Jovens, entre utopia e realidade

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20 Julho 2018

"É pouco aconselhável considerar a juventude como a idade privilegiada entre todas as outras, como paradigma escolhido, vencedor sobre todas as outras 'épocas de vida', que é um prelúdio para as escolhas a serem feitas nas várias incumbências e previstas nas sociedades e comunidades". 

A reflexão é do teólogo e padre italiano Michele Giulio Masciarelli, professor da Pontifícia Faculdade Marianum, em Roma, e do Istituto Teologico Abruzzese-Molisano, em Chieti, na Itália, em artigo publicado por Settimana News, 17-07-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Jovens, sinais de esperança

A esperança do jovem. "Primavera. Juventude. A metáfora está desgastada, mas o que importa?” [1] O jovem desfruta e sofre por sua sobrecarga de vida. Ele tem uma "vocação perturbadora" e uma "função reanimadora" [2]. Por essa sua vívida presença crítica nas dinâmicas da vida é preciso ser felizes para que ela sirva para criar pressões significativas na sucessão das idades e desincrustar formas anquilosadas de comportamentos, de visões de vida e similares. "Aquelas forças incontroláveis que, deixadas livres, explodem naquele período da vida, também contribuem - aqui está o reverso! – para fazer dessa idade a peripécia mais desconfortável e mais perigosa de toda a viagem”.[3]

No entanto, apesar disso, é prudência e sabedoria tolerar com paciência os traços antipáticos que o jovem mostra com sua irritante discordância, desafiando, perturbando a calma dos ambientes tranquilos. Infelizmente, essa tolerância nem sempre existe. "Para muitos, a juventude agradável - ou suportável - é aquela contida nos relicários da memória. Mas a sociedade se mantém viva graças aos cismas regulares que nela provocam a chegada das novas gerações”. [4]

A esperança com o jovem. Que esperança é possível compartilhar com o jovem? Ou ainda: qual sentimento humano e espiritual manifesta o jovem quando vive a sua "idade da vida"? A juventude é a idade da consciência: o jovem se apresenta, portanto, como um sujeito humano que tomou contato com o próprio eu e tenta tomar conta dele cada vez mais, na medida em que se torna consciente de seus recursos vitais. [5]

É a idade bivalente: essa forma de vida, ao mesmo tempo em que é caracterizada felizmente pela exuberante vitalidade, também conhece:

1) a falta de experiência: é, portanto, uma época marcada por uma tensão dialética na sua vivência;

2) o defeito da consciência da dureza com que a realidade se opõe à sua vontade de mudá-la; a incapacidade de estabelecer a justa relação entre julgar e agir. É a idade aberta ao infinito;

3) a falta de paciência, que é sempre condição necessária para completar projetos e empreendimentos de vida.

No lado positivo, no entanto, na atitude do jovem também se percebem, em geral:

1) uma orientação ao infinito, caracterizada pelo senso de ilimitado;

2) a pureza das intenções que se expressa na recusa ao comprometimento;

3) a convicção de que quando as ideias são verdadeiras e as crenças são justas, elas são capazes de mudar e, de certo modo, de reestruturar a realidade da vida.

Ao jovem não serve uma educação fraca. A juventude é a crônica feroz e cômica, impiedosa e zombeteira dessa incompatibilidade com o mundo adulto que lhe aparece como um universo separado, em parte também hostil, com o qual não consegue se conectar anão ser com o esforço de uma difícil iniciação e de uma severa responsabilidade.

Idade vital, a juventude, ao mesmo tempo em que expressa força, provavelmente também exige que se responda a ela com força educativa. Não é compreensível, portanto, que os educadores se coloquem diante do jovem com uma espécie de timidez paralisante, como se estivessem na frente dele com constrangimento, especialmente com medo de dialogar com ele, como se seus códigos linguísticos não fossem mais úteis, nem mesmo para uma mínima comunicação com ele.

Os educadores justamente reconhecem o problema linguístico para comunicar com o jovem, mas às vezes assumem uma atitude absolutória diante dele como se não fosse também sua tarefa aquele de aprender a comunicar com o mundo adulto.

Uma consideração mais extensa mereceria a crítica da pretensão juvenil de renunciar a toda abordagem disciplinarmente firme em relação aos jovens, esquecendo que não se educa de forma branda e frouxa, mas inclusive com o enfrentamento (o famoso streben da pedagogia idealista, especialmente de Fichte).

A juventude é uma idade maravilhosa, mas não deve ser mitificada

1. Mesmo a juventude nasce de uma crise e tem suas crises particulares. Toda idade surge de uma crise: a infância daquela traumática do parto e do desmame; a adolescência (a mais afetada pela crise) da saída do mundo calmo e protegido da infância; a juventude daquela turbulenta e generalizada na metástase da adolescência; a idade adulta da juventude, ligada ao difícil e decepcionante encontro com a experiência; a velhice daquela devida ao distanciamento de todas as idades anteriores.

Dito isso, a idade jovem deve ser lida como uma idade entreposta entre duas crises (a da adolescência e a da idade adulta) que, de alguma forma, a mantêm amarrada. Deve-se lembrar e ter em mente para não construir um discurso sobre essa idade, tratando-a com a insuportável abordagem retórica que exala falsidade em cada sílaba que se usa para louvores inúteis, prejudiciais e não solicitados que, para além de sua consciência mais ou menos viva, pede de fato para ser ajudada e não tratada com brandura.

Entre outras coisas, é pouco aconselhável considerar a juventude como a idade privilegiada entre todas as outras, como paradigma escolhido, vencedor sobre todas as outras "épocas de vida", que é um prelúdio para as escolhas a serem feitas nas várias incumbências e previstas nas sociedades e comunidades. A não sabedoria dessa forma de retórica está no fato que não se consideram com realismo as coisas, justamente porque somos vítimas de uma brandura que não tem razão de ser e também a uma cultura de visão curta que exalta o discurso sobre o corpo, especialmente aquele malhado ou centrado só na aparência.

Mas vocês conseguem imaginar músicas só no compasso "rápido, rapidíssimo", sem as necessárias "pausas", o "desacelerar", o "piano, pianíssimo"? Sem os "lentos" até mesmo os bailes sairiam perdendo...

Poderíamos aprender com o jumento, o animal dos pequenos espaços, dos tempos lentos, do trote lento, da preocupação com o fragmento de tempo que está vivendo e com o pequeno espaço de terra que está pisoteando.

E o padre, o que tem a ver com esse jumentinho? Tem a ver, certamente, e talvez bastante. Falamos da pastoral do sacerdote, que não obedece ao mito olímpico de chegar primeiro a qualquer custo, o que não está obcecada por acumular primados, mas faz o que precisa fazer em paz, com calma e contemplação simplesmente humana.

2. Jovens vistos de perto. Nenhuma idade pode ser fotografada porque cada homem e cada mulher a realizam na singularidade que, no final, nunca pode ser clonada e pode ser só minimamente imitada. Em decorrência dessa consideração, falamos sobre isso com traços rápidos e distantes e com inevitáveis limites. Então, o esboço é esse.

- O jovem torna-se consciente de seus recursos vitais e sente-os como a força de que ele dispõe para entrar no mundo da experiência consciente. No fundo, essa nova forma de vida conhece o aspecto positivo do crescimento na personalidade e o limite na falta de experiência.

- Ele percebe um tipo de incondicionalidade: acredita que pode possuir sem obstáculos o mundo para o qual se abre, podendo usar suas energias que percebe ilimitadas.

- A mencionada falta de experiência faz-se sentir nele como um terreno magmático sob seus pés, à medida que avança nas dificuldades da vivência.

- Ainda não tomou consciência da força do freio e também da dura resistência que a experiência opõe a seus desejos de iniciativas e realizações, com as primeiras desilusões que começam a se acumular e entristecê-lo. A exuberância de sua fantasia, de sua coragem e de sua temeridade começa a ser mortificada, enquanto todo o idealismo espontâneo (Guardini) começa a ser abalado.

- Começa para ele o tempo das escolhas, trilhando caminhos com decisão, das quais nem sempre poderá voltar, experimentando sucessos e fracassos.

- Ele é atraído pelo futuro: é um ser que, mais do que outros, em geral sente que nasceu e tem que viver para frente. Ele vive sabendo que está em fase de decolagem (Guardini), tendo a sensação de dispor, entre outras coisas, de possibilidades ilimitadas.

- O jovem inicia a sua típica experiência ética e, de alguma forma, desenha um quadro dos valores decisivos da personalidade, que de fato constroem o homem moral: o amor pela verdade, coragem, honestidade, lealdade, senso de honra, busca por clareza e precisão no dizer e fazer, generoso envolvimento em iniciativas que exigem empenho ...

- Logo, com o choque da experiência, ele perceberá que não é um solista, mas que faz parte de um coro e que a sua idade está dentro de uma família de idade das quais deve se dar conta e constatar que existem também os outros, com as suas ideias, os seus direitos e desejos, suas sensibilidades e costumes ... Logo vai experimentar, portanto, a dificuldade de conviver com seus pares e principalmente com sujeitos de outras idades, porque ainda não dispõe de uma virtude essencial. Nele "falta aquela atitude tão banal quanto fundamental para qualquer sucesso, que é a paciência". [6]

O jovem, sujeito de uma aventura dramática

Certamente, o jovem precisa viver seu encontro-desencontro com o mundo adulto. A verdade é que "a juventude é uma idade de regressão. A mutação que a caracteriza é realizada em sentido inverso em relação ao estado que o precede": em certo sentido - desaparecida a abordagem mágica à vida - esperança para ele perdeu as características do sonho que impulsiona para além das coisas que, como pequeno, não percebia (primeira infância, infância e até adolescência) como barreiras ou obstáculos, mas como pequenas plataformas de lançamento, como limites de vôos para frente. Agora ele está diante de uma realidade, feita sem o seu consentimento, de cuja construção ele não participou e que, consequentemente, percebe quase como uma pedra que, em parte, o estimula, mas muito o limita: portanto, ele gostaria de fazê-la rolar por alguma encosta íngreme, enquanto constata a impotência para fazê-lo e isso o deixa extremamente irritado.

Em suma, ele vive o drama do obstáculo e da distância. "Se-pa-ra-ção. Talvez tenhamos aqui as quatro sílabas-chave. Agora o jovem está separado de tudo o que sabia. Ele sabia tudo, e agora não sabe mais nada. A idade do aprender começa com um severo desaprender. [...] Em alguns aspectos, o jovem está mais desarmado, mais novo que os mais novos que ele, a criança e o adolescente, que haviam se instalado na vida como se fosse para a eternidade. Sente que embarcou na história. [...] Antigamente ele reinava em seu território. Agora se torna um emigrado igual a todos os outros: um soberano sem coroa”. [7]

É uma fonte de segurança saber e ver que todos ou muitos giram ao teu redor, como satélites ao redor do sol; agora ele é uma estrela confusa entre outras estrelas, se de fato e quando se considera uma estrela. Agora, já não vive mais de forma descolada dentro do círculo de horizontes sem fim: atinge os horizontes de longe, de certa forma, e passo a passo, com o impulso do "desejo": ele começa a viver a identidade do homo desiderans, que é ao mesmo tempo bela, frágil e dolorosa, porque implica sempre em uma enorme falta. [8]

Em nosso tempo, infelizmente, houve a queda do homem contemporâneo nas garras do presentismo. Paulo VI disse certa vez que o homem, o homem moderno acima de tudo, é obrigado a se declarar pobre, "um pobre com desejos exasperados, iludidos ou desiludidos".[9] No entanto, o homo desiderans sempre existe e é, por si só, um produtor do futuro. [10] Também consola o fato de que o desejo tenha a mesma estrutura da esperança.

Não ao "juvenilismo"

Por essas e outras razões, seria apropriado que se renunciasse à retórica do juvenilismo. Absolutamente intolerável é a melosa abordagem com a medíocre dogmática de "os jovens são o futuro" (do mundo, da Igreja ...) ou da juventude como a mais bela idade da vida... Talvez - como afirmou com dureza o escritor e filósofo francês Paul Nizan (1905-1940) - não deve ser reconhecido a ninguém “o direito de dizer que os vinte anos são a mais bela época da vida". Muito menos isso ajuda os jovens a ter esperança em sua idade e em vista daquelas que os esperam, atribuindo-lhes outras exclusivas, como a pretensão de acreditar, sempre e de qualquer maneira, que o jovem é o mais apto para gerenciar tarefas e funções na comunidade, nas instituições.

Não para cada atividade (cultural, espiritual, eclesial), o jovem (talvez entre suas principais habilidades esteja a de ser atlético) é o sujeito mais adequado. Certamente não merece, só por causa da menor idade, a exclusividade do amor: isso seria pura pretensão, inclusive nem sempre confirmada pela realidade da experiência: ama quem ama, ama muito quem ama muito, ama ao máximo quem dá a vida pelos outros (cf. João 15: 13). "Não é certamente do amor que a juventude tem a exclusividade - escreve com bastante bom senso Christiane Singer. Da concepção à morte, o amor acompanha toda a jornada". [11]

Notas:

[1] Ch. Singer, Le età della vita, (As idades da vida) Editora Servitium, Sotto il Monte (BG), p. 111.

[2] Ibidem, p. 110.

[3] Ibidem, pp. 111-112.

[4] Ibidem, pp. 109-110.

[5] Isso não significa que o jovem tenha controle de tudo que está sob seus pés, do que o rodeia, do que borbulha em sua alma e, menos ainda, do ar cultural que ele respira, por exemplo, a ar niilista que respira. U. Galimberti, em seu livro L’ospite inquietante. Il nichilismo e i giovani (O hospede perturbador. O niilismo e os jovens, Feltrinelli, Milão 2007), examina os recantos mais escuros da alma juvenil, sem perder de vista as mudanças sociais das últimas décadas e tomando como pano de fundo o niilismo. Depois de mostrar a periculosidade deste "hóspede perturbador", propõe-se a revelar aos jovens o segredo de sua idade, para torná-los conscientes da idade que estão vivendo.

[6] R. Guardini, Le età della vita (As Idades da Vida, Vida e Pensamento, Milão 2011, p. 22).

[7] Singer, Le età della vita, p. 114.

[8] Cf. F. Carmagnola, Il desiderio non è una cosa semplice. Figure di àgalma (O desejo não é uma coisa simples. Figuras de Ágalma), Mimesis, Sesto San Giovanni (MI) 2008; U. Volli, Figure del desiderio. Corpo, testo, mancanza (Figuras do desejo. Corpo, texto, falta), Raffaello Cortina, Milão, 2002; G. Pulli, Sul desiderio (Sobre o desejo), Liguori, Nápoles, 2003; F.R. Jameson, Il desiderio chiamato utopia (O desejo chamado utopia), Feltrinelli, Milão, 2007; A. Amendola, E. D'agostino, S. Santonicola (ed.), Il desiderio preso per la coda. Rappresentazioni, applicazioni, teorie (O desejo tomado pela cauda. Representações, aplicações, teorias), Plectica, Salerno, 2008; M. Recalcati: Ritratti del desiderio (Retratos do Desejo), Raffaello Cortina, Milão, 2012; La forza del desiderio (A força do desejo), Qiqajon, Magnano (BI), 2014.

[9] Discurso na Audiência de 13 de dezembro de 1972.

[10] Cf. M. Augé, Che fine ha fatto il futuro? Dai non-luoghi ai non-tempo (O que aconteceu com o futuro? Dos não-lugares ao não-tempo), Eleuthera, Milão, 2009.

[11] Cf. Ch. Singer, Le età della vita, p. 117.

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