As lágrimas de Jeremias: o profeta e o sacerdote perambulam sem compreender

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22 Março 2020

Jeremias revela que o sacerdote e o profeta que vagueiam (talvez não fisicamente, mas certamente com a mente e com o coração) não conseguem manter unido (“com-preender”) o sentido de tudo o que um povo inteiro está vivendo.

A opinião é do teólogo italiano Pier Davide Guenzi, presidente da Associação Teológica Italiana para o Estudo da Moral (Atism, na sigla em italiano) e professor de Teologia Moral e Ética Social na Faculdade Teológica da Itália Setentrional.

O artigo foi publicado em Il Regno, 20-03-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Depositada na memória por tê-la rezado tantas vezes na Liturgia das Horas, de repente se materializou uma expressão de Jeremias dentro da minha desorientação destes dias, que é de todos: “Até o profeta e o sacerdote perambulam pela terra sem saber o que se passa” (Jr 14,18).

Na verdade, a frase era a da versão litúrgica – “percorrem o país, e não sabem o que fazer” –, mas depois eu a modifiquei porque é ainda mais apropriada na sua nova versão textual: o sacerdote e o profeta que vagueiam (talvez não fisicamente, mas certamente com a mente e com o coração) e não conseguem manter unido (“com-preender”) o sentido de tudo o que um povo inteiro está vivendo.

Algo escapa dos esquemas. Não é só uma situação de desorientação. Mas também uma advertência a não presumir precipitadamente que se consegue compreender. Singular situação a minha de me assomar (pelo menos de acordo com o meu papel público) a ambas as figuras. E análoga incompreensão.

Primeiro, sofrer

O sacerdote não compreende: o homem que habitualmente guia a oração das pessoas (e tenta fazê-lo neste tempo de trevas) se vê desprovido de palavras e de gestos, não porque não pode celebrar publicamente o culto, mas porque sistematicamente, na sua mente, antes que possam aflorar nos lábios, ele descarta as expressões vazias e consoladoras do “funcionário”, que não convencem ele mesmo.

O profeta não compreende: o homem que, até algumas semanas atrás, exercia um papel público de ensinamento, se vê constrangido diante dos seus ouvintes “remotos”. O homem que tentou, com a máxima lucidez possível, discernir entre as razões, se vê sobrecarregado pela força da paixão, por aquilo que o afeta e infecta seu próprio raciocínio ou, talvez, o fecunda. O homem que havia dissertado sobre as teorias da justiça e do bem comum, às vezes como casos de estudo de manuais, descobre agora que agora não são mais uma mera hipótese escolar, mas sim o evento dramático que ainda impõe que se atue e, antes ainda, que se volte a sentir e a sofrer.

Depois, tentei ler o capítulo 14 de Jeremias na íntegra. Ele descreve as reações do povo, dos sacerdotes, dos profetas e do autor em uma situação de emergência de seca. Tentei me esforçar para entender. Na circunstância descrita, só resta a Jeremias o pranto impotente, mas repleto de compaixão e de piedade.

Ao contrário dos outros profetas, que tranquilizam as pessoas falsamente, criando um álibi para a sua incapacidade de compreender (cf. 14,13), Jeremias, no seu lamento, não justifica Deus diante de um povo de pecadores, nem explica o drama vivido pelo povo com argumentos elaborados para discriminar entre justos e injustos, entre razões ou erros.

Simplesmente, e como um ato decisivo, com a sua pessoa, ele absorve a dor, o drama e a perplexidade do seu povo e o apresenta a Deus. Esse Deus, que fizera força na sua vida, arrancando-o de si mesmo e entregando-o à sua vocação, quase o força a não ser uma presença oculta e fugaz. Como um viajante que pernoita casualmente na cidade, mas não se solidariza nem se preocupa em conhecer os problemas do povo. Ainda mais, Jeremias estimula Deus a não ceder à tentação de se sentir como um guerreiro que já perdeu a guerra antes de entrar em campo (cf. 14,8).

Jeremias não se atribui aqui outro papel, pela sua vocação de profeta, senão a de ser a tela do espetáculo trágico que ele tem diante de si (cf. 14,1-6.17-18). Ele não o comenta, nem busca hipóteses explicativas. Por um instante, ele suspende a lógica da causa e dos efeitos, de sopesar fins e meios. Dois estratagemas, naquele momento, perigosos demais. O impiedoso dedutivismo de quem já conhecia e previa; o cálculo utilitarista e consequencialista das perdas inevitáveis e da margem de lucro restante. Duas argumentações (morais) muito nobres em outros tempos. Mas não no da catástrofe. O silêncio absorve a dor e a transmite ao Deus que já havia forçado na juventude a sua inércia, chamando-o para ser profeta. A consolação não é desprovida da piedade que absorve a dor. É a destilação dessa dor.

Se souberes distinguir...

A resposta divina para Jeremias, que também não se fizera a pergunta, é fulminante: o que você está aprendendo com esse drama? A mesma pergunta que muitas vezes ouvimos em muitos lugares sendo dirigida aos especialistas, às vezes (mas não demais) também aos teólogos e aos pastores. E com respostas prontas e apressadas.

A resposta ocorre dentro da sua lamentação, embebida das razões da piedade e com piedade, por uma vez, em relação à sua própria razão.

O profeta ainda poderá ser profeta, mesmo sem compreender até o fim. Mas não sem ter aprendido a distinguir entre o essencial, o metal precioso que traz à tona a humanidade mais bela, e as escórias, que a revestem e às vezes a escondem, deturpando-a. Somente assim ele poderá continuar sendo o intérprete da palavra de Deus: “Se souberes distinguir o que tem valor daquilo que não presta, serás a minha boca” (Jr 15,19).

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