Críticos do Sínodo da Amazônia distorcem a tradição católica para sua conveniência

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26 Outubro 2019

Eu já observei anteriormente que a oposição ao Sínodo sobre a Amazônia era uma manifestação da atitude anti-Francisco mais geral de certos conservadores. E, a meu favor, agora podemos acrescentar a acusação de racismo, como pode ser visto neste bizarro discurso retórico de Bill Donohue, do Catholic League [disponível aqui, em inglês]. O Twitter também teve alguns feios tropos racistas, dos quais alguns estão sendo difundidos pelo clero. Eu fiquei agradecido e orgulhoso pelo meu colega da The Tablet, Chris Lamb, por ter pedido desculpas ao representante indígena na coletiva de imprensa da Santa Sé por esse comportamento ofensivo.

O comentário é de Michael Sean Winters, publicado por National Catholic Reporter, 25-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Outras críticas não foram explicitamente racistas, mas condescendentes com as culturas indígenas ou desordenadamente temerosas do sincretismo. Raymond Arroyo, da EWTN, poderia ser contado nesse tipo de ridículo, já que ele e o Pe. Gerald Murray se inquietaram com uma cerimônia de plantio de árvores que eles e outros críticos papais consideraram pagã. J. D. Flynn, da Catholic News Agency, pescou esse refrão, observando que “os aspectos cristãos identificáveis dos rituais [indígenas da Amazônia] frequentemente ocorreram junto com imagens e esculturas não identificadas e com a incorporação de rituais de origem pouco clara. Isso levou a confusão”.

A acusação de confusão já foi levantada contra Francisco antes, sempre por pessoas que gostam que a sua religião seja preta ou branca. Por que a imagem esculpida de uma mulher grávida é tão atormentadora para esses críticos, mas eles não pensam duas vezes no obelisco egípcio no centro da Praça de São Pedro, nem no afresco do oráculo de Delfos na Capela Sistina? Lembremos que os filisteus das gerações anteriores queriam cobrir os nus da Capela Sistina.

Outras críticas vieram mais das margens, mas ecoaram os mesmos pontos de debate. Um evento realizado pelo grupo conservador Voice of the Family acusou o Sínodo de perpetrar aquilo que chamaram de “polidemonismo”. Isso pode ser, como disse Flynn, “hiperbólico e exagerado”, mas é uma diferença de grau, e não de tipo, em relação às preocupações manifestadas por Flynn.

O tema comum de todos esses críticos é que, ao buscar evangelizar e acompanhar o povo da Amazônia, deveríamos lembrar que somos nós os que têm a verdade, que são eles os que precisam de instrução, que os seus modos pagãos devem ser “derrubados” e substituídos por modos cristãos, leia-se ocidentais. E, é claro, tudo isso é culpa do Papa Francisco.

O que falta em todas essas críticas é alguma consciência do fato de que a Igreja Católica, de fato, não vê culturas indígenas com tamanho horror, e os ensinamentos fundamentais da nossa fé sustentam que Deus atua em todas as culturas, em todos os corações humanos.

Consideremos o modo como a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, do Vaticano, lidou com a necessidade de reconhecer que as sementes do Evangelho já estão presentes em todas as culturas. Um documento de 1994, “A inculturação e a liturgia romana” [disponível aqui, em inglês], afirmava que as qualidades e os dons de cada povo não são negados. A inculturação “fortalece essas qualidades, aperfeiçoa-as e restaura-as em Cristo”. Por outro lado, a Igreja assimila esses valores quando compatíveis com o Evangelho, para “aprofundar a compreensão da mensagem de Cristo e dar uma expressão mais eficaz na liturgia e nos muitos aspectos diferentes da vida da comunidade dos fiéis. Esse duplo movimento no trabalho de inculturação expressa, assim, um dos componentes do mistério da encarnação".

A ideia de um “duplo movimento”, ou aquilo que poderíamos chamar de diálogo, é aparentemente desconhecida pelos críticos de Francisco, embora não fosse desconhecida pelo Papa São João Paulo II, que era o papa em 1994.

Talvez a referência ao documento de um dicastério seja um pouco insuficiente para os críticos. Que tal uma encíclica de João Paulo II? Quando o Santo Padre convocou dois Sínodos para discutir a vida da família, os conservadores correram para citar a encíclica Veritatis splendor, de João Paulo II, para reclamar das deficiências que eles percebiam na abordagem de Francisco. Por exemplo, aqui e aqui [ambos em inglês].

Os críticos têm um fetiche intelectual pela preocupação da encíclica em estabelecer a categoria dos “atos intrinsecamente maus”, uma categoria de que esses mesmos conservadores tendem a abusar. Mas, nessa mesma encíclica, lemos o seguinte:

“De fato, a lei natural, como vimos, ‘não é mais do que a luz da inteligência infundida por Deus em nós. Graças a ela, conhecemos o que se deve cumprir e o que se deve evitar. Esta luz e esta lei, Deus a concedeu na criação’. A justa autonomia da razão prática significa que o homem possui em si mesmo a própria lei, recebida do Criador.”

Essa lei natural é acessível a todos os homens e mulheres, não apenas aos cristãos, mas está necessariamente enraizada na lei divina. Caso você ache que João Paulo II estava com um péssimo “humor teológico”, a citação é de São Tomás de Aquino.

Um pouco depois, nessa mesma encíclica, o papa cita a encíclica Libertas praestantissimum, sobre a universalidade da lei natural, do seu antecessor Leão XIII, de 1888: “A lei natural está escrita e esculpida no coração de todos e de cada um dos homens, visto que esta não é mais do que a mesma razão humana enquanto nos ordena fazer o bem e intima a não pecar”. A referência é para toda e qualquer pessoa, incluindo as almas indígenas da Amazônia.

Se uma encíclica papal não é suficiente, que tal um documento de um Concílio Ecumênico? Na Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual, Gaudium et spes, existem várias passagens que invocam a lei natural, a presença salvífica de Cristo em toda a criação e o fato de que a Igreja pode se beneficiar de todo esforço e aprendizado humano, exceto o pecado. Aqui estão apenas algumas dessas passagens:

“Pois, pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado.”

“E o que fica dito, vale não só dos cristãos, mas de todos os homens de boa vontade, em cujos corações a graça opera ocultamente. Com efeito, já que por todos morreu Cristo e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se associarem a este mistério pascal por um modo só de Deus conhecido.”

“A igualdade fundamental entre todos os homens deve ser cada vez mais reconhecida, uma vez que, dotados de alma racional e criados à imagem de Deus, todos têm a mesma natureza e origem; e, remidos por Cristo, todos têm a mesma vocação e destino divinos.”

“Além disso, dado que a Igreja não está ligada, por força da sua missão e natureza, a nenhuma forma particular de cultura ou sistema político, econômico ou social, pode, graças a esta sua universalidade, constituir um laço muito estreito entre as diversas comunidades e nações, contanto que nela confiem e lhe reconheçam a verdadeira liberdade para cumprir esta sua missão.”

“A experiência dos séculos passados, os progressos científicos, os tesouros encerrados nas várias formas de cultura humana, os quais manifestam mais plenamente a natureza do homem e abrem novos caminhos para a verdade, aproveitam igualmente à Igreja. Ela aprendeu, desde os começos da sua história, a formular a mensagem de Cristo por meio dos conceitos e línguas dos diversos povos, e procurou ilustrá-la com o saber filosófico. Tudo isto com o fim de adaptar o Evangelho à capacidade de compreensão de todos e às exigências dos sábios. Esta maneira adaptada de pregar a palavra revelada deve permanecer a lei de toda a evangelização.”

Ainda não está convencido? Que tal algo da Sagrada Escritura? Nos Atos dos Apóstolos, ficamos sabendo que São Paulo foi a Atenas. Ele não levou uma marreta ao Parthenon. Em vez disso, quando ele foi pregar no Areópago, começou observando que havia encontrado entre os muitos templos pagãos um modesto altar “a um Deus desconhecido” e começou a proclamar essa divindade desconhecida, Jesus Cristo.

Ou, talvez, possamos considerar o Credo Niceno: seria uma forma de sincretismo confessar que Jesus é “consubstancial” ao Pai, uma ideia derivada da filosofia grega pagã, e não do pensamento judaico ou aramaico?

Além desses textos específicos, desde que Tomás de Aquino se encontrou com o pensador pagão Aristóteles, a lei natural foi entrelaçada com a revelação como fonte do nosso ensino moral católico. Os conservadores tendem a ver a lei natural de modo estreito e, curiosamente, não seguem Tomás de Aquino, que era muito mais indutivo em sua abordagem do que eles. E é uma questão em aberto se Tomás de Aquino fez realmente a alegação que eles fazem, ou seja, de que a lei natural pode ser apreendida por qualquer pessoa, independentemente do seu status confessional. Os conservadores não tiveram vergonha de invocar esse método de análise derivado dos pagãos como fonte do ensino católico.

Por que, então, os conservadores estão atordoados porque Francisco e alguns dos Padres do Sínodo da Amazônia acham que é errado a Igreja negligenciar a cultura dos indígenas como fonte de sabedoria e, especificamente, de sabedoria religiosa? Porque é Francisco que está fazendo isso.

Eles podem criticar o papa, é claro, mas não têm o direito de reivindicar o manto da tradição católica ao criticar ele ou o Sínodo sobre essa questão do sincretismo. Adotar o melhor de todas as culturas é a nossa tradição católica.

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