Bolívia. Religião e repressão são dois eixos do golpismo

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16 Abril 2020

"No marco de um golpe de estado que se prolonga indefinidamente, incrusta-se, à força, sobre o imaginário social o velho projeto de cristandade, na qual a Igreja assume o papel de tutoria moral da sociedade, despreciando a Constituição boliviana que define o Estado como 'independente de toda religião', enquanto que as forças armadas abandonam suas funções específicas, focando-se a um tipo de repressão letal contra toda aquela pessoa ou grupo nacional que se oponha a esse projeto", escreve Martín Suso, em artigo publicado por Alai, 15-04-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Acabou a Semana Santa. O governo golpista também aproveitou essa oportunidade para potencializar as representações que pretende impor sobre a sociedade. Na cidade de Santa Cruz, o arcebispo local iniciou as atividades litúrgicas desse período com uma ação peculiar. Vestido com os ornamentos próprios do culto e portando sobre a boca uma máscara, conjunto que lhe conferia uma estranha aparência de vilão hollywoodiano, percorreu várias ruas sobre um veículo militar. Soldados em uniforme de combate o escoltavam, e era seguido por uma caravana de carros do exército, o que oferecia uma cena fellinesca.

Como é natural, essa liturgia da benção de ramos pode ser feita com a cenografia tradicional. Não é por acaso, portanto, que essa encenação singular foi escolhida, que claramente busca reemitir e tornar visível e visível o arquétipo de dominação da cruz e da espada. Dessa forma, no marco de um golpe de estado que se prolonga indefinidamente, incrusta-se, à força, sobre o imaginário social o velho projeto de cristandade, na qual a Igreja assume o papel de tutoria moral da sociedade, despreciando a Constituição boliviana que define o Estado como 'independente de toda religião', enquanto que as forças armadas abandonam suas funções específicas, focando-se a um tipo de repressão letal contra toda aquela pessoa ou grupo nacional que se oponha a esse projeto.

A montagem foi um preâmbulo da atual militarização total da cidade de Santa Cruz, com a desculpa de um melhor controle sanitário, porém que evidentemente esconde o ensaio de um processo que aponta à presença permanente de tropas vigiando a sociedade civil, fenômeno que está em crescimento na região e é amplamente apoiado pelas políticas de Washington. Em outras duas cidades se realizaram performances religiosas similares, porém com a utilização de helicópteros militares e clérigos abençoando das alturas.

Tampouco é por acaso que esse recurso à religião e à repressão emerja com novo ímpeto em meio de uma pandemia que o governo não sabe nem se tem capacidade de controlar. Sua péssima gestão é fácil de se comprovar nas numerosíssimas contradições entre diferentes autoridades sanitárias, o desmantelamento das estruturas de atenção primária em saúde (que são precisamente as que devem fazer a tarefa pedagógica de prevenção anterior à atenção hospitalar), a falta de capacitação e dotação de insumos básicas ao pessoal da saúde, e a ausência de estratégias de formação e informação sobre a covid-19, que são fornecidas por ameaças e proibições. Ao anterior acrescenta-se o que já é um clássico nas políticas governamentais; isso é, a criminalização dos grupos populacionais que se consideram militantes ou simpatizantes do MAS. São os que a autoproclamada Áñez ou seus ministros classificaram, em várias oportunidades, como “selvagens”, e que a imprensa cúmplice aponta nos bairros, localidades e coletivos humanos como os responsáveis do desastre sanitário.

Para completar o panorama sinistro, devemos mencionar os altos montantes de ajuda que chegaram ao governo na forma de doações do exterior e até empréstimos de entidades financeiras locais, e cujos números exatos não são conhecidos, muito menos aonde e como irão investir, embora uma pista tenha sido fornecida pelo ministro da presidência quando ele indicou que algumas dessas verbas estão “disponíveis gratuitamente”, o que, em um bom romance, significa que não haverá controle.

Se tudo isso não bastasse, deve-se levar em conta que uma norma governamental que se aprofunda com o passar dos dias é a de quarentenas cada vez mais rígidas e estendidas, sem considerar que uma porcentagem muito significativa da população economicamente ativa é autônoma: estima-se que cerca de 60% da população empregada na Bolívia trabalhe no setor informal (transporte, comércio, pequenas indústrias, serviços etc.) e que subsistam no que recebem todos os dias em tarefas que envolvem deslocamentos. Também diante dessa realidade, a resposta oficial tem sido irregular, oferecendo vínculos com números irrisórios, o que aumenta a inconformidade da maioria, que experimenta o abandono, a negligência, a ausência de respostas práticas e de políticas macroeconômicas sensíveis e a seletividade do governo na prestação de ajuda.

O número total de pessoas infectadas com a covid-19 na Bolívia pode não parecer alarmante. No entanto, elas são tão à luz do panorama que descrevemos acima, mas se os detalhes forem levados em consideração: a taxa de recuperação é de 0,61% (a mais baixa da América do Sul) enquanto a taxa de mortalidade é de 8,18% (um dos mais altos da região).

A chegada da pandemia na Bolívia, que inicialmente significou uma oportunidade de ouro para os líderes do golpe, que adiaram as eleições e suspenderam uma campanha na qual os candidatos do MAS continuavam liderando as pesquisas, tornou-se em poucas semanas uma realidade pantanosa, da qual parece cada vez mais difícil sair.

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