Por que a Eucaristia é confusa para muitos católicos (e pesquisadores)

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13 Agosto 2019

Em “The Habit of Being: The Letters of Flannery O’Connor”, uma carta de O’Connor a um destinatário identificado apenas como “A” conta a história de um jantar em que O’Connor participou em 1955: “Bem, quase de manhã, a conversa tinha se voltado para a Eucaristia, que eu, sendo católica, obviamente deveria defender. A Sra. Broadwater disse que, quando era criança e recebia a hóstia, ela pensava nela como sendo o Espírito Santo, sendo Ele a pessoa ‘mais portátil’ da Trindade; agora ela pensava nela como um símbolo e insinuava que era muito bom. Eu, então, disse, com uma voz muito trêmula: ‘Bem, se é um símbolo, que vá para o inferno”.

O artigo é de James T. Keane e Sam Sawyer, SJ, em artigo publicado em America, 09-08-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma diferença fundamental nos séculos desde a Reforma Protestante entre os ensinamentos e a prática da Igreja Católica e a da maioria das denominações protestantes tem se centrado naquilo que se acredita que acontece na celebração da Eucaristia.

Diferentemente de (muitos de seus) irmãos protestantes, os católicos professam que, na Eucaristia, o pão e o vinho sobre o altar real e verdadeiramente se tornam o corpo e o sangue de Cristo. Além de apontar para a realidade de Cristo (no sentido de um símbolo), eles mesmos são também uma fonte de graça santificante (um sacramento), porque Cristo está real e verdadeiramente (e não meramente simbolicamente) presente neles.

Mas os católicos real e verdadeiramente acreditam nisso? Uma recente pesquisa do Pew Research Center constatou que “a maioria dos autodenominados católicos não acredita nesse ensinamento central. De fato, quase sete em cada dez católicos (69%) dizem acreditar pessoalmente que, durante a missa católica, o pão e o vinho usados na Comunhão ‘são símbolos do corpo e do sangue de Jesus Cristo’”. Em outras palavras, “apenas um terço dos católicos estadunidenses (31%) afirma acreditar que ‘durante a missa católica, o pão e o vinho se tornam o corpo e o sangue de Jesus’”.

Esse resultado pode desanimar Flannery O’Connor e também leva a uma considerável consternação entre catequistas, pastores e fiéis comuns, porque sugere uma falha institucional e pastoral na comunicação de uma doutrina fundamental da fé a várias gerações de católicos. Isso também levou a algumas manchetes alarmadas e a outros efusivos títulos caça-cliques (não, não daremos o link a nenhum deles aqui): “Maioria dos católicos dos EUA rejeita a ideia de que a Eucaristia é o Corpo de Cristo literal”; “Pesquisa: 7 em cada 10 católicos dos EUA não acreditam na presença real”; “Maioria dos católicos acredita que pão e vinho são simplesmente simbólicos”.

Nada novo, e talvez não muito acurado

Mas isso não é novidade. Em um artigo de 1994 no The New York Times, o correspondente de religião Peter Steinfels relatou o seguinte: “No entanto, quando uma amostra representativa de católicos norte-americanos foi perguntada sobre qual afirmação chegava mais perto de ‘o que você acredita que ocorre na missa’, apenas um em cada três escolheu a opção ‘o pão e o vinho se transformam no corpo e sangue de Cristo’”.

Em outras palavras, a porcentagem de católicos estadunidenses que expressam uma crença na Eucaristia que se alinha inteiramente com o ensino da Igreja Católica sobre a transubstanciação absolutamente não mudou em um quarto de um século.

Mesmo à parte das manchetes caça-cliques que sugerem que a crença católica na Eucaristia entrou em colapso recentemente, há outros problemas nessa pesquisa e no modo como ela foi noticiada. Por exemplo, 43% dos entrevistados na pesquisa do Pew acreditam que a Eucaristia é um símbolo e pensam que é isso que Igreja ensina. Em outras palavras, enquanto apenas um em cada três católicos acerta em relação à teologia, outros quatro em cada 10 acham que acreditam naquilo que (eles pensam que) a Igreja ensina. Longe de “rejeitar” a crença na Presença Real, muitos desses católicos provavelmente a afirmariam, se a sua compreensão do ensino da Igreja fosse esclarecida ou se a questão fosse mais exata.

Uma razão para esperar que muitos dos “descrentes” encontrados pelo Pew possam realmente ser “crentes” é que outras pesquisas recentes com perguntas redigidas de forma diferente obtiveram resultados muito diferentes. Como explica Mark Gray, do Centro para Pesquisa Aplicada no Apostolado (CARA, na sigla em inglês), um estudo em 2011 descobriu que 46% dos católicos entendiam o ensino da Igreja e acreditavam na Presença Real, e outros 17% acreditavam nela sem compreender o ensinamento (isso concorda com os dados dos levantamentos do CARA em 2001 e 2008, que constataram que cerca de seis em cada 10 católicos acreditavam que Jesus estava realmente presente na Eucaristia). O que poderia explicar a diferença?

As pesquisas que encontraram maior concordância usaram os termos “torna-se realmente” ou “está realmente presente”, enquanto o Pew usou “torna-se de fato”. E, ao descrever a opção “símbolo”, eles também foram um pouco mais claros sobre o que isso significava – a pesquisa de 2011 descreveu essa opção como o fato de o pão e o vinho serem “apenas símbolos”, e nas pesquisas de 2001 e 2008 a opção era “pão e vinho são símbolos de Jesus, mas Jesus não está realmente presente”. Quando se usa uma linguagem mais familiar aos católicos, e as pesquisas são mais claras sobre o que está sendo negado pela resposta sobre o “símbolo”, a crença na Eucaristia é quase o dobro da que o Pew encontrou.

Confusão de termos

Outra questão é que os termos frequentemente usados no ensino da Igreja podem ser confusos, porque têm múltiplos significados. Por exemplo, o Catecismo da Igreja Católica afirma que “no santíssimo sacramento da Eucaristia estão contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo. Esta presença chama-se ‘real’, não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem ‘reais’, mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem” (n. 1.374).

Em outras palavras, a Igreja Católica acredita que o pão e o vinho realmente se tornam o corpo e sangue de Cristo, mas isso não significa que as características que os tornam pão e vinho para nós não estejam mais lá de um modo real.

Outro problema é filosófico. A Igreja Católica tradicionalmente expressava sua compreensão da Eucaristia usando os termos da teologia tomista, ela própria derivada das ideias filosóficas de Platão e Aristóteles. Nesse contexto, toda coisa criada tem tanto uma “substância” (sua verdadeira realidade) quanto “acidentes”, aquelas características que percebemos de fato, como a sua aparência física.

Nesse sentido, na consagração, a “substância” do pão e do vinho se torna o corpo e o sangue de Cristo, enquanto os “acidentes” continuam sendo os do pão e do vinho – e é por isso que os experimentamos fisicamente inalterados. Essa distinção entre substância e acidentes, no entanto, é uma característica da linguagem técnica da metafísica, e não da descrição cotidiana. E, mesmo como linguagem técnica, “substância” e “acidentes” não são mais usados geralmente entre filósofos e teólogos fora dos círculos tomistas (exceto, talvez, em referência à Eucaristia).

Quando as palavras “realmente” e “de fato” são usadas, como nessas pesquisas, sem chamar a atenção para as distinções metafísicas técnicas, as pessoas contemporâneas provavelmente entendem o seu significado como “empiricamente”. Mas a diferença entre “realmente” e “empiricamente” é exatamente aquilo para o qual a doutrina da transubstanciação chama a nossa atenção.

É por isso que alguns teólogos católicos da segunda metade do século XX, embora afirmando o ensinamento da Igreja sobre a presença real, tentaram encontrar novas formas de descrever a Eucaristia que usassem a linguagem mais próxima da compreensão filosófica e teológica contemporânea da realidade. Edward Schillebeeckx, OP desenvolveu uma teoria da “transignificação”, enquanto Karl Rahner, SJ sugeriu “transfinalização”, mas essas abordagens encontraram pouca atração quando confrontadas com o peso de séculos de linguagem tomista usada para descrever a Eucaristia.

Superando a compreensão

Pode ser que, para a maioria dos católicos que se aproximam da Eucaristia, uma descrição teologicamente precisa daquilo que “acaba de acontecer de fato” sobre o altar é menos importante do que a fé no sacramento, um senso de partilha em comunidade, uma experiência de ação de graças – que é o significado literal da palavra “eucaristia” no grego helenístico – ou uma experiência de oração e de comunhão com o divino. A teologia da Eucaristia é um pouco parecida com aquilo que os maiores pensadores da Igreja Católica disseram todas as vezes que alguém tentou definir a doutrina da Trindade: é um mistério.

O teólogo sistemático australiano Gerald O’Collins, SJ deu uma resposta bastante sensata à revista America em 2015 sobre a questão de como entender a Eucaristia: “Sendo o maior dos sacramentos e o ato central do louvor na vida da Igreja”, disse ele, “a Eucaristia nunca pode ser sintetizada nitidamente”.

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