"This is America". O que Childish Gambino e Flannery O'Connor têm em comum

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26 Maio 2018

"Como falar sobre esta peça extraordinária? Em apenas quatro minutos, "This is America" faz um número surpreendente de referências a assuntos atuais e à cultura negra."

O comentário é de Jim McDermott, publicado por America, 16-05-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Novo clipe da música "This is America" (Isso é América, em português) de Childish Gambino inicia como pretendente antecipada ao hit do verão 2018. Pessoas invisíveis cantam no que parece ser algum tipo de festa na praia, enquanto um violão aparece sozinho no centro da tela, esperando para se juntar à diversão.

Quando violonista chega e começa a tocar, vozes mais fortes criam o ambiente com um som doce e suave, dizendo: "We just wanna party, party just for you” (Só queremos festejar, festa só para você, em português).

Enquanto isso na tela, nós vislumbramos a dança articulada de Gambino (também conhecido como Donald Glover, ator e escritor). Aparentemente despertado pelo ritmo do baixo, ele lentamente olha em nossa direção e começa a dançar.

Em seguida, ele atira na cabeça do guitarrista, nos olha nos olhos e diz: "Isso é América" (This is America).

Como falar sobre esta peça extraordinária? Em apenas quatro minutos, "This is America" faz um número surpreendente de referências a assuntos atuais e à cultura negra, incluindo violência com armas, tiroteios policiais, tiroteios em escolas, revoltas urbanas, o tiroteio na Igreja de Charleston na Carolina do Sul em 2015, coros gospel, teologia da prosperidade, imagens de Jim Crow, linchamentos, memes, Michael Jackson, vídeos virais e o antigo papel de Glover como um garoto nerd de uma faculdade comunitária no programa de TV "Community". Ao mesmo tempo Glover dança num armazém abandonado com crianças de escola felizes, enquanto acontece o caos que é visto no fundo. Os olhos dele raramente nos deixam.

Críticos falaram a mesma coisa sobre o vídeo de diferentes formas. Tre Johnson, da revista Rolling Stone o chama de "uma triste ilustração da barganha faustiana que a América negra faz regularmente, negociando nossos corpos por nossa expressão e liberdade."É verdade que às vezes cada movimento corporal e trecho cantado por Glover parecem denunciar a pose que artistas negros são obrigados a fazer a fim de, como o coro gospel canta, "Get your money, black man" (‘Consiga seu dinheiro, homem negro’, em português). Não é coincidência o fato de Glover lançar o vídeo precisamente no momento em que ele tocou pela primeira vez a música no "Saturday Night Live": ele sabia que lá ele estava fazendo exatamente os tipos de poses que o clipe aponta.

Jason Parnham, no Wired, também descreve como "uma obra de arte malandra que sonoramente rechaça o DNA de músicas de protesto, construindo uma crônica bizarra de tormento reprimido." Doreen St. Félix, no The New Yorker, vê Glover "apontando para o absurdo do culto de celebridades que abrange também a sua própria fama".

De certa forma, o vídeo é a apoteose da cultura viral e sua incessante reapropriação de imagens, eventos e ideias para fins de ironia. Aqui, no entanto, a ironia é confrontada com essa cultura em si. Aquilo que se chama de "meta" e "autoconsciente" se revela mais à frente apenas como mecanismo de autoilusão. Empatia e autorreflexão não têm lugar na terra do GIF. O entretenimento que eles oferecem é apenas um outro tipo de deslumbramento.

"A menor definição de religião," diz o teólogo alemão Johann Baptist Metz, é "ruptura". Para o filósofo francês René Girard a crucificação é um ato que revela a violência como bode expiatório na fundação da civilização. "Não existe nenhuma cultura sem um túmulo e não há túmulo sem uma cultura", argumenta Girard em Things Hidden Since the Foundation of the World (Coisas Escondidas desde a Fundação do Mundo, em português).

Girard postula que a revelação da violência abre caminho para a nossa liberdade. Paradoxalmente, nosso despertar parece constantemente exigir violência própria.

Isso é algo que a grande escritora católica, a americana Flannery O'Connor conhecia bem e explorou em uma pequena história sobre uma viagem de carro de uma senhora com seu filho e a família dele. Muito de "A Good Man is Hard to Find” (Um bom homem é difícil de encontrar, em português) é um retrato do racismo casual, misoginia e insensibilidade.

A mulher e os outros ao redor dela comentam sobre a situação dos outros com desinteresse: "olhem que bonitinho aquele pickaninny [termo racista para se referir às crianças afro-descendentes, ndt]!" diz ela de um menino negro nu que acena para eles. "Se eu pudesse pintar, pintaria aquela imagem."

Então de repente um acidente na estrada faz a mulher ficar cara a cara com The Misfit (O Desequilibrado, em português), uma figura quase mítica que tem assombrado o meio rural, matando pessoas. Enquanto os membros de sua família são levados de dois em dois para a floresta nas proximidades, a mulher insiste que ele é um bom homem.

Finalmente sozinha, com The Misfit agora vestindo a camisa do seu filho e sua morte na mão, a mulher de repente vê essa figura estranha e atormentada com compaixão genuína. "Por que você é um dos meus bebês," ela fala. "Você é um dos meus filhos!"

Depois de matá-la, The Misfit dá a ela um epitáfio e a nós também: "Ela teria sido uma boa mulher se estivesse alguém lá para matá-la a cada minuto de sua vida.”

Não importa o exemplo de Cristo ou do testemunho de artistas, ativistas e jornalistas. O impulso para abafar os gritos das vítimas da sociedade continua a ser tão sedutor como um grande meme. Para Glover e O'Connor, somente por uma experiência de ruptura radical — onde o tapete é puxado dos nossos pés e as regras sobre as quais nós acreditamos que o mundo funciona se revelam ser ficções convenientes — é que uma conversão a uma vida de discipulado, o caminho da bondade, se torna remotamente possível.

Desde que "This is America" foi lançado, as pessoas têm criado infinitos GIFs do clipe. Muitos de Glover dançando alegremente, como se este realmente fosse um vídeo de dança. Também alguns dos momentos terríveis, como a cena final dele correndo pela sua vida, são retratados. Enquanto isso, outros estão remixando o vídeo para músicas de verão. Não nos incomode com verdade ou sofrimento, só queremos festejar.

O'Connor também estava bem ciente da força da nossa resistência à conversão, mesmo depois de um momento de revelação. "Que divertido!" diz um capanga do The Misfit após o brutal assassinato da mulher.

“'Cale a boca, Bobby Lee', The Misfit disse. 'Não há prazer na vida.'”

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