Um livro bomba. Ratzinger e Sarah pedem a Francisco para não dar abertura a padres casados

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14 Janeiro 2020

Eles se encontraram. Eles escreveram um para o outro. Precisamente enquanto “o mundo retumbava com o ruído criado por uma estranho Sínodo dos meios de comunicação que ocupava o lugar do Sínodo real”, o da Amazônia.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 13-01-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

E decidiram romper o silêncio: “Era nosso dever sagrado recordar a verdade do sacerdócio católico. Nesses tempos difíceis, cada um deve temer que um dia Deus lhe dirija essa dura reprovação: ‘Maldito sejas, por não dizer nada’”. Invectiva retomada por Santa Catarina de Sena, grande chicote de Papas.

Capa do livro de Bento XVI e Robert Sarah em defesa
do celibato sacerdotal. Publicação original em francês.
Foto: Divulgação

Pouco antes do Natal, o papa emérito Bento XVI e o cardeal guineense Robert Sarah entregaram à imprensa um livro que sairá na França em meados de janeiro, publicado por Fayard, com o título: “Das profundezas de nossos corações”, isso é, antes de que o papa Francisco tenha ditado as conclusões do Sínodo Amazônico que, na realidade, mais que sobre rios e selvas, foi uma furiosa discussão sobre o futuro do sacerdócio católico, com celibato ou não, e se aberto futuramente às mulheres.

Efetivamente, para Francisco será um problema sério abrir a porta a padres casados e ao diaconato feminino depois de que seu predecessor e um cardeal de profunda doutrina e evidente santidade de vida como Sarah tenham tomado uma posição tão clara e poderosa argumentada em defesa do celibato sacerdotal, dirigindo-se ao atual papa com essas palavras quase de ultimato, escritas com a caneta de um, porém com o pleno consentimento do outro:

“Há um vínculo ontológico-sacramental entre o sacerdócio e o celibato. Cada vez que se redimensiona esse vínculo questiona-se o magistério do concílio e dos papas Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. Suplico humildemente ao papa Francisco que nos proteja definitivamente desta eventualidade, vetando qualquer enfraquecimento do celibato sacerdotal, não importa se limitada a essa ou outra região”.

O livro de 180 páginas, depois de um prólogo de Nicolas Diat, articula-se em quatro capítulos:

O primeiro intitulado “De que tens medo?” , é uma introdução assinada conjuntamente pelos dois autores, datada de setembro de 2019.

O segundo é de Joseph Ratzinger, de enfoque bíblico e teológico, e leva o título “O sacerdócio católico”. Está datada de 17 de setembro, antes do início do Sínodo.

O terceiro é do cardeal Sarah e se intitula: “Amar até o final. Enfoque eclesiológico e pastoral sobre o celibato sacerdotal”. Está datado de 25 de novembro, um mês depois de acabar o sínodo, do qual o autor participou assiduamente.

O quarto é a conclusão conjunta de ambos os autores, intitulado “A sombra da cruz” e leva a data de 3 de dezembro.

No capítulo assinado por ele, Ratzinger quer, especialmente, colocar luz sobre a profunda unidade entre os dois testamentos, através da passagem do Templo da pedra para o Templo que é o Corpo de Cristo”.

E aplica essa hermenêutica a três textos bíblicos, dos quais extrai a noção cristã do sacerdócio celibatário.

O primeiro é uma passagem do Salmo 16: “O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice...”.

O terceiro são essas palavras de Jesus no Evangelho de João 17, 17: “Santificá-los na verdade; tua palavra é verdade”.

Enquanto que o segundo são duas passagens do Deuteronômio (10, 8 e 18, 5-8) incorporados à Oração Eucarística II: “Te damos graças porque faz-nos dignos de te servir na tua presença”.

Para ilustrar o significado dessas palavras, Ratzinger cita quase integralmente a homilia que pronunciou em São Pedro, na manhã de 20 de março de 2008, quinta-feira santa, na missa de crisma em que se ordenam os padres.

Homilia que reproduzimos abaixo, como pequena amostra de todo o livro, e das páginas mais diretamente dedicadas à questão do celibato.

*

“Nós não inventamos a Igreja como queiramos que seja”,
por Joseph Ratzinger / Bento XVI (20 de março de 2008)

A Quinta-Feira Santa é para nós uma ocasião para nos perguntarmos sempre de novo: Ao que dissemos “sim”? O que significa “ser sacerdote de Jesus Cristo”? O Cânone II do nosso Missal, que provavelmente foi redigido já no final do século II em Roma, descreve a essência do ministério sacerdotal com as mesmas palavras com as quais, no Livro do Deuteronômio (18, 5.7), era descrita a essência do sacerdócio veterotestamentário: astare coram te et tibi ministrare. Portanto, são duas as tarefas que definem a essência do ministério sacerdotal: em primeiro lugar o “estar diante do Senhor”.

No Livro do Deuteronômio isto deve ser lido no contexto da disposição precedente, segundo a qual os sacerdotes não recebiam porção alguma de terreno na Terra Santa eles viviam de Deus e por Deus. Não se ocupavam dos normais trabalhos necessários para o sustento da vida cotidiana. A sua profissão era “estar diante do Senhor” olhar para Ele, estar com Ele. Assim, em última análise, a palavra indicava uma vida na presença de Deus e com isto também um ministério em representação dos outros. Assim como os outros cultivavam a terra, da qual vivia também o sacerdote, assim ele mantinha o mundo aberto para Deus, devia viver com o olhar dirigido para Ele.

Se esta palavra agora se encontra no Cânone da Missa imediatamente depois da consagração dos dons, depois da entrada do Senhor na assembleia em oração, então isto indica para nós o estar diante do Senhor presente, isto é, indica a Eucaristia como centro da vida sacerdotal. Mas também aqui o alcance vai além. No hino da Liturgia das Horas que durante a quaresma introduz o Ofício das leituras o Ofício que outrora os monges recitavam durante a hora da vigília noturna diante de Deus e pelos homens uma das tarefas da quaresma é descrita com o imperativo: arctius perstemus in custodia, estejamos vigilantes de modo mais intenso. Na tradição do monaquismo sírio, os monges eram qualificados como "os que estão em pé"; estar em pé era a expressão da vigilância.

O que era considerada tarefa dos monges, podemos com razão vê-la também como expressão da missão sacerdotal e como justa interpretação da palavra do Deuteronômio: o sacerdote deve ser alguém que vigia. Deve estar alerta diante dos poderes ameaçadores do mal. Deve manter o mundo desperto para Deus. Deve ser alguém que está em pé: firme diante das correntes do tempo. Firme na verdade. Firme no compromisso pelo bem. Estar diante do Senhor deve ser sempre, no mais profundo, também um ocupar-se dos homens junto do Senhor que, por sua vez, se ocupa de todos nós junto do Pai. E deve ser um ocupar-se d'Ele, de Cristo, da sua palavra, da sua verdade, do seu amor. Firme deve ser o sacerdote, destemido e disposto a suportar pelo Senhor até ultrajes, como referem os Atos dos Apóstolos: eles “cheios de alegria por terem sido considerados dignos de sofrer vexames por causa do nome de Jesus” (5, 41).

Passemos agora à segunda palavra, que o Cânone II retoma do texto do Antigo Testamento “estar diante de ti e servir-te”. O sacerdote deve ser uma pessoa reta, vigilante, uma pessoa que sabe ser firme. A tudo isto acrescente-se depois o servir. No texto veterotestamentário esta palavra tem um significado essencialmente ritual: aos sacerdotes competiam todas as ações de culto previstas pela Lei. Mas este agir segundo o rito era depois classificado como serviço, como um encargo de serviço, e explica-se assim em que espírito aquelas atividades deviam ser desempenhadas. Com a assunção da palavra "servir" no Cânone, este significado litúrgico da palavra é de certa forma adoptada de acordo com a novidade do culto cristão. O que o sacerdote faz naquele momento, na celebração da Eucaristia, é servir, realizar um serviço a Deus e um serviço aos homens. O culto que Cristo prestou ao Pai foi doar-se até ao fim pelos homens. O sacerdote deve inserir-se neste culto, neste serviço. Assim, a palavra "servir" assume muitas dimensões. Certamente dela faz parte antes de tudo a reta celebração da Liturgia e dos Sacramentos em geral, realizada com participação interior.

Devemos aprender sempre a compreender cada vez mais a sagrada Liturgia em toda a sua essência, desenvolver uma viva familiaridade com ela, de modo que se torne a alma da nossa vida cotidiana. É então que celebramos de modo justo, que sobressai a ars celebrandi, a arte de celebrar. Nesta arte nada deve haver de artificial. Se a Liturgia é uma tarefa central do sacerdote, isto significa também que a oração deve ser uma realidade prioritária que se deve aprender sempre de novo e sempre cada vez mais profundamente na escola de Cristo e dos santos de todos os tempos. Dado que a Liturgia cristã, pela sua natureza, é sempre também anúncio, devemos ser pessoas que têm familiaridade com a Palavra de Deus, a amam e a vivem: só então a poderemos explicar de maneira adequada. “Servir o Senhor” o serviço sacerdotal significa precisamente também aprender a conhecer o Senhor na sua Palavra e fazê-Lo conhecer a todos os que Ele nos confia.

Por fim, fazem parte do servir ainda outros dois aspectos. Ninguém está tão próximo do seu senhor como o servo que tem acesso à dimensão mais privada da sua vida. Neste sentido “servir” significa proximidade, exige familiaridade. Esta familiaridade inclui também um perigo: o de que o sagrado por nós continuamente encontrado se torne para nós um hábito. Desaparece assim o temor reverencial. Condicionados por todos os costumes, não deixamos de compreender o facto grande, novo, surpreendente, que Ele mesmo está presente, nos fala, se doe a nós. Contra este acostumar-se à realidade extraordinária, contra a indiferença do coração, devemos lutar sem tréguas, reconhecendo sempre de novo a nossa insuficiência e a graça que existe no facto de que Ele se entregue assim nas nossas mãos. Servir significa proximidade, mas significa sobretudo também obediência. O servo está sob a palavra: “Não seja feita a minha, mas a tua vontade” (Lc 22, 42).

Com esta palavra, Jesus no Jardim das Oliveiras resolveu a batalha decisiva contra o pecado, contra a rebelião do coração decaído. O pecado de Adão consistia, precisamente, no facto de que ele queria realizar a sua vontade e não a de Deus. A tentação da humanidade é sempre a de querer ser totalmente autônoma, de seguir apenas a própria vontade e considerar que só assim nós seremos livres; que só graças a uma tal liberdade sem limites o homem seria completamente homem. Mas precisamente assim vamos contra a verdade. Porque a verdade é que devemos partilhar a nossa liberdade com os demais e só podemos ser livres em comunhão com eles.

Esta liberdade partilhada só pode ser liberdade verdadeira se com ela entramos no que constitui a própria medida da liberdade, se entramos na vontade de Deus. Esta obediência fundamental que faz parte do ser homem, um ser não por si e só para si mesmo, torna-se ainda mais concreta no sacerdote: nós não anunciamos a nós próprios, mas a Ele e à sua Palavra, que sozinhos não poderíamos idealizar. Anunciamos a Palavra de Cristo de modo justo só na comunhão do seu Corpo.

A nossa obediência é um crer com a Igreja, um pensar e falar com a Igreja, um servir com ela. Faz parte disto sempre também o que Jesus predisse a Pedro: “Serás levado onde não queres”. Este deixar-se guiar para onde não queremos é uma dimensão fundamental do nosso servir, e é precisamente o que nos torna livres. Neste ser guiados, que pode ser contrário às nossas ideias e projetos, experimentamos algo novo, a riqueza do amor de Deus.

“Estar diante d'Ele e servi-Lo”: Jesus Cristo como verdadeiro Sumo Sacerdote do mundo conferiu a estas palavras uma profundidade antes inimaginável. Ele, que como Filho era e é o Senhor, quis tornar-se aquele servo de Deus que a visão do Livro do profeta Isaías tinha previsto. Quis ser o servo de todos. Representou o conjunto do seu sumo sacerdócio no gesto do lava-pés.

Com o gesto do amor até ao fim ele lava os nossos pés sujos, com a humildade do seu servir purifica-nos da doença da nossa soberba. Assim faz com que nos tornemos convidados de Deus. Ele desceu, e a verdadeira elevação do homem realiza-se agora no nosso descer com Ele e para Ele. A sua elevação é a Cruz. É a descida mais profunda e, como amor levado até ao extremo, é ao mesmo tempo o ápice da elevação, a verdadeira "ascensão" do homem.

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