Cardeal Cláudio Hummes: “A nova Conferência Eclesial da Amazônia deve levar a sério as decisões do Sínodo”

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19 Agosto 2020

No dia 29 de junho deste ano foi criada a Conferência Eclesial da Amazônia. O novo organismo eclesial é fruto das reflexões do Sínodo para a Amazônia, realizado em outubro de 2019, em Roma.

Segundo trecho do comunicado, a proposta dos Padres sinodais de “ criar um organismo episcopal que promova a sinodalidade entre as Igrejas da região, que ajude a delinear o rosto amazônica desta Igreja e que continue a tarefa de encontrar novos caminhos para a missão evangelizadora” (DF, 115), e o pedido do Papa Francisco, unido a seus quatro sonhos para este território e para toda a Igreja, em sua exortação pós-sinodal Querida Amazônia, “que os pastores, os consagrados, as consagradas e os fiéis leigos da Amazônia se empenhem na sua aplicação” (QA, 4) encontrou uma resposta na Assembleia do Projeto de Constituição da Conferência Eclesial da Amazônia, realizada virtualmente nos dias 26 e 29 de junho de 2020. O presidente da REPAM e presidente da Comissão Episcopal Especial para a Amazônia da CNBB Cardeal Cláudio Hummes, foi eleito presidente da Conferência Eclesial da Amazônia. Em entrevista ao Boletim da REPAM ele dá mais detalhes.

A entrevista é de Joelma Viana, publicada por REPAM e republicada por Vatican News, 18-08-2020.

Eis a entrevista.

Dom Cláudio, em que consiste a Conferência Eclesial da Amazônia?

O Documento Final do Sínodo para a Amazônia propõe a criação de um organismo episcopal no território pan-amazônico que assuma a aplicação do Sínodo na Amazônia. Em vista disso, foi recentemente elaborada em assembleia virtual a criação da Conferência Eclesial da Amazônia. A sugestão do nome e de sua natureza vêm do próprio Papa Francisco. Nesta assembleia virtual foi aprovado um Estatuto Canônico, eleita uma presidência e constituído um Comitê Executivo. Tudo isto foi já encaminhado ao Papa, porque é ele, através dos competentes Dicastérios, quem deverá reconhecer e erigir canonicamente esta Conferência. Ficamos aguardando agora esta aprovação do Papa. A conferência se denomina “eclesial” e não “episcopal”, porque dela participam não apenas bispos, mas também outras pessoas, inclusive leigos, mulheres, indígenas. Isso lhe dá uma caraterística sinodal bem explícita. “Sinodal” no sentido que deve proceder não de cima para baixo, mas ir ao encontro, sair para as periferias, escutar e sempre de novo escutar, para então junto com as comunidades locais construir os “novos caminhos” da Igreja no território. Será a primeira Conferência deste gênero na Igreja.

Quais as atribuições da Conferência episcopal e como ela irá trabalhar?

A própria natureza da Conferência, como acima exposto, define suas atribuições. Ela deverá ir ao encontro das comunidades locais, escutar e com elas construir o caminho do futuro da missão da Igreja na Amazônia. Ela terá, além da presidência, um secretário executivo e o Comitê Executivo, que coordenarão com a presidência os trabalhos. Concretamente, a conferência pode constituir comissões pan-amazônicas para, por exemplo, a) Inculturação; b) Defesa do território e promoção dos direitos dos povos ali presentes; c) Educação (escolas, universidade); d) Formação do clero; d) Preservação das culturas originárias dos povos indígenas; e) O diálogo inter-religioso e intercultural; f) e outras. A REPAM, por sua vez, continuará seu serviço de criar rede e fazer funcionar como rede, toda a Igreja da Amazônia, em vista de uma crescente sinodalidade, serviço que agora estará realizando junto com a nova Conferência.

Na “Querida Amazônia” no número 48 destaca-se que “o equilíbrio da terra depende da saúde da Amazônia”, isso consiste em se trabalhar uma ecologia integral. Como a Conferência irá tralhar para que se promova o cuidado com o meio ambiente na Amazônia?

Quem melhor cuida do meio ambiente amazônico, há séculos, são os povos originários, pondo em prática seu ideal de “bem viver”, que pode chegar à sua plenitude nas bem-aventuranças do Evangelho. “Bem viver” significa viver em harmonia consigo mesmo, com os seres humanos, com a natureza e com o ser supremo. Tudo está interligado. O grito dos pobres e o grito da terra é o mesmo grito, um grito socioambiental. A Igreja no Sínodo se declarou “aliada” dos povos originários também na promoção do cuidado do meio ambiente, defendendo o território contra todos que devastam, degradam, depredam e vão embora com as malas cheias, deixando para a população local só a destruição e maior pobreza.

Outras questões no Documento final do Sínodo destacam a inculturação e o papel das mulheres. Como se pretende aprofundar esse debate a partir da Conferência?

A inculturação está no centro do processo pós-sinodal. Já o Santo Papa João Paulo II ensinava que a inculturação é indispensável e também que se trata de “um caminho longo, que acompanha toda a vida missionária” e que, para realizar a inculturação, “as comunidades eclesiais em formação [nas terras de missão], poderão exprimir progressivamente a própria experiência cristã em modos e formas originais, em consonância com as próprias tradições culturais, embora sempre em sintonia com as exigências objetivas da própria fé” (RM, 52 e 53). Neste processo, é importantíssimo que, no caso dos povos indígenas, haja ministros ordenados indígenas que ajudem a guiar e construir esta inculturação. Quanto ao papel das mulheres na Igreja, o Sínodo acentuou fortemente que é preciso avançar na questão e, visto que a grandíssima maioria das comunidades missionárias amazônicas são dirigidas por mulheres, acolheu a proposta de elevar este ministério das mulheres a um ministério instituído, como os do leitor e do acólito, para dar- -lhe maior estabilidade e realce pastoral. A nova Conferência Eclesial da Amazônia deverá tomar a peito estas decisões do Sínodo.

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