrou da publicação do documento nesse ano. Acesse aqui.

Em termos políticos, o mundo retrocedeu com a eleição de líderes populistas de extrema direita em diversos países. O uso de notícias falsas em eleições passou a ser recorrente, associado ao descrédito das explicações científicas. Esse conjunto de políticos passou a comandar países estratégicos e eles influenciam a opinião pública, por meio da difusão de notícias falsas e da destruição de reputações. O resultado é que, lamentavelmente, em um momento dramático da trajetória humana na Terra, não temos líderes responsáveis no comando de países importantes, o que dificulta o combate ao vírus e aos seus efeitos junto à população.

Entretanto, o contato com o vírus Sars-Cov-2 trouxe um alento. Nunca se difundiram tantos conceitos científicos junto à população como nos últimos seis meses. Análises de gráficos, modelos de análises epidemiológicas, alternativas para vacinas e fármacos foram divulgados pela imprensa. Resta saber se essa articulação vai perdurar e, principalmente, terá consequências junto à opinião pública em eleições.

 

 

Negacionismo resiste

Porém, esse movimento foi (e ainda é) duramente contestado por negacionistas de diversas matrizes que tentam desqualificar argumentos científicos sem base plausível. Essa batalha por ideias está em curso em redes sociais, com vantagem aos negacionistas, infelizmente. Talvez porque quem faz ciência não tenha tempo para também atuar em redes sociais. Apesar das dificuldades, muitos pesquisadores aos poucos passam a frequentar redes sociais, mas ainda de modo tímido. Nesse contexto, organizamos uma série de seminários sobre a pandemia. Todo esse material pode ser acessado no vídeo abaixo.

 

 

IHU On-Line – O senhor pesquisa e acompanha as negociações internacionais sobre mudanças climáticas. Como observa os movimentos dessas negociações ao longo dos últimos anos? Em alguma medida, a experiência da pandemia deve impactar essas negociações?

Wagner Ribeiro – Quem acompanha as discussões socioambientais há décadas não ficou surpreso com a eclosão da pandemia. Ela estava prevista, só não sabíamos exatamente quando ocorreria. Os estudos sobre mudanças climáticas e os que tratam do desmatamento apontavam essa possibilidade.

Entre os efeitos do aquecimento global está a intensificação do derretimento de geleiras, mas também do permafrost, solo congelado que ocorre em baixas latitudes. Desse modo, vírus e bactérias que estavam congelados voltam à superfície terrestre e podem infectar tanto seres humanos quanto outros animais, que podem ser hospedeiros de micro-organismos que desconhecemos e transmiti-los à espécie humana. Nos últimos anos, diversas pesquisas mostraram que alguns vírus que causaram doenças em larga escala como a gripe espanhola ou a varíola, ou parte do DNA deles, foram encontrados congelados no permafrost. Eles estavam em temperaturas muito frias e no escuro, condição ideal para sua conservação. Um novo contato com eles pode desencadear pandemias como a que enfrentamos agora. Mas existem também micro-organismos que sequer conhecemos, que podem desencadear situações semelhantes à atual em caso de contato.

Polígonos de permafrost na região do ártico (Foto: Wikimedia Commons)

A diminuição das áreas com cobertura vegetal original causada pelo desmatamento enfraquece, quando não elimina, barreiras geográficas que nos distanciam de micro-organismos. Ou seja, animais que convivem com esses vírus e bactérias sem apresentar doenças podem transmitir para os seres humanos e desencadear novas pandemias porque passam a circular mais próximos dos grupos humanos.

Tudo isso já era conhecido antes da eclosão da covid-19. A ordem ambiental internacional das mudanças climáticas não resultou em ações de mitigação ousadas de acordo com o que os estudos indicam como necessário para atenuar o aquecimento global. O Protocolo de Kyoto, de 1997, primeira iniciativa de redução de emissões com metas definidas, foi pouco efetivo. O Acordo de Paris, de 2015, também mostrou uma ambição inferior ao que os cientistas indicavam para frear o ritmo do aquecimento.

 

 

Efeito pandemia

Talvez a pandemia possa sensibilizar a população para que pressione lideranças políticas a adotarem metas mais adequadas para o combate ao aumento do aquecimento global. Como já apontei, infelizmente países-chave nas negociações sobre mudanças climáticas estão conduzidos por políticos que desprezam a ciência. Apenas uma grande mobilização mundial, que de algum modo começou com a Greve Mundial pelo Clima, pode gerar pressão em políticos conservadores que comandam países destacados em termos de emissões de gases de efeito estufa. Espero que essa mobilização cresça em tempo de reverter a situação.

 

IHU On-Line – Como o desequilíbrio ambiental pode se converter em aumento das desigualdades?

Wagner Ribeiro – Como apontam diversos relatórios do Painel Internacional das Mudanças Climáticas (IPCC, em inglês), os países de renda mais baixa serão os mais afetados pelos efeitos do aquecimento global. Nunca é demais relembrar que as alterações nos padrões de chuva podem causar períodos de elevada pluviosidade ou secas severas e prolongadas. Chuvas intensas em áreas com habitações precárias podem resultar em perdas materiais e de vidas seja por enchentes, seja por escorregamento de vertentes.

 

 

As secas intensas levam à migração forçada, inclusive internacional, o que causa tensões entre diferentes unidades geográficas. Comunidades que vivem à beira-mar também podem ser afetadas pela elevação dos oceanos. Esse conjunto de situações está mais presente em países de renda baixa, portanto, as consequências das mudanças climáticas podem agravar e muito as desigualdades sociais presentes no mundo.

 

IHU On-Line – Por outro lado, como mitigar as desigualdades a partir da preservação e recuperação ambiental?

Wagner Ribeiro – Existem diversos caminhos para mitigar as desigualdades, mas elas devem convergir para o combate à desigualdade social, respeitando os diversos grupos sociais e seus respectivos modos de vida. Em áreas urbanas o desafio é criar habitação e trabalho decentes, associado à recuperação ambiental. Existem várias ações que podem ser realizadas, como instalar saneamento básico, recuperar corpos de água, ampliar áreas verdes, intensificar a arborização, ampliar as ciclovias, entre outras.

 

IHU On-Line – Qual a sua análise sobre o novo marco do saneamento?

Wagner Ribeiro – O marco do saneamento gera dificuldades para oferecer água à população que vive em áreas mais afastadas, em especial em pequenos municípios, porque ele acabou com o investimento cruzado, que obrigava o investimento tanto em metrópoles, nas quais a densidade urbana o torna rentável, quanto em cidades pequenas. Além disso, aposta na privatização, diferente do que ocorre em diversos lugares no mundo.

Depois de 20 a 30 anos de o capital privado comandar o saneamento em diversas cidades de diversos tamanhos, verifica-se que a universalização do acesso à água e ao esgoto não ocorreu nessas localidades. Também existem trabalhos que mostram que a qualidade da água ofertada ao consumo diminuiu. E todos são unânimes em um ponto: as tarifas ficaram mais caras. Ou seja, o capital privado se mostra ineficaz para garantir o acesso à água.

 

 

Mais de 200 cidades dispersas pelo mundo retornaram à gestão estatal, ainda que em alguns casos com participação associada ao capital privado. Berlim, Buenos Aires, Atlanta, Jacarta, para citar alguns exemplos, retomaram a gestão pública da água e mostram que a privatização não foi bem-sucedida.

 

 

IHU On-Line – Num Brasil em que grande parte da população ainda não tem acesso à água tratada, discute-se a ‘privatização da água’. Quais os riscos? Como conceber outros caminhos que garantem acesso universal à água tratada?

Wagner Ribeiro – Para garantir o acesso à água e ao saneamento é preciso uma ação coordenada de diversos níveis de gestão e investimentos de curto, médio e longo prazo. Um município com pequena capacidade de captar impostos não tem como financiar o acesso ao saneamento. Por isso é fundamental apoio de governos estaduais e federal.

Além disso, quando o Estado atua ele está sujeito à fiscalização de diversos órgãos públicos e, principalmente, da sociedade civil e da imprensa, o que não ocorre na gestão privada. Para citar um caso recente, quando da crise de gestão da água entre 2013 e 2015 em São Paulo, os pesquisadores, nos quais me incluo, só tínhamos acesso a informações básicas, como o volume disponível por reservatório, quando elas eram apresentadas a acionistas. Como pensar em segurança hídrica se uma informação preliminar não está disponível?

 

Gestão estatal eficiente

Uma gestão eficiente da água por meio do Estado deve desestimular o desperdício da água, o que não ocorreria com uma gestão privada que ganharia mais caso o consumo aumentasse. Citando novamente a crise em São Paulo, foi mantido o fornecimento a grandes usuários de água em plena escassez para honrar contratos firmados nos quais eles pagam mais barato caso mantenham um consumo elevado. Ou seja, eram estimulados a consumir mais para pagar menos enquanto para parte expressiva da população a água estava racionada, com cortes diários, que em alguns bairros prolongou-se por dias.

Por fim, sempre que a gestão privada ocorre ela necessariamente deve buscar o lucro, o que torna o produto mais caro ao consumidor final. Já o Estado pode, e deve, praticar tarifas sociais, além de realizar investimentos sem preocupar-se com sua remuneração, em prol do combate à desigualdade social, o que é fundamental no Brasil.

 

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