“Somos vibrações fugazes, entre bilhões de estrelas”. Entrevista com Carlo Rovelli

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24 Julho 2020

“O universo é um lugar imenso e misterioso, cheio de maravilhas insólitas e de uma rara beleza. Nele há explosões gigantescas, arabescos primorosos e arco-íris com bilhões e bilhões de galáxias e bilhões e bilhões de estrelas. Perto de uma dessas estrelas são emitidas algumas vibrações fugazes entre tantas: nós. Somos nós com nossas ideias, sonhos, alegrias e aflições e nossa contemplação atônita da imensidão. Somos apenas um lampejo”, afirma, em entrevista, o físico e cosmólogo italiano Carlo Rovelli, que concebeu a física quântica em loop.

A entrevista é de Lluís Amiguet, publicada por La Vanguardia, 23-07-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Doutor Rovelli, acredita que sabe e envelhece ou quer saber e rejuvenesce?

Para começar, com os anos, tenho menos vontade de romper com tudo. Mas acredito que ocorre o contrário: são os jovens que acreditam que já sabem tudo. Porque nós mais velhos fomos descobrindo que não sabíamos nada. Quando eu era jovem, estava muito mais certo de minhas opiniões, mas não perco a curiosidade. Tenho o problema oposto: devo me esforçar para contê-la, porque, do contrário, leria tudo, iria para todas as partes e falaria com todo mundo e não ficaria nada. Por isso, muitas vezes, surpreendo a mim mesmo lendo um livro que não tem nada a ver com o meu [tema] e me censuro: “Carlo, para já, não pode aprender tudo. Deixa esse livrinho”.

Descreva o universo em cinco linhas.

Grande desafio. O universo é um lugar imenso e misterioso, cheio de maravilhas insólitas e de uma rara beleza. Nele há explosões gigantescas, arabescos primorosos e arco-íris com bilhões e bilhões de galáxias e bilhões e bilhões de estrelas. Perto de uma dessas estrelas são emitidas algumas vibrações fugazes entre tantas: nós. Somos nós com nossas ideias, sonhos, alegrias e aflições e nossa contemplação atônita da imensidão. Somos apenas um lampejo.

Mas somos.

Somos e queremos saber.

E se o universo fosse um caos a respeito do qual não podemos saber mais do que sabemos?

Tudo é possível. Mas seria brincadeira que fosse justamente agora o momento em que já compreendemos tudo o que pode ser compreendido e que teríamos percebido que não podemos compreender mais. Parece mais provável que estejamos na mesma situação de sempre: há coisas que já entendemos e outras que são difíceis de entender, mas as entenderemos.

Quando?

É uma pergunta que na pureza científica quer dizer também: onde?

Por quê?

Veja: agora, tenho dois relógios: um acima e outro abaixo. São relógios que custam milhares de euros por sua exatidão. Pois bem, no relógio de cima, o tempo passa mais devagar que no relógio de baixo. E isso é uma constatação do que observo nesse momento, não é nenhuma teoria.

O relógio de cima está atrasado?

Não. Está em outro lugar, ou seja, outro tempo. Outro lugar é outro tempo. Se agora passássemos perto de uma estrela muito densa, o tempo transcorreria mais devagar até parar, e se nos aproximássemos de um buraco negro, tão denso que absorve tudo, inclusive a luz, o tempo pararia, o tempo deixaria de transcorrer. O agora é uma dimensão tão local como o aqui, não é global.

Por que é difícil para nós entendermos isso?

Também custou muito aos clássicos entender que a Terra girava, porque seus olhos lhes diziam que estava parada. E hoje, de qualquer satélite, a vemos girar no espaço.

Hoje, só é preciso acreditar em seus olhos.

E, quando um pai pegar uma nave espacial e voltar, após toda uma vida de viagens, ver que seu filho é mais velho do que ele, perceberemos que o tempo é diferente em cada lugar. E isto será dito pelos nossos olhos.

Estamos imersos em espaço-tempo?

Pense em uma medusa feita de espaço-tempo que treme e se agita: estamos dentro. Se nos movimentamos, mudamos de espaço e tempo. Os militares que enviaram os primeiros satélites GPS não acreditavam. E puseram neles dois medidores. O seu, ainda newtoniano, e o outro, com as correções da relatividade de Einstein.

Menos mal.

Sim, porque agora você pode saber onde está em seu celular, graças aos cálculos de Einstein.

Poderia agora, então, estar morto em cima e vivo em baixo?

Isso já é quântico. A mecânica quântica demonstra que as partículas elementares não estão aqui, mas que podem estar aqui e ali.

O que é estar em dois lugares ao mesmo tempo?

Porque as partículas da matéria que também nos forma não são. Não estão paradas em um lugar, mas são saltos de uma interação a outra.

Mas por que a realidade parece fixa?

É outra ilusão, como a de enxergar a Terra plana e parada, sendo que gira. É como um lago, que nos parece parado, mas pelo microscópio veremos que é composto de moléculas em constante agitação.

Isso soa muito hippie.

É que o universo não é composto por materiais sólidos, regidos por leis invariáveis, mas por ondas, vibrações, energias que interagem constantemente. Hoje, tentamos juntar a relatividade e a quântica. E eu participei na teoria do loop que explica isso.

O universo é tão feio como no modelo padrão, com dezenas de partículas?

Para mim, já me parece harmônico que o que vemos seja a combinação de só algumas dezenas de partículas. Mas, sim, talvez alguém um dia encontre uma ordem nelas. Eu trabalho agora na compreensão das propriedades quânticas de espaço e tempo. Ainda que seja verdade que a teoria geral da relatividade é mais bela que o modelo padrão e essa é uma de minhas razões para trabalhar nela.

O confinamento se tornou longo para você?

Não confundamos o tempo de nossa percepção com o da física.

É melhor gastar o dinheiro público para buscar vida extraterrestre em outras coisas?

Nossa galáxia é tão imensa que é muito improvável que a vida na Terra seja algo único ou sequer especial. Encontrar vida extraterrestre seria tão relevante, ao menos, como as descobertas de Copérnico ou Darwin. Investir em descobri-la é muito mais rentável que a maioria das pesquisas científicas em curso.

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