Paulo VI, o Santo Papa que relançou a Igreja

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09 Agosto 2019

"Bergoglio é diferente de Montini por índole e história. Estamos em outros tempos. Mesmo assim, com a canonização de Paulo VIFrancisco propôs um modelo: uma grande testemunha do Vaticano II no século XXI. Antes de tudo, para dizer que é uma história da qual não se recua. Acima de tudo, nunca uma Igreja contra. Uma história que, através das crises que acompanham a realidade variegada da Igreja, mostrou fecundidade."

A opinião é do historiador italiano Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio e ex-ministro italiano, em artigo publicado por Corriere della Sera, 07/09-08-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Também neste ano, grupos ligados a Paulo VI recordaram sua morte, há trinta e um anos, em 6 de agosto de 1978, no silêncio de Castelgandolfo, após uma tragédia que o tocou de perto, o assassinato de Moro pelas Brigadas Vermelhas. Este ano, no entanto, o lembraram como "São Paulo VI". Papa Francisco canonizou-o em outubro de 2018. Canonização surpreendente, porque Montini não usufrui da popularidade de João Paulo II, "santo subito" após a morte, nem de João XXIII, que atrai visitantes para sua cidade natal, Sotto il Monte. Ao fazer santo Montini, se quis "canonizar" uma testemunha da igreja conciliar em simpatia com o mundo. Modelo complicado para a piedade popular, mas mensagem clara para a Igreja do século XXI.

Bergoglio olha para Montini quase como um inspirador: ele frequentemente faz referências à Evangelii nuntiandi, com o qual Paulo VI relançou a Igreja. Era 1975, três anos antes de morrer, quando era acossado pelos protestos que abalavam a Igreja desde 1968. Freio para os "progressistas", Papa infiel para os conservadores, Montini desagradou a muitos que o viam como a origem da crise da Igreja e o acusavam de vendê-la por nada, adaptando-a à modernidade. Os fiéis diminuíam; os sacerdotes e os religiosos iam embora: "Com o Vaticano II, esperávamos a primavera e, em vez disso, chegou o inverno", teria dito Paulo VI. Em 1977, um grande historiador escreveu um livro eloquente desde o título: O Cristianismo vai morrer? A maioria dos sociólogos previa um avanço maciço de secularização que eliminaria o catolicismo e as religiões. A história depois seguiu em um sentido completamente diferente.

Bergoglio é diferente de Paulo VI. Paulo VI era especialista em projetos e reformas orgânicas, gradualista, corajoso na mudança e mediador. Foi - dizia Emile Poulat - o "único papa democrata-cristão", por ter sido um dos arquitetos da democracia italiana com a DC no centro, um partido para o qual convergiam os católicos. Uma figura poliédrica, homem de Igreja com uma sensibilidade política: "Nós não estávamos na presença de um clérigo, mas de um laico promovido inesperadamente ao papado", dizia seu amigo Guitton. Um "gênio italiano", longe de ser provinciano, realizador do ingresso do Sul do mundo nas responsabilidades da Igreja. Mas seu Vaticano não era a ONU, onde todas as nacionalidades tinham que ser representadas. Ele tinha um alto sentido do papel de Roma e do elemento italiano na Igreja, não em posição de monopólio como tinha sido, mas como realidade de síntese. Em tempos de fragmentação, estava convencido do papel do papa em propiciar o avanço internacional da Igreja. Para ele, governar era um grande serviço.

João Paulo II não reequilibrou depois do progressismo montiniano, como alguns afirmam. Se há uma figura ligada a Montini, é justamente ele que - com um grande carisma (que Montini não tinha) – moveu-se nos trilhos traçados pelo Papa italiano com admiração por ele, mostrando a fecundidade da estrada aberta. Da mesma forma que ele, insistiu na fé criativa da cultura, tema hoje importante em uma época de emotividade e deculturação também no campo religioso. Mais perplexo em relação a Montini foi Ratzinger.

Bergoglio é diferente de Montini por índole e história. Estamos em outros tempos. Mesmo assim, com a canonização de Paulo VI, Francisco propôs um modelo: uma grande testemunha do Vaticano II no século XXI. Antes de tudo, para dizer que é uma história da qual não se recua. Acima de tudo, nunca uma Igreja contra. Uma história que, através das crises que acompanham a realidade variegada da Igreja, mostrou fecundidade.

O catolicismo, nesta temporada, revela pobreza de ideias e reflexões, no mínimo quanto às mudanças na Itália. Começar de novo a partir de Paulo VI é colocar-se em uma história além da rotina, das pequenas polêmicas, das inércias. Porque sem o anélito da história, faltam visão e futuro.

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