Dorothy Day e Thomas Merton: os católicos radicais citados por Francisco

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25 Setembro 2015

O Papa Francisco tocou as almas dos católicos progressistas em todas as partes nesta manhã, ao mencionar no seu discurso ao Congresso dos Estados Unidos os nomes de três radicais que eles reverenciaram por décadas.

A reportagem é de Thomas C. Fox, publicada no sítio National Catholic Reporter, 24-09-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A maioria dos milhões de pessoas que assistiram o pontífice falar, estão familiarizados com Martin Luther King Jr., o defensor dos direitos civis, pregador da não violência e Prêmio Nobel assassinado em 1968.

Eles estão menos familiarizados com dois outros norte-americanos igualmente dedicados aos princípios não violentos, o monge trapista Thomas Merton e a cofundadora do movimento Catholic Worker, Dorothy Day.

Merton e Day foram os dois católicos norte-americanos radicais mais notáveis do século XX. Ambos basearam as suas visões da vida e da sociedade nos Evangelhos cristãos, especialmente as suas rejeições da violência e o compromisso com os pobres.

Ao citar essas duas figuras, Francisco parece estar elaborando a sua própria visão radical do catolicismo, ao colocar essa visão em um contexto mais reconhecível e compreensível aos católicos norte-americanos.

Lawrence Cunningham, professor emérito de teologia da Notre Dame University, escrevendo sobre Merton, chamou-o uma vez de "o maior escritor espiritual e mestre espiritual do século XX da América de fala inglesa".

Em 1939, depois de se formar pela Columbia University, durante a leitura de um livro sobre a conversão de Gerard Manley Hopkins ao catolicismo, Merton também quis se converter à fé católica. Foi batizado e, no fim, entrou para a vida monástica como monge trapista, encontrando o seu lar na Abadia de Nossa Senhora de Gethsemani, perto de Bardstown, Kentucky. Ele fez os votos solenes em 1947 e, em 1948, publicou a sua autobiografia, A montanha dos sete patamares.

Ao longo dos anos, ele se tornou um escritor prolífico, publicando reflexões profundamente espirituais e mantendo abundantes correspondências com uma vasta gama de figuras públicas e privadas, e, durante todo o tempo, crescendo como crítico radical do militarismo dos EUA.

Ele se tornou um forte opositor da Guerra do Vietnã e da crescente corrida armamentista. A partir da sua ermida em Gethsemani, ele usou a sua escrita para falar contra as ameaças à alma e à sociedade causadas pelas armas nucleares.

Ele escreveu que a violência estava moldando a própria psique da nação.

"O foco real da violência americana não está em grupos esotéricos, mas na própria própria cultura, na sua mídia de massa, no seu extremo individualismo e competitividade, nos seus mitos inflacionados de virilidade e tenacidade, e na sua preocupação avassaladora com o poder do exagero nuclear, químico, bacteriológico e psicológico", escreveu ele certa vez.

"Se vivemos naquela que é essencialmente uma cultura do exagero, como podemos ficar surpresos ao encontrar violência nela?"

Certa vez, ele escreveu em uma carta ao seu amigo Jim Forest que ele não era um "pacifista puro", dizendo que, "no entanto, hoje, na prática, eu não vejo como é que alguém pode ser qualquer outra coisa, já que as guerras limitadas (embora 'justas') apresentam um perigo quase certo de uma guerra nuclear em escala total. É absolutamente claro para mim que estamos diante da obrigação, tanto como seres humanos quanto como cristãos, de lutar de todas as formas possíveis para abolir a guerra".

Ele escreveu uma vez palavras que parecem ecoar Francisco hoje. Ontem, Francisco disse aos bispos norte-americanos para não travarem lutas culturais, mas sim se engajarem na cultura.

Merton escreveu décadas atrás: "O começo do amor é deixar as pessoas que amamos serem perfeitamente elas mesmas e não distorcê-las para que caibam na nossa própria imagem. Caso contrário, amamos apenas o reflexo de nós mesmos que encontramos nelas".

Ao longo da sua vida adulta, Merton manteve consistentemente uma perspectiva antiguerra.

Certa vez, Merton se referiu ao Vietnã como "uma atrocidade avassaladora".

Merton acreditava e afirmava inequivocamente que "a raiz de toda guerra é o medo", não tanto o medo que as pessoas têm umas das outras, mas "o medo que elas têm de tudo".

Merton é amplamente visto hoje como um dos dois ou três pacificistas mais influentes de toda a tradição católica.

Ele abraçou o diálogo inter-religioso, ainda uma ideia relativamente nova na década de 1960. Ele viajou para a Tailândia para participar de um encontro organizado por monges budistas e morreu em um acidente no dia 10 dezembro de 1968.

Dorothy Day

Day, assim como Merton, animou os católicos progressistas ao longo de décadas e continua a fazê-lo em centenas de casas do movimento Catholic Worker, que pontilham as cidades do interior dos Estados Unidos e além.

Foi nos anos 1930 que ela conheceu o companheiro ativista Peter Maurin, e os dois estabeleceram o Catholic Worker Movement [Movimento Operário Católico], um movimento pacifista que combina hospitalidade aos sem-teto e ação não violenta direta.

Ela atuou como editora do jornal The Catholic Worker, que ela e Maurin fundaram, de 1933 até a sua morte em 1980.

Day nasceu em 1897, no Brooklyn, Nova York, e, inicialmente, viveu uma vida boêmia, envolvendo vários casos amorosos e um aborto. Um biógrafo de Day, Robert Coles, descreveu-a como "uma mulher que tinha sido, nos seus 20 anos, uma jornalista e ensaísta bem conhecida, uma romancista, uma amiga próxima de escritores como Eugene O'Neill, Mike Gold, John Dos Passos e Malcolm Cowley".

Em 1932, ela conheceu Maurin, um imigrante francês e um homem de intelecto profundo. Os dois começaram a publicar The Catholic Worker no dia 1º de maio de 1933, ao preço de um centavo e publicado até hoje pelo mesmo preço.

Day tinha uma afinidade para com os anarquistas, e o Catholic Worker, até hoje, muitas vezes vê as suas próprias ações de hospitalidade à luz das tendências anarquistas de Day.

Em junho de 1955, Day uniu-se a um grupo de pacifistas para se recusar a participar de exercícios de defesa civil. Day e outras seis pessoas assumiram a posição de que a sua recusa não era uma disputa legal, mas sim filosófica. Como citado na sua página da Wikipédia, Day disse que ela estava fazendo uma "penitência pública" pela primeira utilização de uma bomba atômica por parte dos Estados Unidos.

À semelhança de outros católicos reformistas da época, Day tornou-se uma entusiasta do Concílio Vaticano II em meados dos anos 1960. Ela esperava que ele endossaria a não violência como princípio fundamental da fé católica, rejeitando a teoria da Igreja da "guerra justa", que ela argumentava que não fazia mais sentido e violava os mandatos dos Evangelhos. Ela afirmou ser imoral não apenas o uso, mas também o armazenamento de armas nucleares, chamando-as de atos de terror.

Ela pressionou os bispos em Roma e se uniu a outras mulheres em um jejum de 10 dias, na tentativa de chamar a atenção para os seus pontos de vista não violentos. Ela escreveu que ficou satisfeita quando o Concílio emitiu um documento dizendo que a guerra nuclear era incompatível com a tradicional teoria católica da guerra justa.

O documento diz: "Toda ação bélica, que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões com os seus habitantes, é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar com firmeza, sem hesitação" [Gaudium et spes, 80].

A hierarquia católica a via como uma renegada durante a maior parte da sua vida. Aparentemente mais manejável depois da sua morte, os bispos católicos passaram a gostar dela. No ano 2000, o falecido cardeal John O'Connor, de Nova York, abriu a causa de canonização de Day. O Papa Bento XVI, nos últimos dias do seu papado, citou Day como exemplo de conversão.

Até hoje, o espírito de Day se entrelaça com o movimento Catholic Worker, ainda bem fora da corrente principal da vida católica. Seus escritos sobre não violência e responsabilidade pessoal para com os mais pobres continuam animando o movimento.

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