Prioridades indígenas são ignoradas em meio a debates clericais do Sínodo Amazônico

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26 Outubro 2019

Quando Leah Casimero descobriu que havia sido convidada para participar do Sínodo dos Bispos para a Amazônia, ela fez várias pesquisas na internet antes do encontro, entre os dias 6 e 27 de outubro.

A reportagem é de Soli Salgado, publicada por National Catholic Reporter, 25-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O evento reuniria bispos, religiosos e representantes indígenas da região de nove países para atender às necessidades particulares dos milhões de católicos que vivem na maior floresta tropical do mundo.

Mas os resultados da pesquisa de Casimero – seja no Google, YouTube ou nas mídias sociais – a deixaram confusa. A cobertura midiática não refletia as prioridades e as conversas que ela teve com as equipes de consulta antes da reunião, temas que ela pensava que estariam no centro do Sínodo.

“Eu estava vendo apenas celibato, se as mulheres podem ser ordenadas, padres casados”, disse ela, questões tangencialmente relacionadas com a Amazônia devido à sua profunda escassez de padres, embora não seja um debate que o povo amazônico tenha priorizado. “Francamente, eu fiquei chocada quando pesquisei no Google, e essa era a única resposta. Não era isso que eu tinha em mente.”

“Quando eu penso na Amazônia, não penso nisso”, disse Casimero, da tribo Wapichana, em Rupununi do Sul, Guiana. “Penso no respeito à terra e às pessoas, nos direitos humanos, na proteção do ambiente.”

Casimero é coordenadora acadêmica do Programa de Educação Bilíngue de Qualidade para crianças Wapichana, um esforço para manter as línguas, os costumes e os valores tradicionais da tribo, incorporando-os aos currículos escolares.

Nas conversas pré-sinodais, disse ela, o foco estava em garantir que suas terras não enfrentassem o tipo de desenvolvimento destrutivo que eles têm testemunhado nos países vizinhos; que a pouca eletricidade encontrada nas áreas rurais remotas provenham de energia verde; e que o governo reconheça oficialmente alguns títulos de terras, estendendo as reivindicações de outros para incluir suas tradicionais terras de caça e coleta.

“Essa é a prioridade.”

“O ponto principal é a vida”

Quando perguntado sobre o que pensava sobre o tema dos padres casados das mulheres diáconas, o rosto de José Gregório Mirabal se transformou para algo que parecia tédio, não mais tão animado quanto nos momentos anteriores, ao discutir as mudanças climáticas.

“Para nós, isso é uma distração, porque o ponto principal é a vida”, disse o presidente do Coordenadoria das Organizações Indígenas da Amazônia, um grupo que representa a Bacia Amazônica com foco nos direitos dos povos indígenas.

“Esse Sínodo para nós é sobre o planeta”, disse Mirabal. “Ou passamos por um desfiladeiro e destruímos tudo, ou paramos a violência contra a natureza e as pessoas e continuamos como civilização humana.”

As questões do celibato ou do papel das mulheres são um “debate interno para a Igreja, que eles devem resolver”, disse Mirabal, acrescentando que, embora de fora eles possam convocar posições mais importantes para as mulheres e os jovens, “em última análise, a estrutura da Igreja é vertical. Podemos dizer isso, eles podem ouvir, mas são eles que decidem no fim”.

Para Mirabal, líder Curripaco da Venezuela, a escassez de padres na região amazônica inspira uma questão mais existencial: “A Igreja precisa se perguntar o porquê disso”.

"A Igreja tem que se conectar com a luta dos povos indígenas, com a sua cosmovisão, entender a realidade onde eles estão e que a mensagem de salvação e evangelização é importante, mas não pode ser separada da nossa realidade”, disse.

Mirabal observou que o papa disse que esse é um caminho que deve ser feito juntos, mas, para os indígenas, “os nossos caminhos são os da água, através das montanhas, com os pés descalços, e eles precisam entender isso se quisermos caminhar juntos”.

“Temos que esclarecer: se estamos caminhando juntos, para onde vai a estrada? Porque, se for aqui para Roma, não vai funcionar”, afirmou.

O Sínodo pode ser uma boa oportunidade de fotos, apenas mais um evento ou resultar em mais um documento da Igreja, disse Mirabal. “O que importa para nós é o pós-Sínodo, quando pudermos converter o documento final em ação. A nossa presença aqui é garantir que, pelo menos, a nossa voz seja ouvida, respeitada e refletida no documento, mas precisamos de uma garantia de que as questões-chave – o combate da violência contra a natureza e os territórios indígenas da Amazônia – serão postas em ação.”

O modo de vida indígena frequentemente é retratado como um obstáculo ao desenvolvimento moderno, porque “preferimos cuidar do que destruir”, disse Mirabal. “Se você respeitar o que os cientistas estão dizendo, então, neste ritmo, não seremos capazes de viver na Terra por muito mais tempo.”

“Então, nós lhes perguntamos: o que é mais importante para vocês? Para nós, temos clareza a respeito disso”, afirmou. “Se a floresta amazônica for destruída, nós desapareceremos e não queremos desaparecer em nome desse modelo de desenvolvimento. Esse modelo existe às custas do planeta.”

“Nós sustentamos a Igreja”

“Nós confiamos muito na Igreja e por isso esperamos que, independentemente do que acharmos melhor para nós, a Igreja possa nos apoiar e nos acompanhar”, disse Casimero.

Celebrando o 100º ano desde que o catolicismo foi introduzido na região indígena Wapichana, Rupununi do Sul tem uma maioria católica. “A Igreja veio até nós. Não fomos nós que fomos até ela”, disse Casimero. “Eles trouxeram a palavra de Deus para nós, e nós a aceitamos. Em tempos de necessidade e de angústia, em que as nossas terras ou os nossos direitos não são respeitados, recorremos à Igreja em busca de ajuda. Esse é o nosso maior sistema de apoio ao lado do apoio da comunidade.”

“E, quando a Igreja se pronuncia contra as injustiças e assim por diante, é principalmente conversa”, continuou. “Por que não sustentamos isso com ações?”

A questão das diáconas e dos padres casados, embora talvez desequilibrada na cobertura, ainda é de interesse para o povo amazônico. Casimero disse que, em Rupununi do Sul, eles têm um padre para 15 comunidades já geograficamente distantes, e uma comunidade pode celebrar a missa a cada um ou dois anos.

Com pouco acesso ao clero, o ministério leigo “praticamente administra a Igreja”, disse ela.

“O que mais podemos fazer? Deixar de ser católicos porque não há padres? Poderíamos ter feito isso, mas não o fizemos. Aceitamos e seguimos em frente. Outras denominações vieram, mas nós permanecemos católicos, e as mulheres têm estado na frente dessa liderança”, disse ela.

Para Casimero, a escassez de padres implora por mais ministérios oficiais para os leigos, para que “possamos construir a Igreja”, disse ela.

“Sustentamos a Igreja e a mantivemos viva. Mesmo que não tivéssemos padres e irmãs lá, nós continuamos. Isso mostra o nosso compromisso e amor pela Igreja. Portanto, se houver algo em que a Igreja possa nos ajudar – formação, treinamento, recursos –, para nos equipar melhor, para nos ajudar a ser melhores católicos, e não apenas tentando manter a Igreja lá, mas realmente crescer... se a Igreja puder nos ajudar com isso, ficaremos muito felizes.”

 

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