Se queremos que os católicos entendam o ensino sobre a Eucaristia, precisamos de uma abordagem renovada

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28 Agosto 2019

"Se quisermos ajudar os fiéis a receberem plenamente o dom que é a rica e vivificante teologia católica da Eucaristia, então precisamos primeiro entender em que – e como – as pessoas acreditam, e não simplesmente denunciá-las pela ignorância ou desconsiderá-las", escreve Matt Malone, SJ, diretor da revista jesuíta America, em artigo publicada por America, 21-08-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

"Lembro de uma conversa com um teólogo numa universidade católica alguns meses atrás - depõe o diretor da revista America. Debatíamos sobre a Eucaristia. Perguntei se ele poderia escrever um artigo para a revista America. A sua resposta? “Essa não é realmente a minha área”. Sim, este companheiro é um bom estudioso, mas se somos um teólogo católico e não conseguimos escrever 2 mil palavras para o público geral sobre a Eucaristia, então algo está errado. E não é culpa dos participantes da pesquisa do Centro Pew".

Eis o artigo.

Alguns produtos, observou certa vez Jerry Seinfeld, jamais ficam obsoletos porque nunca foram novidade. Lembrei dessa frase enquanto assistia o furor gerado por uma recente pesquisa com católicos americanos realizada pelo Centro de Pesquisas Pew. “Quase 7 em cada 10 católicos (69%)”, segundo o estudo, “dizem pessoalmente acreditar que, durante a missa, o pão e o vinho usados na Comunhão ‘são símbolos do corpo e sangue de Jesus Cristo”. Em outras palavras, explicam os realizadores da pesquisa, “apenas um terço dos católicos americanos (31%) dizem acreditar que ‘durante a missa, o pão e o vinho de fato se tornam o corpo e o sangue de Jesus”.

Podemos imaginar as reações que esta notícia fez surgir nas redes sociais: tudo, desde denúncias reacionárias aos católicos americanos pela sua heresia de facto até convites revolucionários para anunciar o modo como a Igreja se expressa sobre este mistério. Se isso tudo nos soa familiar, é porque já estivemos aqui antes.

Como assinalado acima, esta história não envelhece. A cada ano, um novo estudo mostra que os católicos rejeitariam este princípio fundamental da fé cristã. Essa história é, porém, muito mais antiga do que as pesquisas de opinião. Há mais de 50 anos, o Papa Paulo VI publicava uma encíclica Mysterium Fidei (“O mistério da fé”) para abordar esta confusão entre os fiéis. A Presença Real chama-se real, escreveu o papa, “porque é substancial, quer dizer, por ela está presente, de fato, Cristo completo, Deus e homem”. Mas muito antes disso, em 1215, o Quarto Concílio de Latrão foi convocado em parte para tratar do assunto; ele nos legou o termo transubstanciação. No século V, Teodoro, bispo de Mopsuéstia, sentiu a necessidade de dizer ao seu povo: “O Senhor não disse: ‘Este é um símbolo do meu corpo, e este é um símbolo do meu sangue’, mas sim: ‘Esse é o meu corpo e este é o meu sangue’”.

Essa história dá a entender que a luta para compreender o ensino da Igreja sobre a Eucaristia não é novidade, e que a confusão atual entre os fiéis não é causada nem por um cientificismo preguiçoso, como uns dão a entender, nem pelo emprego de categorias filosóficas antiquadas, como outros diriam. Muitíssimas pessoas se encontravam confusas sobre a Eucaristia quando a metafísica aristotélico-tomista era a única em voga. Caso contrário, por que haveria vinte séculos de esclarecimentos?

E para que ninguém se confunda sobre o tamanho desta confusão, os meus colegas James T. Keane e o padre jesuíta Samuel Sawyer, fizeram a seguinte observação em um artigo recente: “43% dos respondentes no estudo do Centro Pew acreditavam que a Eucaristia é um símbolo e achavam que é isto o que a Igreja ensina. Em outras palavras, enquanto apenas 1 em cada 3 católicos entendem corretamente a teologia, outros 4 em cada 10 entendem acreditar naquilo (pensam eles) que a Igreja ensina”.

Onde isto nos leva? Antes de mais nada, penso que precisamos facilitar as coisas para as pessoas. Como o Sr. Keane e o Pe. Sawyer observam: “Quando se emprega [em outras pesquisas] uma linguagem mais familiar aos católicos e as pesquisas estão mais claras sobre o que está sendo negado pela resposta do ‘símbolo’, então a crença [no ensino tradicional sobre a] Eucaristia é quase o dobro do que encontrou o Centro de Pesquisas Pew”. Mesmo assim, a confusão é real, e provavelmente não é uma questão de semântica apenas. Também é lógico que as mudanças pós-conciliares na catequese não devam ser usadas como bodes expiatórios para esse problema. Os católicos na década de 1940 podiam ser capazes de recitar o Catecismo de Baltimore, palavra por palavra, mas não está de todo claro quantos deles sabiam o que aquelas palavras queriam dizer ou se poderiam responder corretamente a perguntas sobre elas.

Seria útil se a academia assumisse esta questão, se pudesse ajudar as pessoas a melhor entender e articular algo que, se Keane e Sawyer estiverem corretos, já intuem com precisão. Sei que a teologia e a catequese são tipos diferentes de trabalho; mas pela ênfase atual da teologia sobre a ética, por vezes ignoram-se questões de teologia sacramental ou fundamental e oportunidades são perdidas. Lembro de uma conversa com um teólogo numa universidade católica alguns meses atrás. Debatíamos sobre a Eucaristia. Perguntei se ele poderia escrever um artigo para a revista America. A sua resposta? “Essa não é realmente a minha área”. Sim, este companheiro é um bom estudioso, mas se somos um teólogo católico e não conseguimos escrever 2 mil palavras para o público geral sobre a Eucaristia, então algo está errado. E não é culpa dos participantes da pesquisa do Centro Pew.

De minha parte, acho que o citado centro de pesquisas nos fez um favor, mesmo que o método deles tenha falhado. Se quisermos ajudar os fiéis a receberem plenamente o dom que é a rica e vivificante teologia católica da Eucaristia, então precisamos primeiro entender em que – e como – as pessoas acreditam, e não simplesmente denunciá-las pela ignorância ou desconsiderá-las. Em outras palavras, precisamos de uma abordagem renovada.

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