Fao: mais 130 milhões de pessoas em risco de fome. A Santa Sé pede solidariedade

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15 Julho 2020

A fome e a desnutrição crônicas não só não desaparecem como aumentam, tornando cada vez mais difícil alcançar os Objetivos de Assistência Alimentar para todos até 2030. E 2020 poderia marcar um recorde dramático de 130 milhões de novas vítimas de carências de alimentos devido às repercussões econômicas do Covid-19. A Santa Sé pede solidariedade, maior cooperação internacional, estratégias a favor dos pequenos produtores e políticas para reduzir os preços dos alimentos nutritivos. Conosco, o Observador Permanente da FAO, Monsenhor Fernando Chica Arellano.

Quase 690 milhões de pessoas sofreram por fome em 2019, com um aumento de 10 milhões em comparação a 2018 e 60 milhões nos últimos cinco anos. É o que a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) denuncia no documento "State of Food Security and Nutrition in the World", publicado hoje. O relatório sobre o estado da segurança alimentar e nutrição no mundo é o mais respeitado monitoramento global dos estudos sobre o progresso em direção ao objetivo indicado de acabar com a fome e a desnutrição no mundo. Foi desenvolvido graças ao trabalho conjunto da FAO, do Fundo Internacional para a Agricultura (FIDA), do Fundo da Infância (Unicef), do Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas (PMA) e da Organização Mundial da Saúde (OMS). No prefácio, os diretores das cinco agências alertam que "cinco anos depois que os líderes mundiais se comprometeram a acabar com a fome, a insegurança alimentar e todas as formas de desnutrição, ainda estamos longe do caminho em relação ao objetivo fixado para 2030”. Conversamos sobre os dados que foram apresentados e a necessidade de fortalecer a cooperação internacional com o Observador Permanente da Santa Sé, monsenhor Fernando Chica Arellano:

Ouça a entrevista, em italiano, com monsenhor Fernando Chica Arellano:

A edição da entrevista é de Fausta Speranza, publicada por Vatican News, 14-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

O monsenhor Arellano enfatiza que o relatório destaca até que ponto estamos longe de derrotar a fome no mundo, mostra que "não estamos no caminho certo". Da avaliação dos dados, verifica-se que o compromisso assumido em 2015 com o objetivo de resultados concretos até 2030 não conseguiu trazer progressos reais. O Observador Permanente da Santa Sé salienta que a emergência ocorre em duas frentes: para os que sofrem de desnutrição e para os que sofrem de doenças provocadas pela desnutrição, portanto, por exemplo, o consumo excessivo de substâncias gordurosas não saudáveis e alimentos insalubres. A esse respeito, Monsenhor Chica Arellano fala principalmente das crianças e ressalta a importância de uma educação nutricional correta, lembrando que o Papa Francisco também falou disso na Laudato Si, abordando várias questões ligadas ao meio ambiente. Depois, o Observador Permanente da FAO explica qual poderia ser o caminho a seguir. Antes de tudo, a cooperação internacional deve ser fortalecida - ele explica - para garantir a solidariedade no mundo, trabalhando para derrotar a pobreza, as desigualdades, as injustiças. "É preciso políticas justas." E depois indica possíveis estratégias concretas: apoiar os pequenos produtores, reduzir o custo de alimentos básicos ricos em nutrientes. É claro - lembramos - que o problema da desnutrição está intimamente ligado ao da pobreza.

As áreas do mundo mais afetadas

Infelizmente, a Ásia abriga o maior número de desnutridos (381 milhões). A África é a segunda (250 milhões), seguida pela América Latina e pelo Caribe (48 milhões). A porcentagem total de pessoas com fome mudou pouco, mas os números absolutos estão em acentuado crescimento e é isso explica por que a fome cresceu no mesmo passo da população global nos últimos cinco anos. Isso, portanto, significa que existem grandes disparidades regionais: em termos percentuais, a África é a região mais afetada: chega a 19,1% de sua população desnutrida. Isso é mais que o dobro da taxa registrada na Ásia (8,3%) e da América Latina e Caribe (7,4%). Considerando, no entanto, as tendências encontradas em todos os continentes, os estudiosos que redigiram o relatório dizem que em 2030 será a África a hospedar mais da metade das pessoas com fome crônica do mundo.

O preço da pandemia

De acordo com o relatório, a pandemia de Covid-19 poderia forçar mais de 130 milhões de pessoas a se somar aos casos de fome crônica até o final do ano. O maior número de pessoas que enfrentam escassez dramática de alimentos é encontrado na Ásia, mas o fenômeno está se expandindo rapidamente na África. Com a desaceleração dos avanços na luta contra a fome, a pandemia da Covid-19 está multiplicando as vulnerabilidades e favorecendo as inadequações dos sistemas alimentares globais, ou seja, as atividades e processos que afetam a produção, a distribuição e o consumo de alimentos. Certamente é muito cedo para avaliar o impacto total das várias medidas de bloqueio das atividades, do chamado lockdown em ato com modalidades diferentes, mas semelhantes em vários contextos, o relatório neste momento fotografa 83 milhões de pessoas destinadas a acabar em condições de fome, às quais poderiam se somar outras até chegar a 132 milhões de pessoas que poderiam acabar no cálculo daqueles que sofrem de fome em 2020, devido à recessão econômica desencadeada pelas consequências da infecção por coronavírus.

Não é apenas uma questão humanitária

O relatório das Nações Unidas adverte: garantir uma dieta saudável para aqueles que não podem pagar não seria apenas um dever da comunidade internacional para com outros seres humanos, mas também uma providência "útil" para economizar bilhões em custos pelas consequências em termos sociais. Estima-se que a contenção da fome no mundo poderia garantir uma economia de US $ 1,3 bilhão por ano. E também consta que uma gestão diferente dos recursos e dos mecanismos na cadeia alimentar poderia ajudar a reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 75%, que se estima tenham um custo de US $ 1,7 bilhão por ano. Preços elevados para o fornecimento de alimentos saudáveis também significam que bilhões de pessoas não podem se dar ao luxo de comer de maneira equilibrada e nutritiva. E isso causa fortes repercussões em termos de custos sociais ao longo dos anos. A desnutrição deve ser superada em todas as suas formas: desde a desnutrição com deficiências de nutrientes - como os contidos em produtos lácteos, frutas, vegetais e alimentos ricos em proteínas, que são os grupos alimentares mais caros em nível global -, mas fala-se em disfunções nutricionais e graves danos à saúde, também em casos de má nutrição ou nutrição inadequada que levam a sobrepeso e obesidade, às vezes devido ao excesso de aminoácidos de baixo custo ou ao excesso de açúcares, refrigerantes ou alimentos gordurosos nos grupos sociais mais baixos de Países ricos como os Estados Unidos e a Europa. Não se trata apenas de garantir comida suficiente para sobreviver: é essencial abordar a questão do que as pessoas comem e, acima de tudo, avaliar o que as crianças comem. O relatório destaca que uma dieta saudável custa muito mais que US $ 1,90 por dia, um valor estabelecido em nível internacional como limiar da linha de pobreza. E as estimativas mais recentes indicam que uma incrível quantidade de 3 bilhões de pessoas ou mais não pode se permitir uma dieta saudável. Na África subsaariana e no sul da Ásia, esse é o caso de 57% da população, mas o fenômeno não poupa, mesmo que não nesses porcentuais, a América do Norte e o velho continente.

Obesidade, a outra face da fome

Segundo o relatório, em 2019, entre um quarto e um terço das crianças com menos de cinco anos no mundo - 191 milhões - relatavam carências de crescimento. Outros 38 milhões de crianças com menos de cinco anos estavam acima do peso. O relatório também apresenta que "entre os adultos, enquanto isso, a obesidade se tornou uma pandemia global por si só".

A parábola dos últimos anos

Os especialistas escrevem que as atualizações de dados críticos relacionados à China - que tem um quinto da população mundial - e outros países densamente povoados levaram a um corte no número global de pessoas com fome aos atuais 690 milhões, contra 822 milhões de 2019. No entanto - explicam - não houve mudança na tendência de crescimento que se reapresentou desde 2014 após uma queda havia sido constatada desde 2000. As edições de 2017 e 2018 desse relatório mostraram que os conflitos e a variabilidade climática prejudicam os esforços para acabar com a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição. Em 2019, o relatório mostrou que a desaceleração da economia também influíram nos resultados. Em 2020, a pandemia de Covid-19, bem como alguns casos de invasão sem precedentes de gafanhotos na África Oriental, estão lançando uma sombra sobre as perspectivas econômicas em termos que ninguém poderia ter previsto e a situação só poderia piorar se não agirmos com urgência e através da tomada de ações sem precedentes.

Um convite à ação

O relatório pede uma transformação dos sistemas alimentares para reduzir os custos de alimentos nutritivos e aumentar a acessibilidade econômica de dietas saudáveis. Embora as soluções específicas sejam diferentes de país para país, e também dentro deles, as respostas gerais são encontradas com intervenções em toda a cadeia de suprimento de alimentos, no meio ambiente e nas políticas econômicas que moldam o comércio, os gastos públicos e os investimentos no plano social. O estudo convida os governos a rever as estratégias para o setor de alimentação e agricultura; trabalhar para reduzir os fatores de aumento de custos na produção, armazenamento, transporte, distribuição e comercialização de produtos alimentícios, também reduzindo ineficiências e desperdício de alimentos e gestão de resíduos; apoiar os pequenos produtores locais que desejam cultivar e vender alimentos mais nutritivos e garantir seu acesso aos mercados; priorizar a alimentação das crianças como categoria mais carente; promover novos comportamentos por meio das agências educacionais e da mídia; incluir a nutrição nos sistemas de proteção social nacionais e nas estratégias de investimento. Os diretores das cinco agências das Nações Unidas garantem seu compromisso em apoiar os governos no desenvolvimento sustentável para as pessoas e para o planeta.

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