Bolívia: um levante popular aproveitado pela extrema direita. Artigo de Raúl Zibechi

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13 Novembro 2019

“A imensa maioria das pessoas que vivem na Bolívia não entrou no jogo de guerra que Morales-García Linera quiseram impor quando renunciaram e lançaram seus partidários na destruição e nos saques (principalmente em La Paz e El Alto), provavelmente para forçar a intervenção militar e, assim, justificar sua denúncia de um “golpe” que nunca existiu. Tampouco entraram no jogo da extrema direita, que age de forma violenta e racista contra os setores populares”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por DesInformémonos, 11-11-2019. A tradução é do Cepat.

Segundo ele, "não podemos esquecer que, neste momento, existe um sério risco de que a direita racista, colonial e patriarcal consiga aproveitar a situação para se impor e provocar um banho de sangue. O revanchismo político e social das classes dominantes está tão latente como nos últimos cinco séculos e deve ser freado sem vacilações". E alerta: "Não entremos no jogo da guerra que ambos os lados querem nos impor".

Eis o artigo.

O levante do povo boliviano e de suas organizações foi o que, em última instância, provocou a queda do governo. Os principais movimentos exigiram a renúncia antes das forças armadas e da polícia. A OEA sustentou o governo até o fim. A crítica conjuntura que a Bolívia atravessa não começou com a fraude eleitoral, mas, sim, com o sistemático ataque do governo de Evo Morales e Álvaro García Linera aos movimentos populares que os levaram ao Palácio Quemado, a ponto que, quando precisaram que fossem defendidos, estavam desativados e desmoralizados.

1. A mobilização social e a recusa dos movimentos em defender o que em seu momento consideraram “seu” governo foi o que provocou a renúncia. É o que testemunham as declarações da Central Operária Boliviana, dos professores e autoridades da Universidade Pública de El Alto (UPEA), de dezenas de organizações e de Mulheres Criando, talvez a mais clara de todas. A esquerda latino-americana não pode aceitar que uma parte considerável do movimento popular exigiu a renúncia do governo, porque não pode enxergar além dos caudilhos.

A declaração da histórica Federação Sindical dos Trabalhadores Mineiros da Bolívia (FSTMB), próxima ao governo, é o exemplo mais claro do sentimento de muitos movimentos: “Presidente Evo, você já fez muito pela Bolívia, melhorou a educação, a saúde, deu dignidade a muita gente pobre. Presidente, não deixe que seu povo arda, nem que haja mais mortos, presidente. O povo todo irá valorizá-lo por essa posição que precisa ter e a renúncia é inevitável companheiro Presidente. Temos que deixar o governo nacional nas mãos do povo”.

2. Esse triste desenlace tem antecedentes que remontam, em estreita síntese, à marcha em defesa do Território Indígena e do Parque Nacional Isiboro-Sécure (TIPNIS), em 2011. Após essa ação multitudinária, o governo começou a dividir as organizações que a convocaram.

Enquanto Morales-García Linera mantiveram excelentes relações com o empresariado, deram um golpe de Estado contra o Conselho Nacional de Ayllus y Markas del Qullasuyu (CONAMAQ) e a Confederação de Povos Indígenas da Bolívia (CIDOB), duas organizações históricas dos povos originários. Enviaram à polícia, expulsaram os líderes legítimos e atrás chegaram, protegidos pela polícia, os líderes em sintonia com o governo.

Em junho de 2012, a CIDOB denunciou “a interferência do governo com o único objetivo de manipular, dividir e afetar as instâncias orgânicas e representativas dos povos indígenas da Bolívia”. Um grupo de dissidentes com apoio do governo ignorou as autoridades e convocou uma “comissão ampliada” para eleger novas autoridades.

Em dezembro de 2013, um grupo de dissidentes do CONAMAQ, ligados ao MAS, tomou posse, golpeou e expulsou os que ali se encontravam com o apoio da polícia, que permaneceu vigiando a sede e impedindo que as autoridades legítimas a recuperassem. O comunicado da organização afirma que o golpe contra o CONAMAQ foi para “aprovar todas as políticas contra o movimento indígena originário e o povo boliviano, sem que ninguém possa dizer algo”.

3. Em 21 de fevereiro de 2016, o próprio governo convocou um referendo para que a população se pronunciasse a favor ou contra a quarta reeleição de Morales. Embora a maioria tenha dito NÃO, o governo prosseguiu com os planos de reeleição.

Os dois fatos, o desconhecimento da vontade popular e a expulsão das legítimas lideranças dos movimentos sociais, representam golpes contra o povo.

Mais grave ainda. Na manhã de quarta-feira, 17 de fevereiro, dias antes do referendo, uma manifestação de pais de alunos chegou até a prefeitura de El Alto. Um grupo de cem manifestantes entrou à força nas instalações, causando um incêndio no qual seis pessoas morreram. Os manifestantes que se esconderam na mobilização dos pais pertenciam ao governista Movimento para o Socialismo (MAS).

Esse é o estilo de um governo que denuncia “golpe”, mas, por mais de uma vez, agiu repressivamente contra os setores populares organizados que enfrentaram suas políticas extrativistas.

4. As eleições de 20 de outubro consumaram uma fraude para a maioria das pessoas na Bolívia. Os primeiros dados apontavam para um segundo turno. Contudo, a contagem foi interrompida sem qualquer explicação e os dados oferecidos no dia seguinte mostraram que Evo vencia no primeiro turno, pois obteve mais de 10% de diferença, ainda que não chegasse a 50% dos votos.

Em várias regiões, ocorrem confrontos com a polícia, enquanto os manifestantes queimam três escritórios regionais do tribunal eleitoral em Potosí, Sucre e Cobija. As organizações cidadãs convocam uma greve geral por tempo indeterminado. No dia 23, Morales denuncia que está em andamento um “golpe de estado” por parte da direita boliviana.

Na segunda-feira, dia 28, o protesto se intensifica com bloqueios e confrontos com a polícia, mas também entre apoiadores e opositores do governo. Como em outras ocasiões, Morales-García Linera mobilizam as organizações cooptadas para confrontar outras organizações e pessoas que se opõem a seu governo.

Em 2 de novembro, há uma virada importante. O presidente do Comitê Cívico de Santa Cruz, que mantinha uma aliança com o governo de Morales, Luis Fernando Camacho, chama o exército e a polícia a “ficar do lado do povo” para forçar a renúncia do presidente, invocando a Deus e a bíblia Na sexta-feira, dia 8, as três primeiras unidades policiais se rebelam em Cochabamba, Sucre e Santa Cruz, e os uniformizados se confraternizam com manifestantes em La Paz. Dois dias depois, com um país mobilizado, o binômio oferece sua renúncia verbal, não escrita.

5. Nesse cenário de polarização, devemos destacar a notável intervenção do movimento feminista boliviano, em particular do coletivo Mulheres Criando, que liderou uma articulação de mulheres nas principais cidades.

No dia 6 de novembro, em plena polarização violenta, María Galindo escreveu no jornal Página 7: “Fernando Camacho e Evo Morales são complementares”. “Ambos se levantam como únicos representantes do povo”. Ambos odeiam as liberdades das mulheres e dos LGBT. Ambos são homofóbicos e racistas, ambos usam o conflito para tirar vantagem”.

Não apenas exige a renúncia do governo e do tribunal eleitoral (cúmplice da fraude), como também a convocação de novas eleições com outras regras, onde a sociedade esteja envolvida, para que “ninguém necessite nunca mais de um partido político para ser escutad@ e para fazer exercício de representação ”.

A imensa maioria das pessoas que vivem na Bolívia não entrou no jogo de guerra que Morales-García Linera quiseram impor quando renunciaram e lançaram seus partidários na destruição e nos saques (principalmente em La Paz e El Alto), provavelmente para forçar a intervenção militar e, assim, justificar sua denúncia de um “golpe” que nunca existiu. Tampouco entraram no jogo da extrema direita, que age de forma violenta e racista contra os setores populares.

6. Nós, da esquerda latino-americana, se é que ainda resta algo nela de ética e dignidade, devemos refletir sobre o poder e os abusos que esse exercício implica. Como as feministas e os povos originários nos ensinam, o poder é sempre opressivo, colonial e patriarcal. Por isso, elas rejeitam os caudilhos e as comunidades trocam seus chefes para que não acumulem poder.

Não podemos esquecer que, neste momento, existe um sério risco de que a direita racista, colonial e patriarcal consiga aproveitar a situação para se impor e provocar um banho de sangue. O revanchismo político e social das classes dominantes está tão latente como nos últimos cinco séculos e deve ser freado sem vacilações.

Não entremos no jogo da guerra que ambos os lados querem nos impor.

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