“É incompreensível que quem destituiu teólogos por não se submeterem ao magistério papal, seja agora quem se opõe ao Papa”, afirma José María Castillo

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14 Janeiro 2020

Em defesa do papa Francisco.

"Se, efetivamente, é certo que o papa Ratzinger e seu sócio Sarah querem se opor ao atual pontífice, por manter (a todo custo) o celibato dos padres, tanto Ratzinger, como aqueles que concordam com ele nesse assunto, devem ter sempre muito presente que a Fé e a Tradição secular da Igreja nos ensina que o pensamento e o critério de governo, que eles defendem, não pode se opor ao critério fundamental da fé e da unidade da Igreja", escreve o teólogo espanhol José María Castillo, em artigo publicado por Religión Digital, 13-01-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Eis o artigo.

Me causa uma tristeza profunda a notícia da iminente publicação de um livro em que o papa emérito Joseph Ratzinger e outro clérigo importante, como o cardeal Robert Sarah, enfrentem o atual Sumo Pontífice da Igreja, o papa Francisco. O motivo do enfrentamento é o tema do celibato dos padres que, segundo parece, na opinião do papa renunciado, a Igreja tem que manter como obrigação necessária, ainda que os cristãos da Amazônia não possam ter padres que presidam a missa para aquelas pessoas e não possam ajudar aqueles cristãos em assuntos para os quais a própria Igreja exige a presença de um padre.

Se, efetivamente, é certo que o papa Ratzinger e seu sócio Sarah querem se opor ao atual pontífice, por manter (a todo custo) o celibato dos padres, tanto Ratzinger, como aqueles que concordam com ele nesse assunto, devem ter sempre muito presente que a Fé e a Tradição secular da Igreja nos ensina que o pensamento e o critério de governo, que eles defendem, não pode se opor ao critério fundamental da fé e da unidade da Igreja, que inclui essencialmente a comunhão com o Vigário de Cristo na Terra, o bispo de Roma. Assim definiu, como questão de “fé divina e católica” o Concílio Vaticano I (Constituição “Dei Filius”, cap. 3. Denz – Hün, nº 3011; Constituição “Pastor aeternus”, cap. 3º, Denz – Hün, nº 3060).

Por isso é incompreensível que quem destituiu tantos teólogos, por não se submeterem incondicionalmente ao magistério papal, como foi o caso do cardeal Ratzinger, enquanto esteve no cargo de Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, agora seja o mesmo que se opõe ao papa Francisco, em um assunto que não afeta a fé da Igreja.

Efetivamente, é de suma importância ter presente que o tema e a obrigatoriedade do celibato eclesiástico não tenha sido nunca, e não é neste momento, um dogma de fé. Nem sequer é um dever universal da Igreja. Já que nas Igrejas Orientais nunca se manteve, nem se mantém, a obrigatoriedade do celibato eclesiástico.

Ademais, a autoridade eclesiástica deveria ter sempre presente que, nos diversos escritos do Novo Testamento, se mantém exatamente a doutrina oposta a atual norma do celibato sacerdotal. Segundo os Evangelhos, Jesus não o impôs aos seus apóstolos. São Paulo, afirma que ele, como os demais apóstolos, tinham “direito” (“postedade” – exousia) para serem acompanhados por uma mulher cristã (1Cor 9, 5). E nas cartas a Timóteo e a Tito afirma-se que os candidatos ao ministério eclesiástico, inclusive ao episcopado, devem ser homens casados com uma mulher, que saibam governar sua família, porque “quem não sabe governar sua própria casa, como vai cuidar da Igreja de Deus?” (cf. 1Tim 3, 2-5; Tit 1, 6).

Ainda mais, sabe-se que inclusive no Concílio Ecumênico de Niceia, o bispo Pafnucio, da Tebaida Superior, celibatário e venerado confessor da fé, gritou diante da assembleia “que não se deveria impor aos homens consagrados esse pesado fardo, dizendo que é também digno de honra o ato matrimonial e o próprio matrimônio é imaculado; e que não geraria danos à Igreja exagerando na severidade; porque nem todos podem suportar a asthesis da ‘apatheia’, nem se proveria equitativamente a temperança de suas respectivas esposas” (Sócrates, Hist. Eccl., I, XI, p. 67, 101-104).

É evidente que não se pode privar os cristãos dos sacramentos, sobretudo da eucaristia, por manter uma disciplina cujas origens foram uma evidente contradição com o que nos ensina o Novo Testamento.

Finalmente, se é que, efetivamente, as ideias de um Papa renunciado enfrentam ao único Sumo Pontífice, que atualmente governa a Igreja, essa própria Igreja tem que se perguntar seriamente e tirar as devidas consequências do significado e as consequências que se pode ter – e está tendo – a presença, no próprio Estado do Vaticano, de um bispo que foi Sumo Pontífice, porém que já não é mais. Quando ocorre a possibilidade de falar sobre “dois papas” e dar origem a situações de confusão e divisões na Igreja, não seria necessário e até urgente que o Papa renunciado morasse em outro lugar?

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