Dia Mundial dos Pobres. A centralidade dos pobres na igreja

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08 Novembro 2019

"Para a fé cristã, a pobreza e a marginalização não são apenas uma questão sócio-política e ética (justiça social), mas também e mais radicalmente uma questão espiritual que diz respeito à nossa relação com Deus (salvação)", escreve Francisco de Aquino Júnior, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte – CE, professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Eis o artigo. 

No final do Jubileu Extraordinário da Misericórdia (2015-2016), o papa Francisco instituiu o Dia Mundial dos Pobres, a ser celebrado no penúltimo domingo do tempo litúrgico. Seu objetivo é recuperar e reavivar na Igreja “um elemento requintadamente evangélico, isto é, a predileção de Jesus pelos pobres” para que “as comunidades cristãs se tornem, em todo o mundo, cada vez mais e melhor sinal concreto da caridade de Cristo pelos últimos e os mais carentes” [1].

Se isso é um aspecto constitutivo e essencial da revelação e da fé cristãs, como se pode comprovar na Sagrada Escritura e em toda a Tradição da Igreja, torna-se ainda mais relevante, urgente e prioritário em nosso tempo, dados o crescimento da desigualdade social e a situação dramática e desesperadora em que vivem tantos filhos e filhas de Deus em nosso mundo.

Para ajudar as comunidades, pastorais, movimentos e organismos da Igreja do Brasil a celebrar o III Dia Mundial dos Pobres (17/11/2019), apresentaremos alguns dados que ajudam a compreender as dimensões e proporções da pobreza no Brasil e no mundo, destacaremos com Francisco o “vínculo indissolúvel entre nossa fé e os pobres” (EG 48) e indicaremos alguns aspectos do compromisso da Igreja com os pobres.

I – Dimensões e proporções da pobreza

A pobreza é a característica mais determinante, gritante e escandalosa de nossa sociedade. Antes de tudo pela dimensão e proporção que adquiriu: São milhões de pessoas que vivem em condições sub-humanas, carecendo das condições materiais básicas de sobrevivência. E, mais ainda, por ser algo produzido e lucrativo: não é um fenômeno natural, fruto do acaso ou do destino, mas fruto de opções políticas e econômicas, consequência natural da riqueza ou acumulação de bens.

Se isso caracteriza a maioria das sociedades que conhecemos, a ponto de ser naturalizado por muita gente (“sempre foi assim”), adquiriu em nossa sociedade dimensões e proporções incomparáveis e escandalosas:

Situação mundial: enquanto a América do Norte e a Europa têm apenas 18,6% da população e concentram 67,1% de toda riqueza global, a África e a América do Sul têm 20,3% da população e detém apenas 11,1% da riqueza [2]; apenas 147 companhias controlam 40% da riqueza total do mundo [3]; enquanto 8,6% da população detém 85,3% de toda a riqueza no mundo, 69,8% da população pobre detém apenas 2,9% da riqueza [4]; 0,7% da população mundial detém 46% da riqueza total do mundo, enquanto 73,2% da população detém apenas 2,4% da riqueza; 1% da população tem mais riqueza do que os 99% restante; 8 indivíduos detém a mesma riqueza que a metade mais pobre do mundo; entre 1998 e 2011, a renda dos 10% mais pobres aumenta cerca de 65 dólares, enquanto a renda de 1% mais rico aumentou cerca de 11.800 dólares (182 vezes mais) [5].

Situação brasileira: De 2016 para 2017 o número de pobres que vivem com até 406 reais por mês passou de 52,8 para 54,8 milhões (2 milhões a mais!) e o número de pessoas que vivem na extrema pobreza com até 140 reais por mês passou de 13,5 para 15,2 milhões de pessoas (quase 2 milhões a mais!); percentual de pobreza por regiões: nordeste (44,8%), sudeste (17,4%), sul (12,8%); quase metade da população das regiões norte e nordeste tem rendimento mensal de até meio salário mínimo; entre 2014 e 2017 o número de pessoas sem ocupação passou de 6,9% para 12,5% da população (6,2 milhões de pessoas a mais!); 40,88% da população vive de trabalho informal; os brancos ganham, em média, 72,5% mais que pretos e pardos e os homens 29,7% mais que as mulheres [6]; estudos parciais de 2015 estimavam mais de 100 mil pessoas vivendo em situação de rua no Brasil [7]...

Convém advertir com Francisco que “os pobres não são número” e não podem ser reduzidos a dados estatísticos [8]. Por trás desses dados, como tem recordado as conferências dos bispos da América Latina [9], estão pessoas com rostos concretos, vidas destroçadas: camponeses, indígenas, negros, mulheres, população em situação de rua, desempregados e subempregados, moradores de favelas e periferias, vítimas do tráfico, mães desesperadas, jovens pobres e negros, migrantes, população LGBT... São números escritos com lágrimas e sangue. Dados que ecoam como grito desesperado e silenciado de milhões de seres humanos que nos provocam, convocam e obrigam...

II – A igreja e os pobres

Se ninguém pode/deve ficar indiferente à situação de pobreza e miséria de que é vítima grande parte da população do Brasil e do mundo (senso de humanidade), muito menos podem ficar indiferentes os crentes em geral e os cristãos em particular (fé religiosa). Nem por humanidade nem por fé religiosa podemos aceitar o decreto de morte a tantos filhos/as de Deus e, consequentemente, “lavar as mãos” e nos desresponsabilizarmos de sua vida e de seu destino. É questão de “vida ou morte” para vítimas. E é questão de salvação ou de perdição para todos.

O papa Francisco, em fidelidade ao Evangelho de Jesus Cristo, tem insistido, com toda a Tradição cristã, no “vínculo indissolúvel entre nossa fé e os pobres” (EG 48). Ficar “surdo” ao clamor dos pobres, “coloca-nos contra a vontade do Pai e de seu Projeto”. Não se deve esquecer jamais que “a falta de solidariedade nas suas necessidades, influi diretamente sobre nossa relação com Deus” (EG 187).

Na mensagem que escreveu para o III Dia Mundial dos Pobres, Francisco recorda que a “descrição da ação de Deus em favor dos pobres” constitui um “refrão permanente da Sagrada Escritura” e, referindo-se a Mt 25, 40, afirma que “esquivar-se dessa identificação [com o pobre] equivale a ludibriar o Evangelho e diluir a revelação”. No centro do Evangelho do Reino está a Bem-aventurança aos pobres: “Bem-aventurados vós, os pobres” (Lc 6, 20). Jesus “inaugurou, mas confiou-nos, a nós seus discípulos, a tarefa de lhe dar seguimento, com a responsabilidade de dar esperança aos pobres. Sobretudo num período como o nosso, é preciso reanimar a esperança e restabelecer a confiança. É um programa que a comunidade cristã não pode subestimar. Disso depende a credibilidade do nosso anúncio e do testemunho dos cristãos” [10]. Aqui está o “critério-chave de autenticidade eclesial” (EG 195) com base no qual “a Igreja mede a sua fidelidade de Esposa de Cristo” [11].

Para a fé cristã, a pobreza e a marginalização não são apenas uma questão sócio-política e ética (justiça social), mas também e mais radicalmente uma questão espiritual que diz respeito à nossa relação com Deus (salvação). “A situação em que vivem os pobres é critério para medir a bondade, a justiça, a moralidade, enfim, a efetivação da ordem democrática” [12]. E é critério escatológico para medir a adesão ou rejeição de um povo ou de uma sociedade ao Deus que se revela na história de Israel e na vida de Jesus Cristo (Cf. Lc 10, 25-7; Mt 25, 1-40). De modo que os pobres e marginalizados são tanto os “juízes da vida democrática de uma nação” [13], quanto o “protocolo com base no qual seremos julgados” [14] ou o “passaporte para o paraíso” [15].

III – Compromisso com os pobres

Na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, Francisco afirma que “uma fé autêntica – que nunca é cômoda nem individualista – comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois de nossa passagem por ela” (EG 183). E em sua mensagem para o III Dia mundial dos Pobres insiste em não nos afastarmos do “Corpo do Senhor que sofre neles”, mas “tocar a sua carne para nos comprometermos em primeira pessoa num serviço que é autêntica evangelização”. E recorda que “a promoção, mesmo social, dos pobres não é um compromisso extrínseco ao anúncio do Evangelho; pelo contrário, manifesta o realismo da fé cristã e a sua vitalidade histórica. O amor que dá vida à fé em Jesus não permite que seus discípulos se fechem num individualismo asfixiador, oculto nas pregas duma intimidade espiritual, sem qualquer influxo na vida social” [16].

Mas não há receita para o compromisso com os pobres. Nem existe uma única forma de compromisso com os pobres. Implica proximidade e escuta, acompanhamento e partilha espiritual, assistência em suas necessidades imediatas, luta por seus direitos e pela transformação da sociedade... E as referências em nossa tradição eclesial são muitas e diversas: de Francisco de Assis, Vicente de Paula, Madre Teresa de Calcutá, Irmã Dulce a Oscar Romero, Helder Câmara, Ezequiel Ramin, Pedro Casaldáliga etc.; dos serviços de visita e assistência imediata aos necessitados às pastorais e aos organismos sociais que acompanham os pobres em suas lutas e organizações populares; da solidariedade cotidiana à luta pela transformação da sociedade.

Didaticamente, podemos indicar com Francisco quatro aspectos fundamentais do compromisso com os pobres [17]: 1) proximidade física e esforço de socorrê-los em suas necessidades; 2) cuidado espiritual e assistência religiosa; 3) vivência e fortalecimento da cultura da solidariedade e 4) enfrentamento das causas estruturais da pobreza e da injustiça no mundo através das lutas e organizações populares.

Importa ter presente que o compromisso com os pobres “envolve tanto a cooperação para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o desenvolvimento integral dos pobres, como os gestos mais simples e diários de solidariedade para com as misérias muito concretas que encontramos” (EG 188); passa tanto pelos gestos pessoais e comunitários de solidariedade, quanto pelas lutas por direitos e pela transformação da sociedade.

E importa recordar que o compromisso com os pobres é tarefa de todos na Igreja: “Ninguém deveria dizer que se mantém longe dos pobres porque suas opções de vida implicam prestar mais atenção a outras incumbências”; “ninguém pode sentir-se exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social” (EG, 201). “Todos os cristãos, incluindo os pastores, são chamados a preocupar-se com a construção de um mundo melhor”, unindo-se, nesta tarefa, às “demais Igrejas e comunidades eclesiais” (EG, 183). “Cada cristão e cada comunidade são chamados a ser instrumentos de Deus ao serviço da libertação e da promoção dos pobres” (EG, 187). Uma comunidade que não se compromete criativamente com a causa dos pobres, “facilmente acabará submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em práticas religiosas, reuniões infecundas ou discursos vazios” (EG, 207).

 

Notas: 

[1] PAPA FRANCISCO. Mensagem para o I Dia Mundial dos Pobres (19/11/2017). 

[2] Cf. POCHMANN, M. Desigualdade econômica no Brasil. São Paulo: Ideias & Letras, 2015, p. 50s.

[3] Cf. Ibidem, p. 57.

[4] Cf. Ibidem, p. 62s.

[5] Cf. DOWBOR, L. A era do capital improdutivo. São Paulo: Outras Palavras, 2017, p. 27ss.

[6] Cf. AGENCIA DE NOTICIAS IBGE. Síntese de Indicadores Sociais.

[7] Cf. IPEA. Estimativa da População em Situação de Rua no Brasil

[8] PAPA FRANCISCO. Mensagem para o III Dia Mundial dos Pobres

[9] Cf. Puebla (31-39), Santo Domingo (178), Aparecida (402).

[10] PAPA FRANCISCO. Mensagem para o III Dia Mundial dos Pobres. Op. cit.

[11] PAPA JOÃO PAULO II. Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte. São Paulo: Paulinas, 2002, n 49.

[12] CNBB. Exigências éticas da ordem democrática. São Paulo: Paulinas, 1989, n. 72.

[13] Ibidem.

[14] PAPA FRANCISCO. Via-sacra com os jovens na XXXI Jornada Mundial da Juventude na Polônia (29/07/2016). 

[15] PAPA FRANCISCO. Homilia no I Dia Mundial dos Pobres (19/11/2017). Disponível em:

[16] PAPA FRANCISCO. Mensagem para o III Dia Mundial dos Pobres. Op. cit.

[17] Cf. AQUINO JÚNIOR, Francisco de. Pastoral Social: Dimensão socioestrutural da caridade cristã. Brasília: CNBB, 2016, p. 51-55.

 

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