A Europa naufraga em Lesbos

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06 Março 2020

"Ninguém se pergunta seriamente o que mudou em relação a cinco anos atrás, o outono dos refugiados, e quais as consequências que a Europa tirou daquele episódio perturbador que mudou os destinos. Agora é banal observar o quanto os triunfos da direita na Itália, França, Alemanha e outros lugares foram uma consequência direta daquela crise", escreve Tonia Mastrobuoni, em artigo publicado por La Repubblica, 05-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Enquanto gangues de neonazistas da Aurora Dourada espancam migrantes em Lesbos, a guarda costeira grega os recebe a pauladas nos botes de borracha e a polícia atira neles agora sem o menor pudor, os líderes da UE chegaram à Grécia em pompa magna para proclamar através da Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, uma trágica tautologia: "Esta fronteira não é apenas grega, é a fronteira da Europa". Infelizmente, sobre esse arame farpado coberto de sangue, a Europa está sofrendo seu maior fracasso. Os comentaristas de cada país se perguntam se o continente está arriscando uma reedição da crise de refugiados de 2015. Eles pesam as analogias em termos numéricos, estimam seu impacto nos sistemas sociais, tentam medir o poder do impulso dos desesperados em escapar da Turquia que pressionam às portas da Europa.

Ninguém se pergunta seriamente o que mudou em relação a cinco anos atrás, o outono dos refugiados, e quais as consequências que a Europa tirou daquele episódio perturbador que mudou os destinos. Agora é banal observar o quanto os triunfos da direita na Itália, França, Alemanha e outros lugares foram uma consequência direta daquela crise. E, no entanto, o primeiro clamoroso fracasso já pode ser visto na oferta da Alemanha de aceitar 5.000 refugiados da Grécia. Uma oferta generosa, é claro, e ao governo Merkel deve ser reconhecido que sempre recebeu uma cota dos migrantes em chegada, inclusive da Itália. Mas é incrível que, depois de cinco anos, todo navio que chega, todo punhado de migrantes que desembarca nas fronteiras, recoloque em movimento uma negociação infernal sobre quem os deve assumir.

Durante todo esse tempo, a UE não conseguiu resolver o problema das realocações, devido à recusa irredutível, nunca sancionada de forma alguma, de alguns países do Leste de dar acolhimento. Sobre isso, deveríamos reapresentar todos os dias aos países nórdicos a pergunta-chave formulada por Paolo Gentiloni, quando ainda era ministro do Exterior. Por que Alemanha, Holanda ou Áustria são tão severos com a Itália em relação às contas públicas, apontando para os Pactos europeus, e fecham os dois olhos diante da recusa da Polônia e da Hungria em respeitar acordos igualmente europeus sobre os refugiados? Outro fracasso clamoroso é que a UE não tenha conseguido mudar a perversa reforma de Dublin, que continua a jogar o ônus das chegadas nos países de desembarque.

Uma desigualdade geográfica que existe para lembrar todos os dias aos italianos, gregos e espanhóis como estão sozinhos diante de um dos maiores desafios do futuro. E a descarada chantagem de Erdogan para a UE também nos lembra o terceiro clamoroso fracasso pós-2015: a ideia de Angela Merkel de fazer acordos com os países à beira do Mediterrâneo para conter os refugiados encalhou em um vício de base. Dá a esses governos uma alavanca mortal sobre a UE, que o Sultão começou a explorar desde o primeiro dia do acordo sobre refugiados.

O fracasso sobre os migrantes é ainda mais grave, porque a Europa também mostrou nos últimos anos que ainda tem alguma capacidade de reação. Quando a Grande Crise eclodiu, levou alguns anos, mas ele criou um Fundo de ajuda aos Estados, lançou a União Bancária e Mario Draghi, com seu "whatever it takes", anunciou que o BCE estaria pronto para usar a bomba atômica para defender o euro. Em vez disso, após a crise dos refugiados, nada aconteceu. Um presente gigantesco que a Europa continua a dar em primeiro lugar a Matteo Salvini, Alexander Gauland, Marine Le Pen e aos neonazistas de Aurora Dourada que estão espancando os refugiados em Lesbos sem que ninguém sinta mais nem mesmo indignação.

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