Almoço de domingo com as Supergatas e o profeta Jeremias

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19 Março 2018

Angie Hollar, mestre em teologia pela Jesuit School of Theology, faculdade teológica da Universidade de Santa Clara, e que atualmente leciona teologia em escolas de ensino médio, comenta as leituras do 5º domingo da Quaresma. As leituras são Jeremias 31,31-34; Salmo 51,3-4; 12-15; Hebreus 5,7-9; e João 12,20-33.

O comentário é publicado por Bondings 2.0, News Ways Ministry, 18-03-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o comentário.

Em geral os meus almoços (no original, ‘brunch’) de domingo são fascinantes, onde a natureza abunda e o riso e as lágrimas surgem em igual medida. Estes momentos são uma espécie de cruzamento entre um episódio de Supergatas [sitcom de grande sucesso na programação da NBC, exibida de 1985 a 1992] e um episódio de “Girls”, da HBO, em que os personagens usam vestidos apropriados à umidade da Flórida enquanto falam a verdade nua e crua da nossa humanidade de uma forma que Lena Dunham a transformou em uma forma de arte.

A minha imaginação trabalha espontaneamente e me convida para estes almoços quando me sinto um amálgama de solidão e confusão, e me desespero por relações autênticas. E imagino estes momentos ao dormir, ao dirigir, ao tomar banho. Eles alimentam a minha alma. Consolam-me, desafiam-me, guiam-me. Entendo esses almoços de domingo como uma versão de uma oração imaginativa.

Estive a meditar sobre as leituras bíblicas de hoje, e as demais pessoas presentes à mesa desta vez formam um par interessante: Brené Brown, professora de ciências sociais e autora, e Jocelyn Morffi, membro lésbica do corpo docente de uma escola católica e que era amada pela comunidade, mas que foi demitida por se casar com sua companheira. A presença destas mulheres especialmente à mesa enquadra a minha compreensão das passagens de hoje.

As passagens bíblicas falam para mim de um desejo humano profundo e primitivo por pertença. O profeta Jeremias prepara-se para o dia em que se atreverá a pregar uma verdade escandalosa. Quando antes se acreditava que rituais, leis e uma elite religiosa eram necessários para mediar a relação com o divino, Deus agora deixa claro que cada ser humano é dotado da capacidade de conhecer Deus nas profundezas de seu ser. “Colocarei minha lei em seu peito e a escreverei em seu coração; eu serei o Deus deles, e eles serão o meu povo”. Essa pertença a Deus é revelada como um elemento constitutivo do ser humano. Felizmente, os nossos corações conhecem esta verdade mesmo quando o nosso ego, o nosso intelecto e os nossos megafones internos da vergonha nos dizem o contrário.

Esta mensagem é bastante semelhante ao trabalho da Dra. Brené Brown, cuja pesquisa acadêmica se centra na vulnerabilidade, na vergonha, na coragem, na pertença e na comunidade. Brown amplia o trabalho dos biólogos evolucionistas, que postulam que, enquanto espécie humana social, estamos destinados a uma conexão e a uma necessidade de pertença porque – vendo a longa história humana – a exclusão da tribo ou do clã equivalia, em última análise, à morte.

Os frutos de sua pesquisa em ciências sociais levaram este ponto de vista adiante: exatamente no núcleo do que a doutora chama de “pertencimento verdadeiro” está a espiritualidade – uma convicção profunda e inabalável segundo a qual estamos intrincadamente conectados com toda coisa criada por algo maior do que nós mesmos, o que os cristãos chamam Deus. A ciência secular está ligando os pontos entre a necessidade humana de sermos envolvidos e desejados pelo grupo e a necessidade humana de reconhecer que algo maior que nós mantém toda a criação unida numa matriz misteriosa de conexão cósmica.

Como o salmista na liturgia de hoje, suplicamos a Deus para que lave cada canto do nosso coração de forma que nada insidioso possa nos impedir de pertencer. Com a postura de uma humildade manifesta, pedimos que Deus abra o nosso coração e lance uma luz sobre todos os que necessitam de ternura e cura. Expressamos o nosso desejo pela alegria que vem de saber, do fundo do nosso ser, que, apesar das nossas falhas e fraquezas, somos aceitos e desejados incondicionalmente.

Talvez o caminho vulnerável que o salmista descreve seja um passo necessário em direção ao discernimento de como o nosso eu autêntico pode melhor surgir no mundo. Em entrevista, Brown diz: “A pertença verdadeira é a prática espiritual de crer em nós mesmos e pertencer a nós mesmos tão plenamente que encontramos aquilo que é sagrado não só em ser parte de algo, como o nosso DNA nos convida a ser, mas também encontramos no sagrado, ocasionalmente, a necessidade de nos mantermos com os nossos valores, em nossas crenças”.

É uma espécie de paradoxo que a nossa experiência de “pertença verdadeira” pode, às vezes, levar a relações frágeis. Quando agimos a partir deste lugar de enraizamento, corremos riscos em nome dos justos. Imagino que Jocelyn Morffi, e todos os que foram demitidos por assumirem compromissos perpétuos com os seus parceiros e parceiras, conheça essa realidade mais intimamente do que muitos. Mas como os profetas de todas as épocas também sabem, o arco do universo moral que se inclina no sentido da justiça não se dá sem sofrimento e conflito: nem mesmo dentro da Igreja.

Devo dizer que, diferentemente da maioria dos que me acompanham nas orações e refeições de domingo, desta vez correram mais lágrimas de lamento do que de risos. A dor da exclusão e rejeição – seja da família, dos amigos, colegas ou da comunidade religiosa – é real e atravessa o fundo do nosso ser. No entanto, as leituras de hoje nos lembram que a misericórdia de Deus não tem limite e que o desejo dele por cada um de nós é inextinguível.

E, portanto, não posso evitar esta pergunta: O mundo seria diferente se cada um de nós permitisse que o nosso chamado ao “pertencimento verdadeiro” modelasse a nossa vida e guiasse as nossas escolhas? Aguardo ansiosa para refletir sobre essa questão em meu próximo almoço de domingo; pergunto-me quem irá se juntar a mim...

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