Contemplativos na ação. Uma fórmula inaciana entre Montini e Bergoglio

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06 Agosto 2018

Paulo VI e Oscar Romero 
Foto: http://www.romerotrust.org.uk

Hoje, há 40 anos morreu o papa Paulo VI, que no próximo dia 14 de outubro, será canonizado, juntamente com D. Oscar Romero, pelo papa Francisco. Celebrando a memória de Paulo VI, reproduzimos o artigo de Marcello Semeraro, bispo de Albano, Itália, publicado por L'Osservatore Romano, 3-4 de agosto 2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Na mensagem de 29 de julho do ano passado para o presidente do conselho executivo da Comunidade da vida cristã, o Papa escreveu: "No centro de sua espiritualidade inaciana está o desejo de ser contemplativos na ação. Contemplação e ação, as duas dimensões juntas, porque podemos entrar no coração de Deus somente através das chagas de Cristo, e sabemos que Cristo está nas chagas dos famintos, dos ignorantes, dos marginalizados, dos idosos, dos doentes e dos prisioneiros, em toda carne humana vulnerável".

Poder-se-ia comentar esse texto com Gaudete et Exsultate, onde no n. 96 afirma-se que "ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase"; quem parte, de fato, da contemplação consegue descobrir nos pobres e nos sofredores "o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e suas opções mais profundas, com as quais se procura configurar todo o santo."

A fórmula "contemplativos na ação" é uma clássica expressão do ideal inaciano de perfeição cristã. Em forma muito original, supõe que contemplação e ação cheguem, em um nível profundo, a formar uma unidade até se interpenetram através da caridade. Tanto a ação, como a contemplação, de fato, devem - usando uma expressão do padre Lallemant - proceder de amor e se direcionarem para o amor, para que o amor seja o seu princípio, a sua prática e o seu fim. É o que, a propósito da interação entre ação e contemplação, pode ser lido em um documento publicado, em 1980, pela Sagrada Congregação para os Institutos religiosos e seculares: ponto de partida para toda vida espiritual é "o impulso da caridade alimentada no coração [. ..] considerado como o santuário mais íntimo da pessoa onde vibra a graça da unidade entre a vida interior e a vida exterior"(A dimensão contemplativa da vida religiosa, n. 4).

As palavras do Papa me trouxeram a lembrança de um texto singular de Giovanni Battista Montini, intitulado Método da simultaneidade: uma série de notas, na verdade, não inteiramente homogênea nem completa. Preservado no arquivo do Instituto Paulo VI e publicado na edição no. 53 do noticiário do instituto com comentários de Ignazia Angelini, uma freira beneditina, o documento foi adicionado a uma seleção de Scritti spirituali (Escritos espirituais), apresentados e tratados, em 2014, por Angelo Maffeis para Studium.

Aqui, a questão fundamental levantada por Montini é como "tornar possível uma vida espiritual suficientemente associada com uma atividades exterior absorvente; e, mais precisamente, como reduzir essa atividade para algum proveito para a própria vida interior." Nesta perspectiva, ele cita a fórmula beneditina do ora et labora, que considera a expressão “de um equilíbrio de duas diferentes formas de atividade, colaboradoras para uma mesma finalidade de culto divino e pessoal beatificação" (p. 63). O tema não é novo na história da espiritualidade. Depois do Vaticano II é geralmente reformulado na linha de Teresa do Menino Jesus: "O amor encerra em si todas as vocações" (Manuscrito B, f. 3). É o horizonte dentro do qual se move Montini, cuja vida terrena é, como se sabe, um surpreendente entrelaçamento com a santa de Lisieux.

Essas notas de Montini provavelmente datam de um período pouco anterior do episcopado em Milão. Seu conteúdo é muito semelhante a outros escritos espirituais que remontam ao início dos anos 1950. Entre estes, há um publicado em Riflessioni, Un itinerario di vita cristiana [Reflexões um itinerário de vida cristã em tradução livre, Roma, Dehoniane, 1997], que tem uma afinidade singular com ele: trata-se de uma meditação de 10 de Fevereiro de 1951, totalmente focada na passagem do Evangelho oportet orare semper. Aqui é enunciado o critério que "aquele que entrou em contato com Deus, deve estar sempre em estado de oração" e, portanto, afirma a necessidade de "cultivar o hábito da presença, da união com Deus, da profunda união com ele, da retidão de intenção que deriva Dele, e que a Ele tudo direciona".

Mais uma vez, há uma referência ao ora et labora beneditino, introduzido pela citação de uma passagem a partir de São Tomé; um texto-chave da teologia espiritual: "Orar sempre equivale a preservar a própria vida ordenada a Deus" (Super epistulam ad Romanos, cap 1 lect 5). A reflexão montiniana continua: "Isto é muito importante, pois possibilita a simultaneidade, isto é, fazer muitas coisas ao mesmo tempo. O mestre da vida contemplativa prescreve: ora et labora, isso significa que são duas coisas em uma só, uma só direção, buscar a Deus. De forma explícita quando oro, de forma implícita, final, quando trabalho. Devemos fazer grande caso das intenções, agir com grande retidão de intenção. Se eu faço algo indiferente por amor de Deus, isso adquire o valor de um ato de amor; se eu fizer com muitas intenções: pelo amor de Deus e do próximo, para honrar e servir ao Senhor, a ação é enriquecida de todo o valor dessas intenções" (Reflexões. Um itinerário de vida cristã, p. 19). É o suficiente para imaginar alguma contemporaneidade dessa meditação com as notas mencionadas acima.

O texto do Montini parece, pelo menos intencionalmente, destinado a um processamento adicional, possivelmente para ser publicado. Desde o início, no entanto, uma dimensão autobiográfica também é evidente. Nas premissas, de fato, dois pontos de referência são explicitamente identificados: em primeiro lugar, "a consciência do valor e da obrigação da vida interior”, e depois também a "necessidade imposta pelo dever e por outras circunstâncias independentes da sua vontade própria para lidar com assuntos externos com aquela específica intensidade que limita o tempo e tira a calma para criar o grande silêncio e a profunda palavra da vida interior" (p. 61).

Quanto à primeira exigência, interior e permanente, muito foi escrito. Isso vale para todos os testemunhos de Jean Guitton: Paulo VI adorava reler-se à luz das figuras de seus pais. Ele relata algumas palavras do Papa a respeito: "Ao meu pai [...] devo os exemplos de coragem, a urgência de não render-se passivamente ao mal, o juramento de nunca preferir a vida às razões da vida. Seu ensinamento pode ser resumido em uma palavra: ser testemunha [...]. Para minha mãe eu devo a sensação de recolhimento, da vida interior, da meditação que é oração, da oração que é a meditação" (Diálogos com Paulo VI, Mondadori, 1967, p. 75). A segunda instância reflete, sem dúvida, a situação pessoal dos Montini envolvido na Secretaria de Estado, onde fora substituto desde 1937 e, de novembro de 1952, pró-secretário de Estado para os assuntos ordinários. Essas notas são, portanto, uma espécie de espelho para ele.

A palavra "simultaneidade" do título Método dá simultaneidade nos oferece outra chave para uma maior compreensão do documento. Os termos "simultâneo" e "simultaneidade", na verdade, são bastante frequentes na linguagem de Montini. Com referência à expressão "contemplativos na ação", pode-se relembrar a homília de 27 de setembro de 1970, durante o rito de proclamação de Santa Teresa de Ávila, Doutora da Igreja. O segredo de sua doutrina está "na santidade de uma vida consagrada à contemplação e, simultaneamente, envolvida na ação e de experiência ao mesmo tempo sofrida e apreciada na efusão de extraordinários carismas", disse o Papa.

E, de fato, embora na concreta implementação da Carmelo teresiano não se encontra realizada essa interpenetração de vida ativa e contemplativa (vigendo, pelo contrário, e certamente por razões históricas, a escolha de uma estreita clausura), está presente na doutrina teresiana e hoje os estudiosos do carisma teresiano tendem a destacar justamente esse tema da unidade da vida. Na conclusão do Castelo Interior (ou Moradas), de fato, Teresa escreve: "Crede-me que Marta e Maria hão-de andar juntas para hospedar ao Senhor, e tê-Lo sempre consigo, e não Lhe dar má hospedagem, não Lhe dando de comer. Como Lhe daria Maria, sentada sempre a Seus pés, se sua irmã não a ajudasse? Seu manjar é que, de todas as maneiras que pudermos; ganhemos almas para que se salvem e sempre O louvem." Diante da objeção evangélica que Maria escolheu a melhor parte, Teresa responde com humor inteligente: " É que já tinha feito o oficio de Marta, regalando ao Senhor em Lhe lavar os pés e enxugando-os com seus cabelos. "(VII, IV, 12-13). Realmente original essa releitura da imagem evangélica das duas irmãs. Três séculos mais tarde Teresa do Menino Jesus a retomará na "piedosa recreação” intitulado Jesus em Betânia.

O tema da simultaneidade está presente ainda em dois outros textos, ambos em 1968, e em referência ao ministério sacerdotal. Após a celebração de encerramento do Ano da Fé, em 30 de junho, Paulo VI dirigindo-se aos sacerdotes falaria de um "anseio de contemplação simultânea à atividade." E falando aos duzentos sacerdotes e diáconos que estava prestes a ordenar em Bogotá, em 22 de agosto, ele relembraria que o efeito psicológico sobre eles pela sagrada ordenação será a "dupla polarização” da mentalidade, da espiritualidade e também da atividade “para o dois termos que encontram em nós o seu ponto de contato, a sua simultaneidade: Deus e o homem".

Paulo VI, no entanto, está bem ciente da instabilidade daquele equilíbrio motivado pela fragilidade humana. Eis então que, sempre em Bogotá inaugurando, em 24 de agosto de 1968, a segunda Conferência Geral do Episcopado da América Latina, exclamaria: "Bem-aventurado este nosso tempo atormentado e paradoxal que quase nos obriga à santidade correspondente ao nosso ofício tão representativo tão responsável, e que nos obriga a recuperar na contemplação e no ascetismo dos ministros do Espírito Santo, aquele íntimo tesouro de personalidade, ao qual a dedicação extremamente exigente ao nosso ofício quase nos obriga".

O n. 76 de Evangelii nuntiandi enumera uma série de questões sérias, que o jesuíta Bergoglio irá repropor ditando naqueles anos os exercícios espirituais: " O que é feito da Igreja passados dez anos após o final do Concílio?, perguntávamos nós, não princípio desta meditação. Acha-se ela radicada no meio do mundo e, não obstante livre e independente para interpelar o mesmo mundo? Testemunha ela solidariedade para com os homens e, ao mesmo tempo, o absoluto de Deus? É ela hoje mais ardorosa quanto à contemplação e à adoração, e mais zelosa quanto à ação missionária, caritativa e libertadora?"(J.M. Bergoglio, Meditaciones para Religiosos, Buenos Aires, Diego de Torres, 1982, p. 241). Reporta-se à Evangelii nuntiandi, que é quase o testamento espiritual de Paulo VI, a questão central das notas, ou seja, a simultaneidade de contemplação e ação; tema que já havia proposto na audiência geral de 7 de julho de 1971, quando, enfatizando os critérios fundamentais que devem orientar a implementação plena do magistério do concílio, havia indicado "o antigo binômio, que abrange toda a experiência e a história do nosso catolicismo: contemplação e ação".

No final de tudo isso, porém, o problema real para Montini ainda não é a composição entre contemplação e ação. Ainda mais profundamente se trata de como cumprir a necessidade urgente de orar sempre, que é a necessidade de sempre buscar o Senhor.

Com referência implícita à expressão tomista (in fine nostrae cognitionis Deum tamquam ignotum cognoscere), Montini no Método da simultaneidade escreve: "Um sentimento de viva confiança e de amorosa tendência para o Incógnito Conhecido é, ao que me parece, mais fácil de ocorrer e ser preservado e renovado entre as sucessivas ocupações e distrações do espírito. O sentimento aqui é um pensamento implícito, um conceito dominante e operante, uma atividade quase adormecida, mas sempre viva, uma posse habitual, uma inclinação espontânea para o Objeto amado e procurado. Ardente e composto pode ser associado a outras operações da mente e dos membros e infundir neles uma tonalidade que pode facilmente despertar a consciência mais precisa e direta do Presente divino” (p 64).

Entendemos, por fim, que esse método também envolve a "capacidade de trazer para a oração o que a oração não é, e que oração deve tornar-se" (p. 74). Tarefa esta, talvez, não muito distante das fórmulas inacianas "buscar e encontrar Deus em todas as coisas" e "em tudo amar e servir a Deus", que ressaltam alguns aspectos fundamentais de ser "contemplativos na ação".

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